Os Primórdios do Racionalismo

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(1958)

Karl Popper

Transcrição: Riis Rhavia Assis Bachega[1]

I – De volta aos pré-socráticos

Volta a Matusalém foi um projeto progressista[2], comparado a “Volta a Tales” ou “Volta a Anaximandro”: Shaw nos ofereceu a expectativa de uma vida aprimorada – algo que estava no ar, pelo menos na época que ele escreveu o livro. Receio não ter a lhes oferecer nada que não esteja no ar atualmente. Quero retornar a simples e direta racionalidade dos pré-socráticos, tão debatida. Onde ela está? A simplicidade e a ousadia de suas perguntas fazem parte dela. Porém, defendo que o ponto decisivo é a atitude crítica, ao qual, como tentarei mostrar, desenvolveu-se originalmente na escola jônica.

Os pré-socráticos tentaram responder, antes de tudo, perguntas cosmológicas, mas também houve outras sobre teoria do conhecimento. Creio que a filosofia deve retornar à cosmologia e a uma teoria simples do conhecimento. Todos os homens pensantes estão interessados em pelo menos um problema filosófico: compreender o mundo em que vivemos e, portanto, compreender nós mesmos (que fazemos parte do mundo) e nosso conhecimento dele. Creio que toda ciência é cosmologia. A meu ver, o interesse da filosofia, tanto quanto o da ciência, reside na ousada tentativa de contribuir para o nosso conhecimento do mundo e para a teoria do nosso conhecimento do mundo. Interesso-me por Wittgenstein, por exemplo, não por causa de sua filosofia linguística, mas por que o Tratactus foi um tratado cosmológico (embora rudimentar) e por que sua teoria do conhecimento vinculou-se estritamente a essa cosmologia.

Para mim, a filosofia e a ciência perdem o atrativo quando abrem mão dessa busca – quando se tornam especializações e deixam de enxergar os enigmas do nosso mundo e se deslumbrar com eles. A especialização pode ser uma grande tentação para o cientista. Para o filósofo é um pecado mortal.

II – A tradição do debate crítico

A história dos primórdios da filosofia grega, especialmente de Tales a Platão, é esplêndida. É quase boa demais para ser verdade. Em cada geração encontramos pelo menos uma nova filosofia, uma nova cosmologia espantosamente original e profunda. Como isso foi possível? Não se pode explicar a originalidade e a genialidade, mas pode se tentar esclarecê-las um pouco. Qual era o segredo dos antigos? Sugiro que era uma tradição: a tradição do debate crítico.

Tentarei enunciar isso de maneira mais clara. Em todas ou quase todas as civilizações, encontramos algo como ensinamentos religiosos e cosmológicos, e em muitas sociedades encontramos escolas. Todas as escolas, especialmente as primitivas, parecem ter uma estrutura e uma função características. Longe de serem locais de debate crítico, assumem a tarefa de transmitir a uma doutrina clara e preservá-la pura e inalterada. Sua tarefa é transmitir a tradição, a doutrina do fundador, do primeiro mestre, à geração seguinte; para isso o mais importante é manter a doutrina inviolável. Esse tipo de escola nunca admite uma ideia nova. Ideias novas são heresias e produzem cismas; se um integrante da escola tenta modificar a doutrina é expulso como herege. O próprio herege, em geral, afirma que a sua é a verdadeira doutrina do fundador. Nem mesmo o inventor admite ter introduzido uma invenção; ao contrário, acredita estar voltando a verdadeira ortodoxia que de algum modo foi pervertida.

Assim, todas as mudanças doutrinais – quando existem – são sub-reptícias. Todas são apresentadas como reafirmações dos verdadeiros conceitos do mestre, das suas palavras, do significado que eles lhe atribuíram, das suas intenções.

Nesse tipo de escola, é claro, não encontramos uma história das ideias ou sequer material para essa história, pois as novas ideias não são tidas como novas. Tudo é atribuído ao mestre. Só podemos reconstruir uma história dos cismas e, quem sabe, da defesa de algumas doutrinas contra os hereges.

