Positivismo e Cientificismo

Rudolf Carnap foi um filósofo alemão e um dos principais membros do Círculo de Viena.

Por Mario Bunge
Publicado no Cien Ideas

Hoje em dia, nos meios filosóficos hispano-americanos, não há nada pior do que ser chamado de positivista, qualificativo geralmente identificado como se fosse sinônimo de cientificismo. Nesses círculos, a moda é a anticiência, o pós-modernismo e o pensamento fraco: em suma, o que antes era conhecido como obscurantismo. Por esta razão, não me chateio quando me acusam de positivista, apesar de eu ter criticado duramente o positivismo por décadas.

De fato, há filosofias que, em minha opinião, são muito piores do que o positivismo.

Por exemplo, o hegelianismo, a fenomenologia e o existencialismo. As três são piores do que o positivismo por serem enigmáticas e porque são inimigas da ciência. Por serem enigmáticas se prestam a intermináveis discussões escolásticas. E por serem inimigas da ciência obstaculizam o seu progresso.

Afinal, o positivismo foi continuador do Iluminismo do século XVIII: era pró-científico. Digo “foi” e não “é”, porque o último filósofo positivista, Rudolf Carnap, morreu em 1970. Os positivistas restantes são médicos, químicos, naturalistas e sociólogos presos na antiguidade, empiristas que temem o “macaneo” (em espanhol platino é uma gíria para “delírio”) e as teorias.

Há algumas semanas eu dei uma conferência na Faculdade de Medicina da Universidade McGill. Durante o debate que se seguiu, dei-me conta de que a filosofia dos médicos é positivista. Além disso, alguns querem receitas para escrever prescrições. Eles ficaram com raiva quando eu disse-lhes que, longe de serem investigadores científicos, são encanadores de luxo, sobrecarregados com informações, mas pobres em teorias.

A tese principal do positivismo é que só se pode conhecer os fenômenos, ou seja, as aparências. Para os positivistas não tem (ou teve) sentido falar sobre o inobservável, tal como os átomos, a evolução ou o conflito de classes. Se negam (ou negavam) a afirmar ou negar a existência real das coisas, incluindo a realidade do mundo exterior para o observador.

As únicas hipóteses que suportam (ou suportavam) os positivistas são as generalizações indutivas, ou seja, condensações de dados empíricos, tais como “todas as vacas mugem” e “os cães uivam quando pisam em seu rabo”.

A desconfiança pelas teorias fez com que os positivistas consequentes rejeitassem a teologia. Mas essa desconfiança não os impediu de aceitar pseudociências que pretendiam apoiar os seus dados. Por exemplo, nenhum positivista criticou a psicanálise.

É verdade que os neopositivistas, ao contrário dos positivistas clássicos, aceitaram teorias de alto voo, tais como a relatividade, a quântica e a evolução. Mas eles tentaram apresentá-las como se referindo exclusivamente a observações e medições. Esta foi uma distorção porque, como apontado por Einstein e Planck, os postulados dessas teorias se referem as coisas em si, tais como elétrons e campos, que existem por trás dos fenômenos ou aparências. Para entender completamente estas teorias é preciso reinterpretá-las em forma realista, que por sua vez implica em despositivá-las, como eu fiz em meu livro Foundations of Physics (1967).

Em resumo, o positivismo elimina o “delírio”. Dado que o “delírio” prospera nos países subdesenvolvidos, uma dose de positivismo pode parar a verbosidade. Por isso odeiam os obscurantistas: não por suas limitações, mas porque eles flertam com o delírio. Este é o lado positivo do positivismo.

O lado negativo do positivismo, o fenomenalismo herdado de Hume, Kant, Comte e Mach, é um freio para a ciência. Mas é fácil detecta-lo e elimina-lo.

Deste modo, resgata-se o realismo, ou seja, a tese de que o universo existe por si só e pode ser conhecido.

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