Polvos, lulas e caranguejos têm emoções?

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Crédito: Pixabay.

Por Sandra McLean
Publicado na York University

Os polvos podem resolver quebra-cabeças complexos e mostrar preferência por diferentes indivíduos, mas se eles e outros animais invertebrados têm emoções é algo que está sendo muito debatido e pode abalar a tomada de decisões morais dos humanos, disse um especialista da Universidade de York, no Reino Unido, em mentes animais.

A maioria dos países não reconhece invertebrados, como polvos, caranguejos, lagostas e lagostins, como seres sencientes que podem sentir dor, mas o Reino Unido está considerando alterações em sua legislação de bem-estar animal que reconheça isso.

“Um relatório da Escola de Economia e Ciência Política de Londres (LSE, na sigla em inglês) encomendado pelo governo do Reino Unido descobriu que há evidências fortes o suficiente para concluir que os crustáceos decápodes e os moluscos cefalópodes são sencientes”, disse a professora e filósofa da Universidade de York, Kristin Andrews, da Cátedra de Pesquisa da York em Mentes Animais, que está trabalhando com a equipe da LSE.

Andrews coescreveu um estudo publicado essa semana na revista Science, “The question of animal emotions” (A questão das emoções dos animais, na tradução livre), com o professor Frans de Waal, diretor do Centro de Conexão Vivas da Universidade Emory, que discute as questões éticas e políticas em torno dos animais considerados sencientes.

Andrews aponta que há muito tempo se pensa na cultura ocidental que outros animais não sentem dor ou têm emoções. “Tem sido uma verdadeira luta até mesmo para ter peixes e mamíferos reconhecidos sob a lei de bem-estar como sencientes. Então, é bastante inovador o que parece estar acontecendo no Reino Unido com invertebrados”.

Considerava-se que bebês humanos pré-verbais não sentiam dor até pelo menos a década de 1980. Muitos ainda pensam que os animais, incluindo os invertebrados, não sentem dor e só têm reações inconscientes a estímulos negativos. No entanto, pesquisas com mamíferos, peixes, polvos e, em menor grau, caranguejos, mostraram que eles evitam a dor e os locais perigosos, e há sinais de empatia em alguns animais, como as vacas – elas ficam angustiadas quando veem que seu filhote está em dor.

Reconhecer a senciência dos invertebrados abre um dilema moral e ético. Os humanos podem dizer o que sentem, mas os animais não têm as mesmas ferramentas para descrever suas emoções. “No entanto, a pesquisa até agora sugere fortemente sua existência”, disse Andrews, que está trabalhando em um projeto de pesquisa chamado Animals and Moral Practice (Animais e Prática Moral, na tradução livre).

“Quando estamos vivendo nossas vidas normais, tentamos não fazer mal a outros seres. Então, trata-se realmente de reeducar a maneira como vemos o mundo. Como exatamente tratar outros animais continua sendo uma questão de pesquisa em aberto”, disse Andrews. “Não temos ciência suficiente agora para saber exatamente qual deve ser o tratamento adequado de certas espécies. Para determinar isso, precisamos de uma maior cooperação entre cientistas e especialistas em ética”.

Pode haver um ponto em que os humanos não possam mais presumir que lagostins, camarões e outros invertebrados não sentem dor e outras emoções.

“Se eles não puderem mais ser considerados imunes à sensação de dor, as experiências dos invertebrados precisarão se tornar parte do cenário moral de nossa espécie”, disse ela. “Mas a dor é apenas uma das emoções moralmente relevantes. Invertebrados como os polvos podem experimentar outras emoções, como curiosidade na exploração, afeição por indivíduos ou empolgação na expectativa de uma recompensa futura”.

Talvez seja hora de olhar para o nosso mundo de forma diferente.