Sobre Thomas Kuhn e Paul Feyerabend

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Mario Bunge é um físico e filósofo da ciência argentino. Possui uma vasta obra entre livros, tratados e artigos. Alguns de seus trabalhos mais conhecidos são “Treatise on Basic Philosophy” (dividido em oito volumes), “Matter and Mind”, “Philosophy in Crisis: The Need of Reconstruction” e “What is Pseudoscience” (publicado na Skeptical Inquirer em 1984). Conheceu e debateu pessoalmente com muitas personalidades conhecidas no mundo acadêmico e no senso comum, como Karl Popper, Friedrich Hayek e, como se seguirá na postagem abaixo, Thomas S. Kuhn e Paul Feyerabend.

O texto abaixo é uma tradução de dois capítulos do livro Cápsulas, também da autoria de Bunge.


Thomas Kuhn

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Thomas Samuel Kuhn foi o único historiador da ciência que chegou a ser famoso em todos os setores da comunidade intelectual. Citavam-no elogiosamente tanto cientistas como anticientistas, tanto filósofos como espectadores da cena cultural.

Em minha opinião, Kuhn conseguiu este triunfo devido a ter sido mal compreendido por quase todos os seus leitores. Alguns acreditam que ele foi o inventor da sociologia da ciência; outros, que foi um filósofo original; e inclusive houve aqueles que tomaram seu livro A estrutura das revoluções científicas como manifesto das revoltas estudantis de 1968.

Kuhn nasceu em Cincinnati em 18 de julho de 1922 e morreu de câncer em Cambridge, Estados Unidos em 17 de junho de 1996. Era de grande estatura e voz rouca, e quando eu o conheci fumava enormes charutos fedorentos. Era bastante calado, mas gostava de falar de ideias e em particular, de seu trabalho e seus projetos. Apesar de se passar por sociólogo da ciência, nunca ouvi dele uma frase sequer sobre eventos políticos. Em particular, não ouviu quando os estudantes condenavam a interferência das grandes corporações na vida acadêmica, nem quando a Guerra Fria deformava o trabalho científico e prejudicava o funcionamento da comunidade científica internacional.

Nos vimos pela primeira vez em um congresso de história da ciência celebrado na Filadélfia em 1964, e trocamos cartas pela última vez em 1992, quando convidei-o a participar de uma mesa redonda no Congresso Inernacional de Filosofia celebrado em Moscou no ano seguinte. Também nos vimos em Londres, Genebra e Montreal. Em Londres, em 1965, assisti a sua discussão pública com Popper, que mais tarde continuou em um lugar mais reduzido e terminou com uma reunião na casa de Karl.

Naturalmente, não chegaram a um acordo: Tom persistiu em seu externalismo, e Karl em seu internalismo. Ou seja, enquanto o primeiro defendia que as ideias científicas se devem ao meio social, Popper afirmava que são produtos da mente. Em outras palvras, Kuhn desprezava os cérebros enquanto Popper esquecia o meio em que estes se desenvolviam.

Kuhn e Popper coincidiam em fazer ressaltar as revoluções científicas. Mas enquanto Kuhn conhecia a importância do trabalho científico de formiga, Popper chegou a afirmar que só as ideias revolucionárias podem ser científicas. Quando Tom criticou-lhe esta posição extrema, Karl admitiu que sem desconhecer a possível importância do trabalho de preenchimento, a ele só lhe interessavam as grandes ideias novas. E isto é o que, com efeito, se vê em sua obra, onde recorre por vez ou outra aos mesmos exemplos: Copérnico, Galileu, Newton e Einstein. A diferença entre ambos se deve a que, enquanto Popper conhecia somente a história da ciência de segunda mão, Kuhn era um historiador profissional da ciência. Contudo, seu prestígio entre seus colegas historiadores é muitíssimo menor que entre os leigos.

Kuhn ganhou celebridade quase instantaneamente com a publicação de seu best seller sobre as revoluções científicas. Este livro é um dos mais citados e menos lidos durante as duas décadas que se sucederam após sua publicação em 1962. Grande parte de sua fama se deve a ter aparecido no momento adequado.

