Quatro falácias da psicologia evolutiva pop

0
417
Crédito: Getty Images.

Por David J. Buller
Publicado na Scientific American

Conforme usado nesse artigo, o termo psicologia evolutiva pop, ou PE Pop, refere-se a um ramo da psicologia teórica voltado ao consumo popular que emprega princípios evolutivos para apoiar afirmações sobre a natureza humana.

Falácia 1: a análise dos problemas adaptativos do Pleistoceno fornece pistas para o design adaptativo da mente

Tooby e Cosmides argumentaram que, pelo fato de podermos ter quase certeza de que nossos ancestrais do Pleistoceno tiveram que, entre outras coisas, “selecionar parceiros de alto valor reprodutivo” e “induzir parceiros em potencial a escolhê-los”, também podemos ter quase certeza de que adaptações psicológicas evoluíram para resolver esses problemas. Mas os esforços para identificar os problemas adaptativos que impulsionaram a evolução psicológica humana enfrentam um dilema.

Por um lado, embora seja verdade que nossos ancestrais tiveram que, por exemplo, “induzir parceiros em potencial a escolhê-los”, tal descrição é muito abstrata para fornecer qualquer indicação clara da natureza das adaptações psicológicas humanas. Todas as espécies enfrentam o problema de atrair parceiros. Os pássaros-jardineiros machos constroem caramanchões (ninhos) bastante decorados, as borboletas machos oferecem presas capturadas e os toutinegras machos cantam um amplo repertório de canções. Descobrir quais estratégias os ancestrais humanos tiveram que usar requer uma descrição muito mais precisa do problema adaptativo para os primeiros humanos.

Descrições mais precisas dos problemas adaptativos que nossos ancestrais enfrentaram, entretanto, são desafiadas pela outra ponta do dilema: essas descrições são puramente especulativas, porque temos poucas evidências das condições sob as quais ocorreu a evolução humana inicial. O registro paleontológico fornece algumas pistas sobre alguns aspectos da vida humana inicial, mas é amplamente ausente de evidências a respeito das interações sociais que teriam sido de principal importância na evolução psicológica humana. Nem as populações de caçadores-coletores existentes fornecem muitas pistas sobre a vida social de nossos ancestrais. Na verdade, os estilos de vida desses grupos variam consideravelmente, mesmo entre aqueles que vivem nas regiões da África que foram povoadas pelos primeiros humanos.

Além disso, como argumentou o biólogo Richard Lewontin, de Harvard, os problemas adaptativos enfrentados por uma espécie não são independentes de suas características e estilos de vida. A casca da árvore contribui para os problemas adaptativos enfrentados pelos pica-paus, ao contrário das pedras que ficam abaixo da árvore. Em contraste, para os tordos, que usam pedras para quebrar as cascas dos caracóis, as pedras são parte dos problemas adaptativos que enfrentam, ao contrário das cascas das árvores. Da mesma forma, os processos motivacionais e cognitivos de nossos ancestrais teriam sido seletivamente responsivos a certas características dos ambientes físico e social, e essa responsividade seletiva teria determinado quais fatores ambientais afetaram a evolução humana. Portanto, para identificar os problemas adaptativos que moldaram a mente humana, precisamos saber algo sobre a psicologia humana ancestral. Mas nós não sabemos.

Finalmente, mesmo que pudéssemos identificar precisamente os problemas adaptativos enfrentados por nossos ancestrais ao longo da história evolutiva humana, ainda não poderíamos inferir muito sobre a natureza das adaptações psicológicas humanas. A seleção cria soluções para problemas adaptativos ao reter modificações em características preexistentes. A adaptação subsequente é sempre uma função de como as características preexistentes são modificáveis. Para saber como uma solução para um problema adaptativo evoluiu, então, é necessário saber algo sobre a característica preexistente que foi selecionada e modificada para resolver o problema. Sem o conhecimento dos traços psicológicos de nossos ancestrais – que não temos – não podemos saber como a seleção afetou eles para criar as mentes que agora possuímos.

