A filosofia científica de Mario Bunge

O autor enfatiza que Mario Bunge não é só um clássico da filosofia científica, "mas também uma fonte contínua de inspiração e inovação em qualquer um dos campos mais relevantes da filosofia atual".

Créditos: Biblioteca Digital | Programa de História da FCEN, Faculdade de Ciências Exatas e Naturais, Universidade de Buenos Aires.

Publicado por Miguel Quintanilla no Materia
Instituto de Estudos da Ciência e Tecnologia da Universidade de Salamanca

Mario Bunge é um dos filósofos mais reconhecidos e importantes do mundo na atualidade. Não é seguramente o mais famoso e popular porque não cultiva nenhuma das variedades da filosofia pós-moderna e anticientífica que infectam as aulas universitárias tanto da Espanha e Europa como na América. Muito pelo contrário, é um dos poucos filósofos contemporâneos que sempre reivindicou a ciência como modelo de conhecimento e a razão iluminista como padrão para o pensamento tanto da esfera teórica como da prática, tanto na discussão filosófica como no debate político. Pode não ser popular, no entanto, ele é bem conhecido na esfera profissional. Não só porque ele recebeu prêmios como o Prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades, mas porque dezenas de milhares de estudantes tornaram-se familiarizados com o método científico através de suas obras. Ao longo de sua longa e frutífera vida acadêmica, ele escreveu mais de 80 livros em inglês e castelhano, traduzidos em muitos idiomas, e cultivados em todos os gêneros filosóficos e alguns literários. Sua obra mais monumental são os oito volumes do Tratado de Filosofia Básica, originalmente escrito em inglês (Treatise on Basic Philosophy), atualmente em processo de tradução para o espanhol (Editora Gedisa). Mas por incrível que pareça, Bunge não é só um clássico da filosofia científica, mas também uma fonte contínua de inspiração e inovação em qualquer um dos campos mais relevantes da filosofia atual.

A editora Laetoli lançou uma iniciativa que ajudará com que um público mais amplo possa desfrutar ao mesmo tempo das obras clássicas deste autor e de suas novas e mais atuais ideias, onde mesclam-se à filosofia da ciência com a preocupação pela política científica, a defesa da racionalidade com o ataque as pseudociências, a análise metacientífica com a reflexão política. Trata-se da Biblioteca Bunge, de onde saíram até agora três volumes.

La ciencia: su método y su filosofía é uma reedição de uma das primeiras obras bungeanas (1959). Para filósofos ou cientistas formados na tradição do que conhecemos como a “concepção herdada da ciência” este livro lhes recordará de que a ciência é uma realidade muito mais complexa do que um sistema de enunciados com estrutura dedutiva. A apresentação do método científico no capítulo 2 ou da noção de lei científica no 3 são peças clássicas da reflexão metacientífica. E os entusiastas da filosofia pós-kuhniana da ciência também poderão desfrutar do capítulo adicionado em 1994, com um título provocador: “Uma caricatura da ciência: a novíssima sociologia da ciência”.

O segundo volume da Biblioteca, Materialismo y Ciencia, é uma reedição de uma obra de 1981, bem conhecida, mas de difícil acesso na atualidade. Trata-se de uma apresentação simplificada, mas completa, de sua ontologia materialista, incluindo uma crítica severa ao materialismo dialético, a ontologia platônica de Karl Popper, e o dualismo psicofísico, assim como uma proposta realmente original de uma concepção materialista dos valores e da cultura. O livro contém também um pequeno apêndice delicioso: “Novos diálogos de Hylas e Filonus”, que o autor escreveu em 1953, para marcar o 250° aniversário da obra de Berkeley, de mesmo título, onde Bunge desmonta os argumentos empiristas e antimaterialistas do bispo britânico. O materialismo não é uma filosofia da moda, mas nas mãos de Bunge é ao menos uma filosofia coerente, precisa, completa e atrativa. E é a única filosofia em plena sintonia com o pensamento científico de nossa época.

O terceiro e último volume é uma reedição atualizada de Pseudociencia e Ideología, de 1985. Apesar do tempo decorrido, todas as análises, críticas e reflexões de Bunge nesta obra continuam sendo atuais e essenciais para leitura, sendo ainda mais urgente do que quando apareceu pela primeira vez. Aqui o autor apresenta suas ideias sobre a ciência como uma instituição social, a tecnologia, as ideologias tanto científicas como anticientíficas, a política da ciência, o futuro da civilização técnico-científica. Algumas de suas admoestações podem parecer inoportunas em 1985, mas o tempo tem dado mais valor. Por exemplo esta, com que termina suas reflexões sobre o futuro da ciência:

…é possível que estejamos no começo de uma crise da ciência básica que, se continuar, resultará em uma Nova Idade Média. Se desejamos evitar esta catástrofe, é necessário que seja feito algo para mudar a “imagem pública” da ciência, de modo que possa seguir atraindo alguns dos jovens mais inteligentes e siga merecendo o apoio de administradores e políticos esclarecidos, sem a necessidade de prometermos algo que não podemos dar. Deixemos de pintar a ciência como provedora de riqueza, bem-estar ou poder: pinte-a em troca do que ela é, ou seja, o esforço mais bem sucedido para compreender o mundo e entender a nós mesmos.

Bunge é um filósofo esclarecido, racionalista, materialista, crítico, comprometido com a ciência e com uma concepção progressista da sociedade e da política. Por isso tem sido e segue sendo um filósofo essencial para o nosso tempo. Agora que as possibilidades de que os cidadãos acessem o conhecimento da filosofia estão ficando cada vez mais reduzidas dos planos de estudo, a iniciativa da editora Laetoli, criando esta biblioteca de obras essenciais, deve ser bem-vinda.

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