Restos de cachorro de 10.000 anos do Alasca sugerem uma bela história de migração conjunta

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O husky, um cão siberiano semelhante ao Malamute pré-colombiano. Créditos: Jaanus Jagomägi / Unsplash.

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

Um pequeno fragmento de osso antigo encontrado no sudeste do Alasca é muito mais do que aparenta. Pertenceu a um cão que viveu na região há 10.150 anos, o que significa que é uma peça do quebra-cabeça da migração dos cães para as Américas – e dos humanos que provavelmente vieram com eles.

Os cientistas sequenciaram o DNA encontrado no osso, identificando o animal. Isso o torna o cão mais antigo confirmado nas Américas, disseram os pesquisadores.

“Houveram várias ondas de cães migrando para as Américas, mas uma questão é: quando os primeiros cães chegaram? E eles seguiram uma passagem interna sem gelo entre as enormes camadas de gelo que cobriam o continente norte-americano, ou sua primeira migração foi ao longo da costa?”, disse a bióloga evolucionista Charlotte Lindqvist, da Universidade de Buffalo (EUA).

“Agora temos evidências genéticas de um cão antigo encontrado ao longo da costa do Alasca. Como os cães são um sinal da ocupação humana, nossos dados ajudam a fornecer não apenas um momento, mas também um local para a entrada de cães e de pessoas nas Américas. Nosso estudo sustenta a teoria de que essa migração ocorreu exatamente quando as geleiras costeiras recuaram durante a última Idade do Gelo”.

Créditos: Douglas Levere / Universidade de Buffalo.

O fragmento de osso, denominado PP-00128, foi realmente encontrado há algum tempo, durante escavações da Caverna Lawyer na costa do Alasca em 1998 e 2003. Centenas de amostras de ossos e alguns artefatos humanos foram coletados nessas escavações, e o fragmento tinha estado no armazenamento à espera de um exame mais aprofundado.

Inicialmente, os cientistas pensaram que era um fragmento de osso de urso – o que ajudaria a montar um cenário da utilização de cavernas ao longo dos milênios, mas isso não é tão relevante para a história humana.

Foi só quando Lindqvist e sua equipe examinaram mais de perto o DNA mitocondrial que perceberam que essa suposição era – felizmente – muito incorreta. O fragmento, um pedaço da cabeça arredondada de um fêmur com cerca de 1 centímetro de diâmetro, pertencia a uma linhagem canina que se separou dos cães siberianos há cerca de 16.700 anos (Canis lupus familiaris).

Esta linhagem agora quase completamente extinta, conhecida como cães pré-colombianos por serem anteriores ao contato europeu nas Américas, passou a povoar a América do Norte ao lado de humanos nativos. A linhagem dessa árvore genealógica de cães pré-colombianos que é possível ver na amostra de osso PP-00128 se separou há cerca de 14.500 anos.

O DNA também revelou que o cão provavelmente se alimentou principalmente de frutos do mar, semelhante a restos de cães encontrados em Nunalleq, um sítio arqueológico iúpique pré-colombiano na costa sudoeste do Alasca. Em ambos os casos, é fácil imaginar que os cães se alimentavam de peixes, focas e carne de baleia caçados e capturados por seus companheiros humanos.

Juntas, as evidências sugerem que a região pode ser significativa para a história da migração humana para as Américas.

“Tudo isso começou com nosso interesse em como as mudanças climáticas da Idade do Gelo impactaram a sobrevivência e a movimentação dos animais nesta região”, disse Lindqvist.

“O sudeste do Alasca pode ter servido como uma espécie de ponto de parada, vantajoso pela falta de gelo, e agora – com nosso cachorro em questão – achamos que a migração humana precoce pela região pode ser muito mais importante do que alguns suspeitavam anteriormente”.

Constitui apenas uma peça do quebra-cabeça. Os humanos entraram nas Américas várias vezes ao longo dos milênios, trazendo cães diferentes com eles (ninguém deixaria seu bichinho para trás). Mas pode ser uma peça muito importante.

“Nosso primeiro cão do sudeste do Alasca sustenta a hipótese de que a primeira migração humana e de cães ocorreu através da rota costeira do noroeste do Pacífico, em vez da passagem continental central, que se acredita ter se tornado viável apenas cerca de 13.000 anos atrás”, disse o biólogo Flavio Augusto da Silva Coelho da Universidade de Buffalo.

Mais tarde, os cães pré-colombianos foram quase inteiramente substituídos por cães inuítes (especializados em puxar trenós) e raças europeias que chegaram com os colonos, portanto, estudar restos mortais como o PP-00128 também poderia nos ajudar a entender o destino de toda a linhagem.

A pesquisa foi publicada no Proceedings da Royal Society B.