Falácia 2: nós sabemos, ou podemos descobrir, por que características distintamente humanas evoluíram

Os biólogos costumam reconstruir as pressões de seleção que impulsionaram a evolução de uma espécie, usando o método comparativo para estudar um clado ou grupo de espécies descendentes de um ancestral comum. Como todas as espécies do grupo descendem de uma forma comum, as diferenças entre elas podem ser o resultado de variações nas demandas ambientais que enfrentam. Quando uma característica é compartilhada por duas ou mais espécies em um clado, mas não pelas outras, às vezes, é possível identificar demandas ambientais comuns a essas espécies, mas ausentes entre as espécies sem a tal característica. Correlacionar diferenças de características com variações ambientais específicas, dessa forma, pode indicar as demandas ambientais às quais uma característica está adaptada.

Mas o método comparativo oferece pouca ajuda para a aspiração da PE Pop revelar a história adaptativa dos traços psicológicos – incluindo a linguagem e as formas complexas de cognição – que, supostamente, constituem a natureza humana. Pinker, por exemplo, argumentou eloquentemente que a linguagem é uma adaptação para a comunicação verbal de infinita complexidade combinatória. Ele, provavelmente, está certo de que a linguagem é uma adaptação. Mas descobrir o porquê ela evoluiu – para que essa adaptação ocorreu – requer identificar as funções adaptativas que a linguagem serviu entre os primeiros usuários da linguagem. Para empregar o método comparativo visando responder a essas perguntas, precisamos comparar alguns traços psicológicos humanos com sua forma homóloga em espécies com as quais compartilhamos um ancestral comum. Aqui está o problema. Entre as espécies existentes, nossos parentes mais próximos são os chimpanzés e o bonobos, com quem compartilhamos um ancestral comum que viveu há aproximadamente seis milhões de anos. Mesmo eles, nossos parentes mais próximos, não possuem formas de traços psicológicos complexos, como a linguagem, cuja evolução a PE Pop pretende explicar. Portanto, não podemos identificar as demandas ambientais que compartilhamos com nossos parentes mais próximos para ver quais de nossos traços psicológicos comuns estão adaptados. Em vez disso, precisamos identificar as demandas ambientais que impulsionaram nossa separação evolutiva de nossos parentes vivos mais próximos durante os últimos seis milhões de anos.

O que poderia nos esclarecer sobre esses eventos evolutivos seria informações sobre a ecologia e o estilo de vida de espécies mais intimamente relacionadas com as quais compartilhamos algumas habilidades cognitivas superiores. Então, talvez, pudéssemos identificar demandas ambientais compartilhadas com eles, mas ausentes entre o chimpanzé e o bonobo (e outros primatas). As espécies que se enquadram nesse projeto são os outros hominíneos, os australopitecinos e as outras espécies do gênero Homo. Infelizmente, todos os outros hominíneos estão extintos. E hominíneos mortos não contam (virtualmente) nenhuma história sobre suas histórias evolutivas. Portanto, há uma escassez de evidências necessárias para usar o método comparativo a fim de iluminar a história evolutiva de características distintamente humanas. (É por isso que existem várias teorias sobre a evolução da linguagem, mas nenhuma sugestão sobre como as evidências podem ser usadas para escolher alguma delas.)

Entretanto, o método comparativo, às vezes, fornece informações úteis sobre adaptações distintamente humanas. Mas, como apontou o filósofo Jonathan Michael Kaplan, da Universidade do Estado de Oregon (EUA), quando isso ocorre, não é por características que são universais entre os humanos, mas por características que aparecem apenas em algumas populações humanas. Por exemplo, sabemos que o gene que produz a anemia falciforme (quando uma pessoa tem duas cópias do gene) é uma adaptação para resistência à malária (quando uma pessoa tem apenas uma cópia do gene). Nossas evidências derivaram da comparação de populações humanas que possuem o gene com populações humanas que não o possuem e da identificação das demandas ambientais relacionadas à sua presença.

Como o método comparativo iluminou essas adaptações fisiológicas, é razoável supor que ele poderia iluminar também algumas adaptações psicológicas. Mas isso é uma posição confortável para a PE Pop, que afirma que todas as adaptações psicológicas humanas são, de fato, universais entre as populações humanas. São precisamente esses traços universais e distintamente humanos para os quais o método comparativo oferece pouca utilidade. Portanto, é improvável que os relatos da evolução de nossa alegada natureza humana universal algum dia ultrapassem o nível de especulação.

Falácia 3: “Nossos crânios modernos abrigam uma mente da Idade da Pedra”

A afirmação da PE Pop de que a natureza humana foi projetada durante o Pleistoceno, quando nossos ancestrais viviam como caçadores-coletores, está errada do começo ao fim da época.

