O problema do universo relógio

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Créditos: iStockphoto.

Por Marcelo Gleiser
Publicado na National Public Radio

Na semana passada, eu escrevi sobre o livre arbítrio, ou se seríamos nós mesmos os agentes de nossas próprias decisões. Devido a isso, eu fui convidado a participar de uma mesa redonda, organizada pelo Foundational Questions Institute (FQXi), para discutir as minhas ideias com colegas de campos diferentes, desde a neurociência cognitiva até a filosofia. Um dos livros que li para me preparar para o encontro foi aquele escrito por Sam Harris, onde ele argumenta, como muitos outros, que o livre arbítrio não é nada mais do que uma ilusão: processos subconscientes seriam responsáveis por tomarem as decisões antes mesmo de termos consciência do fato.

Mesmo que pareça chocante, existem vários experimentos que confirmam essa conclusão. Eu argumentei aqui que esse problema não é tão simples para que a resposta possa ser reduzida a um sim (o livre arbítrio existe) ou não (todas as escolhas são subconscientes). As decisões que tomamos na nossa vida, desde a cor da camisa que vou vestir até se vou ou não me divorciar de minha esposa, abrangem um espectro enorme de complexidade, desde o trivial até aquelas que requerem uma boa dose de reflexão. Essas decisões complexas são de natureza muito diferente daquelas testadas nos experimentos de laboratório. Mesmo que seja óbvio que nenhuma escolha é totalmente livre, pois elas estão sempre limitadas por condições sociais, genéticas e culturais, decisões que envolvem múltiplas instâncias de reflexão interna parecem envolver a nossa percepção e o processo de pensamento consciente.

O que eu não mencionei na semana passada foi a questão do determinismo, essencial em qualquer discussão a respeito do livre arbítrio.

Na física, um sistema é considerado determinístico se seus estados futuros (e os passados) podem ser calculados a partir de seu estado atual. Na prática, sistemas físicos são descritos por equações que nos permitem calcular precisamente sua evolução no tempo. A figura do relógio é frequentemente utilizada para descrever o determinismo, como no universo relógio dos séculos XVIII e XVIV, que levou Pierre Laplace a declarar que se um ser com uma mente superpoderosa conhecesse a velocidade e a posição de todas as partículas do universo, desde as das estrelas mais distantes até as do seu cérebro, ele poderia prever o futuro sem margem de erro. Nesse caso, tudo estaria determinado de antemão pelas leis da mecânica: a escrita desse ensaio, o vencedor da Copa do Mundo do Brasil e a taxa de inflação do ano de 2045.

É claro que em um universo assim o livre arbítrio não pode existir. Seríamos todos autômatos, seguindo uma coreografia predeterminada. Encarando esse tipo de realidade, como podemos culpar os românticos por odiarem a ciência?

Felizmente, esse tipo de determinismo é impossível, ao menos dentro do escopo científico atual. Nós não podemos conhecer a velocidade e a posição de todas as partículas no mesmo instante: como podemos medi-las, se elas estão espalhadas por bilhões de anos-luz no universo? (E quais são essas partículas, afinal? Como alguém pode tentar reconstruir a realidade física desde os elétrons e os quarks, até o cérebro e as galáxias?) E além disso, o comportamento de sistemas com interações complexas (desde o sistema solar até o cérebro) é sensível à precisão com que conhecemos as posições de seus vários componentes. Como nenhuma medida é absolutamente precisa, nós simplesmente não podemos prever o futuro distante. E para fechar a tampa do caixão para o determinismo, a mecânica quântica também impõe uma restrição quanto a conhecer a velocidade e a posição de uma partícula. Ao menos do ponto de vista da ciência atual, o determinismo é inviável.

A alternativa é acreditar que o universo é determinístico, mas nós não conseguimos determinar suas regras: a “máquina” existe além do alcance dos nossos instrumentos e cálculos. Existe um mecanismo de relógio, mas ninguém consegue encontrar a corda. Me parece que esse tipo de determinismo é apenas uma outra versão de Deus: onisciente, onipotente, insondável e impossível de confirmar. Nesse caso, o livre arbítrio é uma ilusão que veio para ficar.

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