Não pode haver debate racional nesse tipo de escola. Pode haver discussão com dissidentes e hereges ou com escolas rivais. Mas, em geral, a doutrina é defendida com afirmação, dogma e condenação, e não com argumentação.

Entre as academias filosóficas gregas, o grande exemplo desse tipo de escola é a que Pitágoras fundou. Comparada com a jônica ou a eleata, ela exibia o caráter de uma ordem religiosa, com um estilo de vida e uma doutrina secreta características. A história que um de seus membros, Hipaso de Metaponto, foi afogado no mar por ter revelado o segredo de que algumas raízes quadradas são números irracionais é típica do clima que cercava a escola pitagórica, seja qual for a veracidade do relato.

Mas entre as escolas filosóficas gregas, os antigos pitagóricos foram uma exceção. Deixando-os de lado, o caráter da filosofia grega e das escolas filosóficas é muito diferente do tipo dogmático que descrevemos aqui. Mostrei isso por meio de um texto[3]: a história do problema da mudança é a história de um debate crítico, de uma discussão racional. Novas ideias são propostas como tais e emergem como resultado de uma crítica franca. Há poucas mudanças sub-reptícias, se é que elas existem. Em vez do anonimato, encontramos uma história das ideias e de seus seguidores.

Temos aí um fenômeno singular, estreitamente ligado à espantosa liberdade e criatividade da filosofia grega. Como podemos explica-lo? O que precisamos explicar é o surgimento de uma tradição. Uma tradição que permite ou incentiva debates críticos entre várias escolas e, o que é mais surpreendente, dentro de uma mesma escola. Fora da escola pitagórica, em nenhum lugar encontramos uma academia dedicada a preservar uma doutrina. Em vez disso, deparamos com mudanças, ideias novas, alterações e críticas francas ao mestre.

(Em Parmênides, chegamos a ver, em data precoce, um fenômeno dos mais notáveis: o do filósofo que propõe duas doutrinas, uma das quais considera verdadeira e outra que descreve como falsa. No entanto, ele não faz a doutrina falsa um simples objeto de condenação ou de crítica, mas apresenta como a melhor descrição possível da opinião enganosa dos homens mortais e do mundo da mera aparência, a melhor descrição que um mortal poderia fornecer.)

Como e onde começou essa tradição crítica? Eis um problema digno de séria consideração. Uma coisa é certa: Xenófanes, que levou a tradição jônica para Eleia, tinha consciência de que seus ensinamentos eram conjecturais e de que poderiam surgir outras pessoas que saberiam mais do que ele. Voltarei nesse ponto na seção III, adiante.

Se buscarmos os primeiros sinais dessa nova atitude crítica, dessa nova liberdade de pensamento, seremos conduzidos à crítica feita a Tales por Anaximandro (ver texto 18). Eis um fato notável: Anaximandro criticou seu mestre e parente, um dos Sete Sábios, fundador da escola jônica. Segundo a tradição, ele era apenas uns catorze anos mais novo que Tales e deve ter elaborado sua crítica e suas novas ideias enquanto o mestre vivia. (Parece que ambos morreram com poucos anos de diferença). Mesmo assim, nas fontes da informação não há vestígio de uma história de discordâncias, brigas ou cismas.

Isso sugere que Tales fundou uma tradição de liberdade, baseada em uma nova relação entre mestre e discípulo. Criou um novo tipo de escola, completamente diferente da Pitagórica. Parece ter sido capaz de tolerar críticas. O que é mais importante: parece ter criado a tradição de que a crítica deve ser tolerada.

Agrada-me pensar que ele fez mais. Mal posso imaginar uma relação entre mestre e discípulo e que o primeiro apenas tolerasse a crítica, sem incentivá-la ativamente. Não creio que um discípulo que estivesse recebendo uma formação dogmática se atrevesse em algum momento a criticar o dogma (muito menos o de um sábio famoso) e a verbalizar suas críticas. Parece-me mais fácil e mais simples presumir que o mestre incentivava a atitude crítica – não desde o começo, quem sabe, mas só depois de se impressionar com a pertinência de umas tantas perguntas formuladas pelo discípulo, sem qualquer intenção crítica.

