A pseudociência de ‘O Segredo’

0
125

Por Benjamin Radford
Publicado na Live Science

Há alguns anos, o hoje falecido Larry King apresentou um “evento especial” transmitido para centenas de cinemas em todo os Estados Unidos. Intitulado “Além do Segredo: Poder Espiritual e a Lei da Atração”, o programa era baseado no livro de autoajuda da Nova Era, o best-seller de Rhonda Byrne, “O Segredo”. O livro promete realizar sonhos por meio do pensamento positivo, e assim foi – pelo menos para Byrne e seus editores.

A franquia O Segredo (livros, filmes, DVDs, etc.) rendeu muito dinheiro, mas ainda restam dúvidas sobre sua validade.

“O Segredo” afirma ser baseado na ciência, às vezes tomando emprestadas frases da física quântica. Mas a premissa por trás do livro foi refutada. De acordo com Byrne, o segredo é baseado em uma ideia da Nova Era chamada de “Lei da Atração”. Afirma que coisas semelhantes se atraem, então pensamentos positivos trazem coisas positivas e pensamentos negativos trazem coisas negativas. Portanto, se simplesmente pensarmos nas coisas que queremos, nós as conseguiremos.

Há uma lógica superficial nisso, mas na física, são os opostos – não semelhantes – que se atraem. Independentemente disso, a Lei da Atração do livro não tem nada a ver com ciência. Não se pode simplesmente desejar, pensar ou sentir que algo aconteça.

Lógica ruim

Quando os cientistas propõem uma nova teoria, eles devem explicar como ela funciona. “O Segredo”, por outro lado, se complica quando tenta explicar o mecanismo pelo qual a “Lei da Atração” supostamente funciona. De acordo com a ideia, nossos pensamentos de alguma forma enviam vibrações que algo no Universo decifra e responde. Se quisermos ser mais magros ou ter um carro novo, o Universo vai de alguma forma fornecer isso, se pensarmos a respeito. O pensamento positivo é mais fácil do que dieta e exercícios ou ganhar dinheiro para comprar um carro, mas mesmo se a “Lei da Atração” existisse, como exatamente sairiam os quilos e como o carro novo apareceria?

Existem outros problemas sérios com a chamada base científica de “O Segredo”. De acordo com o livro, “tudo o que entra em sua vida você está atraindo por meio de seus pensamentos”. Isso é verdade? Todo mundo que joga na loteria pensa em ganhar e ser rico (caso contrário, eles não jogariam), mas pouquíssimos ganham. Se a Lei da Atração funciona, por que isso acontece? Não deveriam todos os jogadores vencer, se tudo o que é necessário é o desejo e pensamento?

De acordo com a “Lei da Atração”, se você sofrer um acidente ou doença, a culpa é sua, porque seus pensamentos negativos o provocaram. Se um avião cair, isso significa que foi causado por um ou mais passageiros? E quanto aos pensamentos de outras pessoas a bordo do avião? Os pensamentos negativos de uma pessoa de alguma forma substituíram os pensamentos positivos das outras, condenando a todos?

Existem algumas mensagens positivas em meio aos chavões; é claro que uma perspectiva otimista é melhor do que uma pessimista; e sim, nossos pensamentos e sentimentos influenciam como vivemos o mundo. Isso não é segredo e não tem nada a ver com a chamada “Lei da Atração”.

A origem do segredo

Um sinal típico da literatura excêntrica é um autoproclamado especialista cuja principal fonte é uma inspiração ou revelação pessoal. Se “O Segredo” não tem base científica, onde Byrne o descobriu?

Ela admite que inventou, remendando ideias da física quântica, misticismo da Nova Era, princípios do senso comum e um livro de 1910 chamado, ironicamente, “A Ciência de Ficar Rico“. Byrne decidiu que havia tropeçado na chave do Universo e escreveu um livro sobre suas ideias, sem se preocupar em verificar se há erros lógicos ou se há realidade científica.

O segredo do sucesso do livro é sua campanha de marketing inteligente, misturando truísmos banais com o pensamento mágico da Nova Era e apresentando isso como um conhecimento oculto. “O Segredo” não é nada novo, nem é um segredo. Durante décadas, livros da Nova Era e de autoajuda como esse ofereceram respostas fáceis para os problemas da vida. Se algum desses livros funcionasse e realmente contivesse os segredos do sucesso, riqueza e felicidade, eles não precisariam publicar mais – e não haveria necessidade de “Muito Além do Segredo”, “O Maior Segredo” ou “O Segredo III – Desafio em Tokyo”.