O que é ser humano?

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Em uma visão antropocêntrica, é inevitável não pensar no sistema nervoso dos humanos como a obra prima da evolução; um circuito com cerca de 89 bilhões de neurônios, concentrados em um órgão responsável por comandar e codificar informações complexas através de pequenos sinais elétricos, que dentro de si, carregam informações vitais para a sobrevivência, pode ser no mínimo classificado como curioso. O que nos faz humanos, a grosso modo, está concentrado em um conjunto de pequenas células, chamadas neurônios, que nem sequer podem ser definidas com exatidão.

Mais curioso é pensar de onde viemos. No começo, as células que hoje chamamos de neurônios, eram distribuídas em uma camada externa, mas não era vantajoso que esses receptores ficassem expostos ao ambiente, então ao longo do tempo, essas células foram migrando para camadas inferiores do organismo, até se especializarem como processadoras ou efetoras de informação. O sistema nervoso central surgiu quando os então neurônios, passaram a se conectar em circuitos mais densos, responsáveis por comandar a informação e enviá-la à órgãos efetores, que por sua vez, também mandavam informações ao mais novo órgão, conhecido como cérebro.

“O que nos faz humanos” é uma pergunta instigante, as respostas podem variar de acordo com o espectro observado, mas no ponto de vista neuroanatômico, não nos diferenciamos muito dos demais primatas, que compartilham quase a mesma estrutura cerebral que nós. E de acordo com pesquisas da indústria farmacêutica, nossas funções cerebrais se assemelham em 95% com a dos camundongos. A diferença de nosso cérebro para a dos demais animais, não está no número de seus neurônios ou no tamanho dele, mas sim na quantidade de sinapses que expressamos.

Vídeo de neurônios em funcionamento enviando sinais elétricos, direitos reservados ao NeuroLab da GeorgiaTech:

Isso significa que nossos neurônios são mais conectados do que de outros animais, talvez esse seja o motivo de expressarmos funções como self-consciousness, que brevemente descrita é “sentir-se totalmente em controle de suas próprias funções cerebrais e decisões baseadas em vontade própria”. Essa característica ocorre graças a nossa capacidade de acessar memórias e manipula-las, criando novas informações e nos permitindo até mesmo fazer suposições do futuro.

A frase tão famosa “penso, logo existo”, de René Descartes, pode ser uma das definições mais objetivas sobre ser humano.

Os neurônios expressam cerca de 70% do material genético, o que pode explicar porquê existem comportamentos herdados e reproduzidos, os mapas genéticos- tradução não oficial para genetic blueprint-, são frutos de longas gerações de comportamentos repetidos e codificados. Um exemplo desse fator é o ato dos pássaros construírem ninhos para seus filhotes, o que não é um mero ato de instinto, mas uma resposta evolutiva ao ambiente que os cerca. Esse processo não envolve pensamento ou planejamento do futuro, mas sim uma resposta evolutiva a circunstancias do passado. Nos humanos, ocorre a reversão de tempo, com base na consciência, somos capazes de tomar decisões pensadas, que tem como característica a mudança do futuro com bases em episódios aprendidos no passado.

Nos definir como humanos é muito mais do que certas funções fisiológicas ou diferenças anatômicas até hoje apontadas, ser humano é mais complexo que as explicações dadas por neurocientistas acerca da linguagem, consciência ou emoções elaboradas. Pode-se dizer que o conceito de humanidade até o momento é um axioma – algo que não pode ser definido. Não nos desvendaremos até a plena compreensão de nós mesmos, entender os processos ocorridos no cérebro é um passo fundamental para a humanidade, capaz de responder perguntas feitas desde que estamos conscientes de nós mesmos.

Bibliografias:

  • Astrobiology Origins From the Big-Bang to Civilisation, CHELA-FLORES Julián; LEMARCHAND Guilhermo A., ORÓ John. 1° edição, 1999.
  • Cem Bilhões de Neurônios, LENT Roberto, 1° primeira edição, 2001.
  • Evolution of the First Nervous Systems, The Company of Biologists Ltd, The Journal of Experimental Biology, 2015.
  • Introduction to ‘Origin and evolution of the nervous system’, STRAUSFELD Nicholas J.; HIRTH Frank, Phil. Trans. R. Soc. B, 2015.
  • Neuroanatomia Funcional, MACHADO Angelo, 2004.
  • Neuroscience Exploring the Brain, BEAR Mark F.; CONNORS Barry W., PARADISO Michael A., 4° edição, 2015.
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