Os cientistas devem superar a política – e reafirmar seu valor para a sociedade

Estudiosos do mundo todo estão sentindo o fervor dos políticos. Eles devem se inspirar nos cientistas dos anos 1950, que alertaram sobre as armas nucleares.

Pouco antes de sua morte em 1955, Albert Einstein foi coautor de um relatório sobre como evitar a guerra nuclear, que levou às Pugwash Conferences, e ajudou a criar acordos de não proliferação. Créditos: Keystone-France / Gamma-Keystone / Getty.

Publicado na Nature

Michael Gove, agora ministro sênior do governo do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, certa vez criticou alertas de acadêmicos e outros profissionais sobre os riscos do Brexit. “As pessoas neste país já tiveram especialistas suficientes”, disse Gove em 2016, pouco antes do Reino Unido ter votado pela saída da União Europeia.

Três anos depois, como as relações entre acadêmicos e políticos em várias democracias estão piorando, os pesquisadores do mundo todo precisam mudar a percepção de que não são confiáveis ou que os cientistas estão, de alguma forma, separados da população em geral – de fato, pesquisas sugerem que a confiança em cientistas nos Estados Unidos está aumentando.

A necessidade é urgente. No final da semana passada, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, demitiu o chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, após um impasse sobre os últimos relatórios da agência, que dizem que o desmatamento na Amazônia acelerou durante sua presidência. Nos Estados Unidos, o Government Accountability Office, um órgão de fiscalização federal, concluiu no mês passado que a Agência de Proteção Ambiental violou as regras de ética quando substituiu cientistas acadêmicos por representantes do setor como membros de painéis consultivos científicos. Na Hungria, no mês passado, o governo assumiu o controle formal de cerca de 40 institutos pertencentes à Academia Húngara de Ciências. Na Índia, no início deste ano, mais de 100 economistas escreveram uma carta aberta ao primeiro-ministro Narendra Modi pedindo o fim da influência política sobre as estatísticas oficiais. E na Turquia, o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan acusou 700 pesquisadores, que assinaram uma petição pedindo paz, com delitos relacionados ao terrorismo. Centenas foram demitidos e um número menor foi preso.

Para algumas dessas comunidades acadêmicas, saber o que fazer é um novo desafio. Uma razão é que, ao longo de várias décadas, muitos governos acolheram os cientistas como consultores – inclusive ouvindo suas preocupações sobre a proteção do financiamento da pesquisa durante a austeridade que se seguiu à crise financeira de 2008. Mas, agora, essa atitude está mudando e os pesquisadores precisam de outras maneiras de fazer ouvir suas vozes.

Acadêmicos encontraram a deles na década de 1950, quando a tecnologia nuclear estava em risco de proliferar sem salvaguardas por causa da corrida armamentista da guerra fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética. Albert Einstein e o filósofo Bertrand Russell criaram um manifesto sobre os perigos das armas de destruição em massa. Isso levou à primeira Pugwash Conference on Science and World Affairs, uma reunião de pesquisadores de vários países e ideologias políticas para discutir os perigos das armas nucleares.

Mais reuniões – formais e informais – seguiram. O que ficou conhecido como o movimento Pugwash deu uma voz global aos pesquisadores que trabalhavam ou apoiavam a não proliferação e serviu como um canal de comunicação entre as superpotências. Pugwash acabou contribuindo para os acordos internacionais de não proliferação nuclear, culminando, em 1995, com o Prêmio Nobel da Paz.

Os pesquisadores sentindo o fervor hoje enfrentam desafios diferentes e mais variados. Isso significa que qualquer tentativa de usar uma abordagem ao estilo Pugwash para lidar com as pressões atuais deve ser fortalecida pela recente compreensão da importância da inclusão – com um papel significativo para o engajamento público – e um lugar na mesa para pesquisadores de diversas origens e de várias disciplinas, não apenas ciência e engenharia.

Mas também há semelhanças importantes com Pugwash, incluindo a necessidade de enfatizar novamente o valor da bolsa de estudos na solução de problemas da sociedade e de um canal de comunicação entre os governos e suas comunidades de pesquisa.

Tal como com Pugwash, crucial para qualquer esforço para dar aos cientistas uma voz maior será a capacidade dos pesquisadores internacionais de se destacar dos argumentos políticos, e afirmar que o apoio à bolsa de estudos não é uma questão de esquerda versus direita, mas de sobrevivência e prosperidade da própria humanidade.

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