Alguns mecanismos psicológicos humanos, sem dúvida, surgiram durante o Pleistoceno. Mas outros são resquícios de um passado evolutivo mais antigo, aspectos de nossa psicologia que são compartilhados com alguns de nossos parentes primatas. O neurocientista evolucionário Jaak Panksepp, da Universidade de Bowling Green State (EUA), identificou sete sistemas emocionais em humanos que se originaram mais profundamente em nosso passado evolutivo do que no Pleistoceno. Os sistemas emocionais que ele chama de Cuidado, Pânico e Diversão datam dos primórdios da história evolutiva dos primatas, enquanto os sistemas de Medo, Fúria, Ambição e Luxúria têm origens ainda mais antigas, pré-mamíferas.

O reconhecimento de nossa história evolutiva mais profunda pode afetar muito a maneira como entendemos a psicologia humana. Considere o acasalamento humano. Buss argumentou que as estratégias de acasalamento humano foram projetadas durante o Pleistoceno para resolver problemas adaptativos que eram únicos na formação da evolução humana. Assim, observando que os humanos buscam acasalamento de curto e longo prazo (às vezes, cedendo a breves infidelidades no contexto de um relacionamento contínuo), ele interpreta esses comportamentos como aspectos de um conjunto integrado de adaptações psicológicas que calculam inconscientemente os benefícios reprodutivos de cada estratégia. Quando os benefícios reprodutivos potenciais de uma oportunidade de acasalamento de curto prazo são maiores do que os custos potenciais, essas adaptações levam à infidelidade.

Se reconhecermos que aspectos de nossa psicologia são remanescentes da história evolutiva pré-humana, teremos um quadro muito diferente. De fato, como nossos parentes mais próximos, o chimpanzé e o bonobo, são espécies altamente promíscuas, nossa linhagem provavelmente embarcou na característica exclusivamente humana de sua jornada evolutiva com um mecanismo de luxúria projetado para promover o acasalamento promíscuo. As características psicológicas que surgiram posteriormente durante a história evolutiva humana foram construídas sobre essa base. E sabemos que alguns sistemas emocionais subsequentemente evoluíram para promover a união de pares que é onipresente entre as culturas humanas, mas ausente em nossos parentes primatas mais próximos. Não temos nenhuma razão, no entanto, para pensar que os mecanismos de luxúria e união de casais evoluíram juntos como partes de uma estratégia de acasalamento integrada. Na verdade, eles, provavelmente, evoluíram como sistemas separados, em diversos pontos da história evolutiva de nossa linhagem, em resposta a diferentes demandas adaptativas, para servir a propósitos distintos.

Se essa interpretação alternativa da psicologia do acasalamento humano estiver correta, não temos “uma mesma visão” relacionada a nossos relacionamentos sexuais. Em vez disso, possuímos impulsos psicológicos concorrentes. Somos impelidos à promiscuidade por mecanismos evolutivamente antigos de luxúria e a formação e laços de casais de longo prazo por sistemas emocionais evoluídos mais recentemente. Em vez de sermos impulsionados por uma psicologia integrada do Pleistoceno que calcula inconscientemente qual impulso seguir quando somos divididos por mecanismos emocionais desenvolvidos independentemente.

A visão de que “nossos crânios modernos abrigam uma mente da Idade da Pedra” também confunde as coisas no estágio contemporâneo de nossa história evolutiva. A ideia de que estamos presos a uma psicologia adaptada ao Pleistoceno subestima muito a taxa na qual a seleção natural e sexual pode conduzir à mudança evolutiva. Estudos recentes demonstraram que a seleção pode alterar radicalmente as características da história da vida de uma população em apenas 18 gerações (para humanos, cerca de 450 anos).

É claro que essa evolução rápida só pode ocorrer com uma mudança significativa nas pressões de seleção que atuam sobre uma população. Mas a mudança ambiental desde o Pleistoceno alterou sem dúvida as pressões de seleção sobre a psicologia humana. As revoluções agrícola e industrial precipitaram mudanças fundamentais nas estruturas sociais das populações humanas, que, por sua vez, alteraram os desafios que os humanos enfrentam ao adquirir recursos, acasalar, formar alianças ou negociar hierarquias de status. Outras atividades humanas – que vão da construção de abrigos à preservação de alimentos, da contracepção à educação organizada -, também alteraram consistentemente as pressões de seleção. De acordo com o que temos de exemplos claros de adaptação fisiológica pós-Pleistoceno às mudanças nas demandas ambientais (como resistência à malária), não temos razão para duvidar de uma evolução psicológica semelhante.

