Oito falácias que contribuem para a anticiência

Por George Dvorsky
Publicado na Io9

Hoje, mais do que nunca, precisamos de ciência. Infelizmente, muitas pessoas pensam que é difícil obter informações precisas sobre o método científico e suas realizações. O problema é que muitos dos argumentos utilizados para desprestigiar ou refutar as descobertas científicas (ou o próprio método científico) estão repletos de erros lógicos. Por esta razão, selecionei oito das falácias anticientíficas mais comuns:

1. Falsa equivalência

Não há dúvida de que a informação equilibrada é importante, mas isso não significa que cada perspectiva única sobre um tema polêmico tenha uma contraparte que mereça igual consideração. Essa é a falácia de falsa equivalência, a afirmação de que há uma equivalência lógica entre dois argumentos opostos quando não há nenhuma.

Esse é um erro que acontece quando os jornalistas tratam de proporcionar um debate “justo” entre um ponto de vista científico e outro negacionista (como o debate entre Bill Nye e Ken Ham). Com demasiada frequência, contudo, o lado dissidente carece de evidências, ou apresenta evidência de má ou duvidosa qualidade. Na verdade, os dois lados de um argumento nem sempre são iguais em termos de qualidade e evidências.

2. Recurso da natureza

Um dos argumentos mais utilizados para atacar os cientistas e os seus trabalhos é o apelo à natureza e a falácia naturalista. A primeira é a crença de que o que é natural é “bom”, enquanto que a falácia naturalista implica que “o que tiver que ser, será”.

Ambas argumentam que o progresso da ciência e tecnologia representa uma ameaça para a ordem natural das coisas. É uma linha de argumentação que elogia a salubridade inerente de todas as coisas naturais, denunciando a insalubridade de todas as coisas não naturais.

3. Observação seletiva

Muitos críticos da ciência deliberadamente (e, às vezes, inconscientemente) selecionam e compartilham informações que servem apenas para bombardear problemas específicos da ciência, sem levar em conta as informações que trabalham para apoiar essas hipóteses.

Por exemplo: “O meu avô fumava e comia mal, e nunca adoeceu” (aqui inclui-se outra falácia: as estatísticas mostram números pequenos). Ou para indicar circunstâncias favoráveis, dispensando ou ignorando as situações desfavoráveis (ou vice-versa).

4. Apelar a fé

“Não estou interessado em evidência, apenas tenho fé que o que creio está certo”. “Discutir acerca da existência de Deus é inútil, porque Deus está além dos argumentos ou razões científicas”. “Nego-me a crer no aquecimento global, porque tenho fé de que Deus não permitirá que algo de ruim aconteça”.

Soa familiar?

Essas frases são repetidas por pessoas que apelam à fé para fazer um argumento, uma falácia em que as convicções religiosas confundem-se com a evidência e a razão. Enquanto que muitas dessas pessoas pensam que estão agindo racionalmente, a verdade é que a escolha de crer em algo não é um substituto para a ciência.

5. Deus das lacunas

A ciência não tem todas as respostas (nem pretende tê-las). Embora aceitemos o fato de que não sabemos como funciona a consciência, o que causou (caso exista uma “causa primordial”) o Big Bang, entre outras coisas. Isso não significa que esses problemas sejam insolúveis; é bem possível que encontremos soluções nos próximos dias ou décadas. Enquanto isso, é importante reunir evidências, propor novas hipóteses e assumir uma ontologia materialista (isto é, a ideia de que todo fenômeno pode ser explicado sem recorrer as ações de uma força divina).

Infelizmente, há uma tendência entre os negacionistas da ciência que tentam preencher as lacunas do conhecimento com explicações de agentes sobrenaturais. Por exemplo, os criacionistas argumentam que a seleção natural não pode explicar adequadamente a complexidade, a diversidade e o aparente design da vida na Terra. Do mesmo modo, nos fenômenos neurológicos, tais como as experiências de quase-morte, atribui-se explicações de agentes sobrenaturais, enquanto existem explicações mais prováveis e plausíveis.

6. O uso das consequências

Apelar às consequências pode ser visto como uma espécie de princípio de precaução, uma medida cautelar para evitar atividades ou esforços científicos que representem ameaças ao ambiente ou à saúde. Em muitos casos, no entanto, os anticientíficos tecem os limites de seus discursos com supostas consequências filosóficas e morais.

Por exemplo, há o medo de que a teoria da evolução dê lugar a um genocídio, ou levar à conclusão de que os seres humanos são melhores do que os outros animais (isto é, a negação da excepcionalidade humana). Uma outra preocupação é a de que o ateísmo e o materialismo conduziram a uma vida imoral.

Claramente, algumas vias de investigação científica são mais perigosas do que outras, mas não é o método científico (ou os cientistas) que tem culpa, mas, sim, como podemos adaptar-nos aos conhecimentos recém descobertos.

7. Retenção de consentimento

“É só uma teoria!”

Não, não é só uma teoria. Os princípios científicos como a seleção natural e a relatividade geral são teorias, mas chega um momento em que essas explicações ou modelos tornam-se tão instrutivas e úteis que se equiparam com o nível de axiomas (uma afirmação ou proposta que está aceita, estabelecida, ou que é evidentemente certa).

Isso não significa que devemos abandonar o ceticismo científico, mas, sim, que é importante reconhecer a importância e utilidade das teorias, e não em desacreditá-las quando nos parecem inconvenientes.

