Por que alguns dos tentilhões de Darwin evoluíram para se tornarem tentilhões vampiros

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(Créditos: Jaime Chaves)

Traduzido por Julio Batista
Original de Kiyoko Gotanda et. al. para o The Conversation

Para a maioria das pessoas, a palavra “vampiro” traz à mente Drácula ou talvez os caçadores de vampiros como Blade ou Buffy; ou talvez até mesmo os morcegos vampiros da América do Sul. Poucos pensarão em um pássaro pequeno e adorável – o tentilhão.

Mas existem de fato “tentilhões vampiros” que se banqueteiam com o sangue de pássaros muito maiores, e eles foram apresentados ao mundo em um trecho fantástico de Perfect Planet, a nova série narrada por David Attenborough para a BBC. Para nós, esses tentilhões dispensam apresentações, pois os estudamos de perto.

Essas aves são encontradas nas Ilhas Galápagos, um arquipélago vulcânico localizado a cerca de 1.000 quilômetros da costa do Equador. As ilhas são um exemplo de biodiversidade em parte devido ao seu isolamento. Os organismos que de alguma forma conseguem chegar às Galápagos devem se adaptar às condições adversas ou serão extintos.

Um desses grupos de organismos são os tentilhões de Darwin. Nomeado em homenagem ao naturalista Charles Darwin, que coletou exemplos do animal em sua famosa viagem a bordo do HMS Beagle, este grupo de tentilhões consiste em várias espécies que evoluíram de um ancestral comum.

Cada espécie desenvolveu um tamanho e formato de bico diferentes, o que permite explorar diferentes itens alimentares. Por exemplo, o tentilhão de cacto tem um bico longo e fino que lhe permite consumir o néctar das flores de cacto. Algumas espécies têm bicos que são melhores para esmagar sementes, enquanto outras são melhores para se alimentar de insetos ou plantas.

Faz sentido que diferentes espécies de tentilhões tenham evoluído para consumir diferentes tipos de alimentos nas Ilhas Galápagos, mas de onde veio a alimentação de sangue?

Como a sucção de sangue evoluiu

Os tentilhões vampiros são encontrados apenas em Wolf e Darwin, as duas ilhas mais ao norte do arquipélago e remotas até mesmo para os padrões de Galápagos. Ambas as ilhas são minúsculas, cada uma com menos de um quilômetro quadrado, e estão separadas das ilhas maiores por 160 quilômetros de oceano aberto. A água doce é extremamente rara e alguns alimentos podem desaparecer completamente durante a estação seca.

Em algum ponto nos últimos meio milhão de anos – recentes em termos evolutivos – os tentilhões chegaram a Wolf e Darwin e começaram a coexistir com grandes aves marinhas que nidificam nas ilhas, como os atobás-de-patas-vermelhas e os atobás-de-nazca.

Com o tempo, parece que os tentilhões provavelmente evoluíram para comer parasitas encontrados nas penas e na pele dos atobás. Era o “mutualismo” em ação: os atobás se beneficiavam da remoção dos parasitas e os tentilhões se beneficiavam por terem uma alternativa à sua dieta usual de néctar, sementes e insetos que podem desaparecer durante a estação seca.

Eventualmente, no entanto, a remoção dos parasitas levou a lesões cutâneas abertas nos atobás, permitindo que os tentilhões consumissem sangue.

Os tentilhões aprenderam até a furar a pele perto da base das penas mais jovens para acessar o sangue diretamente, não precisando mais dos parasitas dos insetos. Assim, os tentilhões aproveitaram um recurso alimentar alternativo, o sangue dos atobás, e ganharam o apelido de “tentilhões vampiros”.

É difícil saber exatamente quanto da dieta do tentilhão é sangue de atobás, mas nossos dados não publicados sugerem que é cerca de um décimo.

A seleção natural parece ter ajustado o bico do tentilhão vampiro para perfurar a pele e sugar sangue, já que os pássaros desenvolveram bicos particularmente longos e pontiagudos em comparação com as populações que não se alimentam de sangue em outras ilhas. E uma vez que um alimentador de sangue perfura a pele, ele ainda precisa de uma maneira de consumir e digerir o sangue.

Quando estudamos os micróbios encontrados nas vísceras desses tentilhões vampiros em busca de adaptações, encontramos um microbioma muito diferente de qualquer outra espécie de tentilhões de Darwin, provavelmente causado pela dieta do sangue.

Como foi ver isso tudo pessoalmente

Dois da nossa equipe, Daniel e Jaime, visitamos Darwin e Wolf para estudar esses tentilhões fascinantes em ilhas raramente visitadas, mesmo por pesquisadores.

Chegar lá foi extremamente desafiador, pois não há praias para desembarcar. Tivemos que nos aproximar das falésias em um pequeno bote e então esperar por um breve intervalo nas ondas antes de pular nas rochas pontiagudas de lava negra.

Mas este isolamento significa que os tentilhões vampiros são abundantes, e as densas colônias de procriação de atobás tornaram mais fácil imaginar como esse estranho comportamento de sugar sangue poderia ter evoluído.

Os atobás ficam incrivelmente vulneráveis ​​ao cuidar de ninhos e filhotes, pois relutam em abandoná-los, mesmo que temporariamente.

Nós observamos dezenas de tentilhões vampiros pousando nas costas, caudas e asas de atobás, abrindo feridas substanciais com seus bicos afiados e bebendo sua porção de sangue.

“Tentilhões vampiros da Ilha Wolf-Galápagos, e suas vítimas são os atobás-mascarados.” (Créditos: Jaime A. Chaves [@chavecito76]/Twitter)

Curiosamente, os tentilhões parecem agir como um verdadeiro parasita, infligindo danos suficientes para garantir uma refeição sem prejudicar excessivamente o hospedeiro.

Para os atobás, toda a experiência realmente é muito semelhante a um ser humano atacado por mosquitos. Embora possam tolerar os tentilhões, os pequenos sugadores de sangue são um incômodo que os atobás tentam se livrar. E quando tudo fica doloroso ou irritante demais, eles podem ser forçados a voar para longe.

E quem pode culpá-los? Quando capturamos tentilhões para coletar amostras, encontramos gargantas cheias de sangue e bicos manchados de vermelho. Era evidente que os pequenos vampiros não estavam apenas lambendo algumas gotas de sangue.


Kiyoko Gotanda é pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Sherbrooke e da Universidade de CambridgeDaniel Baldassarre é professor-assistente de Zoologia da Universidade Estadual de Nova York em Oswego, e Jaime Chaves é professor-assistente de Ecologia e Evolução da Universidade Estadual de São Francisco.