Por que não estou preocupado com consumo do café

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Créditos: Getty Images / Flickr.

Por Gideon Meyerowitz-Katz
Publicado no Blog do Gideon

Tradução de Felipe Nogueira

Como tenho um blog de ciência e saúde, uma das perguntas mais comuns que as pessoas me fazem é sobre café. As pessoas se preocupam frequentemente se elas consomem café demais, porque aparentemente café faz mal para saúde, ou consomem menos do que deveriam, porque é milagroso. Há uma literatura vasta sobre os impactos do café, cafeína e bebidas relacionadas na saúde. Apesar de ser difícil resumir tudo em um artigo, a pesquisa é relativamente consistente — o café não é nem uma cura milagrosa para seus problemas, nem um veneno que está te matando lentamente.

Aqui está a minha interpretação da evidência e por que estou tranquilo com o meu hábito de consumir 2-5 xícaras de café por dia.

Os riscos do café

A primeira parte da equação é o risco com o hábito de beber café. Vale a pena dizer que este artigo parte da ideia de um consumo médio de café pelos humanos, porque a cafeína pode ser fatal em doses altas. Se você estiver bebendo menos de 10 xícaras de expresso por dia, este artigo é para você. Porém, se você estiver próximo de uma dose tóxica de cafeína com o equivalente a 40-50 xícaras em menos de 24 horas, você deveria considerar diminuir a quantidade*.

Deixando de lado o risco de consumir uma piscina de café mensalmente, os problemas são extremamente pequenos. Há uma grande quantidade de pesquisa observacional olhando os potenciais danos do café na saúde, já que é uma exposição bem comum. De forma geral, os riscos ou não são observados ou são relativamente mínimos.

Por exemplo, há evidências de que um alto consumo de café (mais de 4 xícaras por dia) está associado a um maior risco de câncer de bexiga. Similarmente, mais do que 4 xícaras de café por dia parece estar correlacionado, em algumas pesquisas observacionais, com maiores chances de doença cardíaca, o que pode parecer preocupante em um primeiro momento.

Entretanto, tais estudos normalmente são bem inconclusivos. Até quando há um risco maior de câncer, ele parece existir apenas em alguns subgrupos da população (nesse caso, fumantes), além de poder não ser uma relação causal. Enquanto há um risco aumentado de doença cardíaca associado com beber MUITO café, 1-3 xícaras por dia não mostra um risco similar e pesquisas longitudinais não apoiam esse achado em muitos casos. Além disso, quando olhamos o risco de café e TODOS os cânceres, parece não existir nenhuma associação.

Quando temos evidência de estudos randomizados, a figura fica ainda mais nebulosa. Há alguns dados mostrando que café impacta seus lipídios séricos (colesterol, triglicerídeos, etc), mas é um aumento modesto e não consistente entre todos os estudos. Outras pesquisas sobre marcadores de doença cardíaca e controle da glicose encontraram resultados inconclusivos e em alguns casos até benefícios (a curto prazo).

Até as recomendações mais comuns, como não beber cafeína durante a gravidez, é difícil de ser assertivo. Sim, há uma associação entre café e piores desfechos na gravidez, mas também é inconsistente: na sua maioria, foram vistos apenas com altas quantidades ingeridas de café. E pesquisas intervencionais — onde as mulheres recebem diferentes quantidades de café para beber durante a gravidez — não mostraram esses impactos. Todo mundo sabe que beber café é ruim para o sono, mas quando olhamos a pesquisa da relação entre cafeína/café e sono ruim é difícil chegarmos a uma conclusão, porque há o risco óbvio de causalidade reversa (pessoas que dormem mal bebem mais café para ficarem acordadas).

Olhando tudo, parece que o café tem um risco pequeno. Sim, há algumas questões com altos níveis de consumo, mas até esses são inconsistentes e não necessariamente causais.

E o outro lado da moeda?

Os benefícios do café

Este é um artigo particularmente divertido, porque o contraponto às fracas evidências dos danos relacionados ao café é um outro bando de evidências fracas dos benefícios dessa nossa bebida deliciosa.