Além disso, as características psicológicas humanas são o produto de um processo de desenvolvimento envolvendo a interação entre os genes e o ambiente. Mesmo que pouca evolução genética tenha ocorrido desde o Pleistoceno, o que é duvidoso, os ambientes humanos mudaram profundamente, como os exemplos acima indicam. Todos os genes que possuímos selecionados pelo Pleistoceno irão interagir com esses novos ambientes para produzir traços psicológicos que podem diferir de maneiras importantes daqueles de nossos ancestrais do Pleistoceno. Portanto, não há nenhuma boa razão para pensar que todas as nossas características psicológicas evoluídas permanecem adaptadas ao estilo de vida dos caçadores-coletores do Pleistoceno.

Falácia 4: os dados psicológicos fornecem evidências claras para a PE pop

A PE Pop argumenta que suas especulações sobre nosso passado no Pleistoceno levaram à descoberta de muitas das adaptações psicológicas que controlam nosso comportamento. Como a abordagem funcionou, ela deve incidir sobre parte da verdade sobre a história evolutiva humana. Claro, a solidez desse argumento depende da força das evidências para as alegadas descobertas da PE Pop. Essas evidências geralmente consistem em dados psicológicos padrão (como respostas a questionários de escolha forçada), mas, às vezes, também incluem um conjunto limitado de dados comportamentais. Como argumento em meu livro Adapting Minds, entretanto, a evidência é tipicamente inconclusiva, na melhor das hipóteses. As hipóteses evolutivas favoritas da PE Pop são, como o filósofo Robert C. Richardson, da Universidade de Cincinnati (EUA) classificou, “especulação disfarçada de resultados”. A aparência de que as evidências são convincentes é criada menos pelos próprios dados e mais pela falha de considerar e testar adequadamente explicações alternativas viáveis. Considere uma único exemplo desse ponto.

Buss argumenta que o ciúme evoluiu como um alarme emocional que sinaliza as potenciais infidelidades de um parceiro e causa um comportamento destinado a minimizar as perdas do  investimento reprodutivo. Entre nossos ancestrais, ele continua o argumento, as infidelidades acarretavam custos reprodutivos diferentes para os dois sexos. Para os machos, a infidelidade sexual de uma fêmea significava que ele poderia estar investindo recursos parentais na prole de outro macho. Para as mulheres, era o envolvimento emocional de um homem com outra mulher que poderia levar à perda de seus recursos. E, de fato, Buss afirma ter descoberto a diferença sexual em questão nas “características projetadas” evoluídas da mente ciumenta: a mente masculina é mais sensível aos sinais de infidelidade sexual, enquanto a mente feminina é mais sensível a pistas de infidelidade emocional.

Os principais dados citados em apoio a essa teoria são as respostas a questionários de escolha forçada. Um item do questionário, por exemplo, pergunta aos sujeitos o que eles acham mais perturbadores: “imaginar seu parceiro formando um vínculo emocional profundo” com um rival ou “imaginar seu parceiro tendo uma relação sexual apaixonada” com um concorrente. Os resultados mostram consistentemente que mais homens do que mulheres relatam que a ideia de infidelidade sexual de um parceiro é mais angustiante do que a ideia de infidelidade emocional de um parceiro.

Mas esses dados dificilmente são evidências conclusivas de adaptações psicológicas diferenciadas por sexo. Em vez disso, ambos os sexos poderiam ter a mesma capacidade evoluída de distinguir infidelidades ameaçadoras de não-ameaçadoras e sentir ciúme em um grau proporcional à ameaça percebida em um relacionamento no qual se investiu esforço de acasalamento. Essa capacidade compartilhada poderia gerar os resultados do questionário de Buss por causa de crenças adquiridas sobre uma diferença sexual nos tipos de comportamento que representam uma ameaça a um relacionamento. Na verdade, vários estudos descobriram que é amplamente aceito, por ambos os sexos, que os homens têm mais probabilidade do que as mulheres de fazer sexo na ausência de qualquer envolvimento emocional. Dada essa crença, os homens acharão a infidelidade sexual de uma mulher mais ameaçadora do que as mulheres acharão de um homem.