Seja como for, a conjectura de que Tales teria encorajado ativamente a crítica dos discípulos pode explicar o fato de a atitude crítica em relação à doutrina do mestre ter-se tornado parte da tradição jônica. Agrada-me a ideia de que Tales foi o primeiro mestre a dizer a seus discípulos: “É assim que vejo as coisas, é assim que acredito que as coisas são, tentem aprimorar meus ensinamentos.” (Aos que acreditam ser “anistórico” atribuir essa atitude não dogmática a Tales, lembro que, passadas apenas duas gerações, encontramos atitude similar, formulada de maneira consciente e clara, nos fragmentos de Xenófanes.) De qualquer maneira, existe realidade histórica de que a escola jônica foi a primeira que os discípulos criticavam os mestres, uma geração após outra. Não há dúvida de que a tradição grega de crítica filosófica teve sua principal fonte na Jônia.

Foi uma inovação grandiosa. Representou uma ruptura com a tradição dogmática. Que só permite a doutrina de uma escola. No lugar dela surgiu uma tradição que admite uma pluralidade de doutrinas, todas procurando chegar à verdade por meio do debate crítico.

Isso levou, quase necessariamente, à percepção de que nossas tentativas de ver e descobrir a verdade não são definitivas, mas passíveis de aprimoramento; que nosso conhecimento, nossa doutrina, é conjectural, consiste em suposições, em hipóteses, e não em verdades definitivas e certeiras; e que a crítica e o debate são os únicos meios de chegar mais perto da verdade. Isso criou a tradição de conjecturas ousadas e de crítica livre, a tradição que deu origem à atitude racional ou científica e, com ela, à nossa civilização ocidental, à única civilização baseada na ciência (embora, é claro, não apenas nela).

Nessa tradição racionalista, mudanças ousadas na doutrina não são proibidas. Ao contrário, a inovação é incentivada e vista como um sucesso, um aperfeiçoamento, quando se baseia em um debate crítico dos predecessores. A ousadia de uma inovação é admirada, pois pode ser controlada pelo severo exame crítico a que se submete. É por isso que as mudanças de doutrina, em vez de serem feitas de forma sub-reptícia, são submetidas com as doutrinas mais antigas e com o nome dos inovadores. O material para uma história das ideias passa a fazer parte de uma tradição escolar.

Ao que eu saiba a tradição crítica ou racionalidade foi inventada só uma vez. Perdeu-se depois de dois ou três séculos, talvez graças à ascensão da doutrina aristotélica da episteme, do conhecimento seguro e demonstrável (um desdobramento da distinção eleata e heraclitea entre a verdade certeira e a mera adivinhação). Foi redescoberta e ressuscitada no Renascimento, especialmente por Galileu Galilei.

III – Racionalismo crítico

Passo agora a minha afirmação mais centra: a tradição racionalista, a tradição do debate crítico, é a única maneira viável de expandir nosso conhecimento – conhecimento conjectural ou hipotético é claro. Não há outro caminho. Mais especialmente, não há um caminho que parta da observação e da experimentação. No desenvolvimento da ciência, observações e experimentos só desempenham o papel de argumentos críticos, e o desempenham ao lado de outros argumentos que não surgem da observação. É um papel importante, mas a relevância das observações e experimentos depende inteiramente de eles poderem ou não ser usados para criticar teorias.

De acordo com a teoria do conhecimento aqui esboçada, só existem dois sentidos, em linhas gerais, em que algumas teorias podem ser superiores a outras: se podem explicar mais e se podem ser mais bem testadas – isto é, se podem ser debatidas de maneira mais plena e mais crítica à luz de tudo que sabemos de todas as objeções que podemos imaginar e também em especial, à luz de testes observacionais ou experimentais que tenham sido concebidos com propósito de criticar a teoria.

Só há um elemento de racionalidade nas tentativas de conhecer o mundo: o exame crítico das teorias. Elas, em si, são conjecturas. Não sabemos, apenas conjecturamos. Se me perguntassem: “como você sabe?”, minha resposta seria: “não sei, só conjecturo. Se vocês estivessem interessados em meu problema, ficarei muito contente se criticasse minha conjectura; se me oferecerem contrapropostas, tentarei criticá-las.”.