Por exemplo, beber café está associado com um risco inverso de câncer orofaríngeo. O café também está relacionado com um menor risco de cânceres de intestino, de fígado, de ovário, de tireoide e de pele.  Boas notícias, certo?

Entretanto, lembre o que eu disse anteriormente — café não está ligado com um risco reduzido de qualquer câncer, apenas cânceres específicos em certos estudos e, até mesmo para esses cânceres, os resultados são bem inconsistentes em populações diferentes. Além disso, esses estudos sofrem das mesmas limitações daqueles estudos que observam os danos — é muito difícil separar os impactos causais de estudos que essencialmente consistem em perguntar para os participantes a quantidade de café que eles bebem e, então, verificar se eles desenvolveram câncer alguns anos depois.

Um bom exemplo disso é a diabetes. O café está fortemente associado com um risco reduzido de diabetes em grandes estudos observacionais. É um resultado que foi replicado algumas vezes, com muitos mecanismos causais que podem explicá-lo.

No entanto, quando você conduz um ensaio clínico randomizado dando café para um grupo e placebo para outro grupo, os benefícios na redução de glicose no sangue são bem pequenos e de curta duração.  Esses ensaios clínicos são bem pequenos, então é difícil termos certeza, mas é um argumento interessante de que as evidências dos ensaios clínicos não apoiam os estudos observacionais.

Outra coisa que sempre me chama a atenção quando eu vejo esse tipo de evidência sendo discutida na mídia é que a pesquisa geralmente identifica um benefício bem pequeno oriundo de, se formos honestos, uma grande intervenção. Beber uma xícara a mais de café é pedir muito para a maioria das pessoas. Embora esteja correlacionado com um risco reduzido de diabetes, a redução é pequena: um risco 0,01% menor de ser diagnosticado com diabetes a cada ano. Em outras palavras, para cada 100 mil pessoas que bebem 1 xícara de café por dia, esperamos 400 novos diagnósticos de diabetes a cada ano. Se todas elas bebessem uma xícara extra de café diariamente, reduziríamos para 390 os novos casos de diabetes ao ano.  

Não é um benefício tão grande quanto as manchetes sugerem.

Escolhas

Há evidências de que o café é prejudicial, mas não são muito fortes e podem ser causadas por fatores de confusão residuais ou por problemas relacionados com o desenho dos estudos. Há evidências  de que o café é benéfico, mas não são muito fortes e podem ser causadas por fatores de confusão residuais ou por problemas relacionados com o desenho dos estudos.

Minha resposta para isso? Beba café se você quiser, não beba se não quiser.

Claro, essa não é uma recomendação para todos. Há razões para acreditarmos que o café pode ser danoso para pessoas com certas condições de saúde e para crianças. Mesmo os danos sendo pequenos, é preferível pecarmos pelo excesso de cautela. Gravidez é outra área que mesmo os riscos não sendo muito grandes, a maioria das recomendações pecam pela cautela. Até mesmo quando o risco pode não ser causal, a recomendação geral é que limitar o consumo de café até 1 xícara por dia.

Se o seu médico falar para você beber menos café, a resposta óbvia é seguir a recomendação. Mas para as pessoas em geral que apenas gostam de uma ou cinco xícaras de café por dia? A evidência mostra que os benefícios e riscos provavelmente são pequenos.

Beba café se você gosta. É isso o que eu vou fazer!

* Para os interessados, uma dose tóxica de cafeína para um adulto é por volta de 3g. Essa dose pode não ser letal, mas você se sentirá mal e, provavelmente, precisará ir para o hospital. Como o café é preparado de diferentes formas, a quantidade de cafeína por litro varia muito, mas cada shot de expresso tem por volta de 50-150 mg de cafeína. Dependendo de como você prepara o café, você pode alcançar o nível tóxico de cafeína bebendo entre 20 e 60 xícaras de café de uma vez.


Gideon Meyerowitz-Katz é um epidemiologista, escritor de ciência e aluno de doutorado na Universidade de Wollongong. Ele trabalha em Sydney com doenças crônicas, focando nos determinantes sociais que impactam a saúde. Além de escrever sobre saúde/ciência no seu blog, ele escreve regularmente para o jornal The Guardian e Observer.