8. Brincando de Deus

Não é uma falácia lógica, mas, sim, um erro de pensamento: a ideia de que a humanidade não deve pisar no que é, tradicionalmente, conhecido como o domínio de Deus, e que, ao fazê-lo, estaríamos sendo arrogantes ou imprudentes.

A preocupação é o fato de que estamos participando de atividades que estão além da nossa compreensão e controle, e que podem irrevogavelmente estragar as coisas. Mesmo correndo o risco de enfurecer a Deus nesse processo.

Afirmações contra a ideia de “brincar de Deus” são utilizadas na questão do aborto, do controle de natalidade, da eutanásia voluntária, da engenharia genética e embrionária, e da colheita de células estaminais.

Nota do Tradutor

[1] Criacionistas, que são defensores do mito da criação bíblica, tentam colocar suas ideias em pé de igualdade com a teoria sintética da evolução, como se fossem ideias equivalentes. No entanto, o criacionismo ocupa o rol de pseudociências por suas afirmações falsas (p.ex., a origem do universo e da vida) e falhas preditivas (p.ex., as profecias pré e pós-apocalípticas), enquanto que a teoria da evolução está fundamentada em evidências que, com o auxílio de modelos que visam representar entidades materiais da realidade (p.ex., os ecossistemas e os seus componentes), explicam a diversidade da vida na Terra e a evolução humana.

[2] O sujeito que faz uso desse tipo de argumento ignora que nem tudo que é natural é bom, como, por exemplo, bactérias, vírus ou venenos de animais e insetos.

[3] Hoje, apesar dos avanços em biomedicina, as pessoas tendem a rechaçar as vacinas olhando para casos isolados que não tiveram estudos adequados, e ignorando revisões sistemáticas altamente rigorosas sobre a eficácia das vacinas.

[4] O apelo à fé pode ser prejudicial na área da saúde. Convém recordamos do dogma anticientífico das testemunhas de Jeová, que acreditam que a transfusão de sangue compromete a pureza do sangue, e, por esta razão, acabam rechaçando o tratamento por causa de suas convicções fideístas sobre a vontade de Deus. Em consequência, as atitudes das testemunhas de Jeová acabam colocando a vida de seus familiares em risco e gerando empecilhos éticos sobre a atividade médica.

[5] (a) A ontologia das ciências fáticas (p.ex., astronomia, biologia, física, história, neurociência, psicologia, química, sociologia, etc.) é materialista, porque elas lidam com entes materiais (campos, cérebros, indústrias, partículas, pessoas, sociedades); (b) não faz sentido afirmar que a ciência pretende responder todas as perguntas, porque muitas perguntas podem estar mal formuladas, outras podem ter surgido em decorrência de hipóteses que eram aceitadas em um dado período histórico (p.ex., “qual é a natureza do éter?”, ou “como o espírito interage com o cérebro?”) e outras que podem ter surgido através de investigações mal conduzidas (p.ex., “como o cérebro consegue mover objetos?”); (c) hoje, a partir do grande estudo da AWARE, sabemos que a consciência pode estar presente, apesar de ser clinicamente indetectável em um nível baixíssimo, em pacientes declarados clinicamente mortos (morte cerebral) que alegam terem voltado à vida, o que explica suas autodeclaradas experiências religiosas como alucinações provocadas pela falta de oxigênio e outras lesões no cérebro.

[6] O medo de que a teoria da evolução dará lugar a um genocídio, assim como aconteceu nos Estados Unidos e na Alemanha nazista, reside na confusão entre a ciência e pseudociência.

[7] As teorias visam explicar os fatos entre os entes materiais da realidade (p.ex., o mecanismo de evolução das espécies, ou a emergência da consciência no cérebro humano, entre outros fatos das quais seus referentes os designam), e não em criar explicações fantasiosas para coisas que não conhecemos.

[8] O transhumanismo, que é o movimento que visa aplicar a ciência e tecnologia para aumentar a capacidade cognitiva e física de seres humanos, vem sofrendo com o ataque conservador por considerar a prática como herética.

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Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Sou fundador da Universo Racionalista | Graduando em Tecnologia em Redes de Computadores pela Universidade de Franca | Especialista em Fundamentals of Computing Network Security ( • Design and Analyze Secure Networked Systems • Basic Cryptography and Programming with Crypto API • Hacking and Patching • Secure Networked System with Firewall and IDS ) pela University of Colorado | Especialização em andamento em Cybersecurity ( • Computer Forensics • Network Security • Cybersecurity Fundamentals • Cybersecurity Risk Management • Cybersecurity Capstone ) pela Rochester Institute of Technology | Certificação em Information Security Specialist ( • InfoSec Foundation • Ethical Hacking Essentials • Computer Forensics Foundation ) pela ITCERTS | Certificação em Information Security Analyst ( • Information Security Policy Foundation • Vulnerability Management Foundation ) pela ITCERTS | Cursei integralmente as disciplinas teóricas em Licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franca, mas não realizei o estágio supervisionado para a obtenção do diploma de Ensino Superior | Especialista em Journey of the Universe: A Story for Our Times pela Yale University | Colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade | Colunista da Climatologia Geográfica | Membro da Rede Brasileira de Astrobiologia | Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes e LinkedIn.