Essa é a verdadeira teoria do conhecimento (que também desejo submeter à crítica), a verdadeira descrição de uma prática surgida na Jônia e incorporada à ciência moderna: a teoria de que o conhecimento avança por meio de conjecturas e refutações (embora muitos cientistas acreditem no mito baconiano da indução).

Galileu e Einstein, dois grandes homens, viram claramente que não há nada que se possa chamar de processo indutivo e compreenderam o que considero como a verdadeira teoria do conhecimento. Mas os antigos também sabiam disso. Logo depois de iniciada a prática do debate crítico, por incrível que pareça, essa teoria do conhecimento foi formulada e reconhecida de modo claro. Os mais antigos fragmentos preservados a esse respeito são os de Xenófanes. Apresentarei aqui cinco deles, colocados em ordem que sugere que a ousadia de seu ataque e a seriedade de seus problemas o conscientizaram de que modo o nosso saber é conjectural, mas que, ainda assim, buscando o conhecimento “que é melhor”, podemos encontra-lo no correr do tempo. Eis os cinco fragmentos de Xenófanes:

Os etíopes dizem que seus deuses são negros e de nariz chato,

Enquanto os trácios dizem que eles tem olhos azuis e cabelos ruivos.

Mas, se o boi, o cavalo ou o leão tivessem mãos e soubessem desenhar,

E se pudessem esculpir como os homens, os cavalos desenhariam seus deuses como cavalos, e os bois como bois, e depois cada um moldaria corpos dos Deuses à semelhança, cada um, deles mesmos.

Os deuses não nos revelaram tudo desde o começo,

Mas ao longo do tempo,

Mediante a busca, os homens descobriram o que é melhor. […]

Imaginamos que essas coisas assemelham-se à verdade

Mas quanto à verdade certeira, nenhum homem a conheceu

Nem conhecerá; nem sobre os deuses

Nem sobre as coisas que falo.

E ainda que porventura viesse a enunciar

A verdade última, ele mesmo não a conheceria:

Pois tudo não passa de uma teia de conjeturas.

Xenófanes não estava sozinho. Posso lembrar dois ensinamentos de Heráclito, que já citei em um contexto diferente. Ambos expressam o caráter conjectural do conhecimento humano, e que o segundo se refere à ousadia deste, à necessidade de anteciparmos ousadamente àquilo que não sabemos.

Não é da natureza ou do caráter do homem possuir o verdadeiro conhecimento, embora seja da natureza divina. […] Aquele que não espera o inesperado não o identificará: ele permanecerá indetectável e inabordável.

Minha última citação é uma frase famosa de Demócrito:

Nada sabemos por tê-lo visto, pois a verdade se esconde nas profundezas. 

A atitude crítica dos pré-socráticos prenunciou e preparou o racionalismo ético de Sócrates: sua crença em que a busca da verdade por meio do debate crítico era um estilo de vida – o melhor que ele conhecia[4].


[1] Transcrito da coletânea “Textos Escolhidos”, organizada por David Miller, Ed. PUC Rio.

[2] Referência a George B. Shaw, Volta a Matusalém – Um Pentateuco metabiológico, trad, João Távora, São Paulo: Edições Melhoramentos, 1953. O livro, lançado em 1921, contém um prefácio e cinco peças teatrais [N.T.]

[3] Cosmologia e mudança (1958) – Texto 18 desta mesma coletânea

[4] Os fragmentos citados são, respectivamente: Xenófanes B 16, 15, 18, 35 e 34; Heráclito B 78 e 18; e Demócrito B 117, in H. Diels e W. Krantz, Die Fragmente der Vorsokratiker, 5ª edição, 1964. [Todas as traduções são de Popper. Uma tradução alternativa de todos os fragmentos pré-socráticos, na mesma ordem de Diels & Krantz, pode ser encontrada em Katheleen Freeman, Ancilla to The Pre-Socratic Philosophers, 1948.]

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