Essa hipótese alternativa também explica prontamente os dados que não são facilmente acomodados pela teoria de que há uma diferença sexual nas características projetadas evoluídas da mente. Em primeiro lugar, os homens homossexuais têm menos probabilidade do que as mulheres heterossexuais de achar a infidelidade sexual mais perturbadora do que a infidelidade emocional. E os homens homossexuais, como grupo, também têm menos probabilidade do que os homens ou mulheres heterossexuais de acreditar que a infidelidade sexual representa uma ameaça ao relacionamento primário. Se os sexos compartilham a mesma capacidade de ciúme, com o grau de ciúme sexual determinado pelo grau de ameaça percebida a um relacionamento, a tendência dos homens homossexuais de não considerar a infidelidade sexual ameaçadora faria com que eles se afastassem da norma masculina.

Em segundo lugar, o grau em que os homens consideram perturbadora a perspectiva de infidelidade sexual da parceira varia significativamente entre as culturas. Por exemplo, apenas cerca de um quarto dos homens alemães relatam que a infidelidade sexual é mais perturbadora do que a infidelidade emocional. Curiosamente, Buss e seus colegas notaram que a cultura alemã tem “atitudes mais descontraídas sobre a sexualidade, incluindo sexo extraconjugal, do que a cultura estadunidense”. Portanto, os homens alemães devem ter menos probabilidade do que os homens estadunidenses de acreditar que a infidelidade sexual de uma parceira ameaça um relacionamento e, portanto, menos propensos a sofrer com a infidelidade sexual do que os homens americanos. Novamente, essa diferença cultural é precisamente o que deveríamos esperar se o grau de ciúme sexual fosse função do grau em que a infidelidade sexual é percebida como uma ameaça a um relacionamento.

Não está claro o porquê a PE Pop resiste à ideia de que os sexos compartilham o mesmo mecanismo emocional de ciúme e que as diferenças de atitude são uma função das diferenças nas crenças processadas pelo mecanismo. De acordo com a PE Pop, muitas diferenças culturais derivam de uma natureza humana comum, respondendo a condições locais variáveis. No entanto, as diferenças culturais são frequentemente mais profundas do que as diferenças sexuais que a PE Pop transformou em teoria. Se a variação cultural pode resultar de uma natureza comum respondendo a contribuições diferentes, certamente as diferenças sexuais em atitudes e comportamento também podem.

Conclusão

Entre os legados duradouros de Darwin está nosso conhecimento de que a mente humana evoluiu por algum processo adaptativo. Afinal, o cérebro humano é ainda mais caro de operar do que um atual motor de combustão interna, consumindo 18% da ingestão de energia do corpo enquanto constitui apenas 2% de seu peso. Não teríamos tal órgão se ele não tivesse desempenhado algumas funções adaptativas importantes em nosso passado evolutivo.

O desafio para a psicologia evolutiva é passar desse fato geral para algumas especificidades comprovadamente bem fundamentadas sobre os processos adaptativos que moldaram a mente. Ainda assim, como vimos, as evidências necessárias para fundamentar os relatos de adaptação em nossa linhagem durante os últimos dois milhões de anos são escassas. E esse não é o tipo de evidência que, provavelmente, se materializará. Tal evidência está perdida – provavelmente, para sempre. Pode ser um fato duro que haja muitas coisas sobre a evolução da mente humana que nunca saberemos e sobre as quais podemos apenas especular ociosamente.

Claro, algumas especulações são piores do que outras. As da PE Pop são profundamente falhas. É improvável que jamais aprendamos muito sobre nosso passado evolutivo dividindo nossa história do Pleistoceno em problemas adaptativos discretos, supondo que a mente seja dividida em soluções discretas para esses problemas e, então, apoiando essas suposições com dados coletadas por questionários. O campo da psicologia evolutiva terá que se sair melhor. Mesmo seu melhor, entretanto, pode nunca nos fornecer conhecimento do porquê todas as nossas complexas características psicológicas humanas evoluíram.

Referências

  • Downes, S. M. (2008). Evolutionary Psychology. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2008 edition).
  • Kaplan, J. M. (2002). Historical evidence and human adaptations. Philosophy of science, 69(S3), S294-S304.
  • Panksepp, J., & Panksepp, J. B. (2000). The seven sins of evolutionary psychology. Evolution and cognition, 6(2), 108-131.
  • Richardson, R. C. (2010). Evolutionary psychology as maladapted psychology. MIT press.