Primeiro, nessa época todo mundo falava de estrutura embora ninguém, a não ser os matemáticos, definia corretamente esse conceito (toda estrutura é de um sistema, conceitual ou material, e consiste no conjunto das relações entre os componentes do mesmo; as revoluções, não tendo sistemas, não têm estrutura; seu efeito é mudar, destruir ou criar estruturas).

O segundo motivo pelo qual o livro foi oportuno é que, naqueles anos a juventude universitária norte-americana e europeia começava a despertar-se de sua apatia política. Com efeito, o livro foi interpretado erroneamente como um chamado à transformação revolucionária da sociedade, quando de fato Kuhn era politicamente conservador e ensinou em três universidades que foram o escoramento do establishment: Harvard, Princeton e MIT. Mais além, tentava ocultar sua origem judia: uma vez quis fazer-me crer que seu sobrenome é alemão, ao invés de ser uma versão de seu antigo nome hebreu, Cohen.

Neste livro, Kuhn expõe as quatro ideias que o tornaram famoso: a construção social do “fato científico”, paradigma, incomensurabilidade entre teorias rivais, e revolução científica como rebelião e conversão irracionais.

Kuhn aprendeu a primeira no obscuro e curioso livro publicado em 1935, Gênese e desenvolvimento de um fato científico, de Ludwik Fleck. Este era um médico especializado em enfermidades infecciosas, que afirmou que a sífilis, longe de ser um processo real, foi criação da comunidade médica. Obviamente, confundiu a coisa com seu nome. Esta confusão não era romance, já que é comum a todas as formas de idealismo subjetivo.

Mas o livro de Fleck era afortunado por conter uma pitada de originalidade: em lugar de dizer que o mundo é da cor do cristal com que se olha, Fleck defendeu que o mundo é pintado coletivamente, em particular pelas comunidades científicas. Fleck ignorou o fato, conhecido pelos arqueólogos, que algumas múmias egípcias e pré-incas exibem indícios de sífilis. Também ignorou que os animais não humanos podem aprender muito sobre o mundo mesmo quando não fazem ciência. Em todo caso, esse destino de subjetivismo coletivista encontrou eco entre os filósofos marxistas, e é comum aos sociólogos da ciência menos rigorosos, porém mais lidos, tais como Bruno Latour.

Nem a ideia de paradigma ou modelo a imitar é original, mas Kuhn radicalizou-a e a difundiu. Defendeu que toda ciência madura tem um paradigma, e apenas um. Por exemplo, o paradigma da física entre Newton e Faraday foi a mecânica. É dizer, durante esse período, os físicos concebiam todas as coisas como partículas ou agregados de partículas que satisfazem as leis da mecânica clássica. Mas com a física dos campos eletromagnéticos, nasceu um novo paradigma que coexistiu com o anterior. E com a física quântica emergiu um terceiro paradigma e inclusive um quarto: o dos modelos semiclássicos. Não é verdade, pois, que toda ciência seja monoparadigmática.

Além disso, como observou Margaret Masterman em 1965, Kuhn utilizou a palavra “paradigma” para designar 22 conceitos radicalmente diferentes entre si. Kuhn reconheceu honestamente sua imprecisão conceitual. E em sua última obra de grande incentivo, sobre as origens da física quântica, não utilizou a infeliz palavra. Além disso, em uma conferência em que o escutei em 1974, declarou que estava farto de falar sobre paradigmas. Os kuhnianos nunca souberam.

Segundo Kuhn, as teorias que englobam paradigmas diferentes são incomparáveis entre si. Para empregar a expressão popularizada por seu amigo Paul K. Feyerabend, tais teorias seriam “incomensuráveis” entre si. Por exemplo, a mecânica relativista seria incomensurável com a clássica. Mas de fato as comparamos entre si e damos boas razões para preferir uma à outra. De modo, pois, que tal incomensurabilidade não existe.

Este resultado negativo é importante para avaliar a ideia de que Kuhn, assim como Feyerabend, tinha sobre as revoluções científicas. Segundo eles, tais revoluções seriam totais. Mais além, os investigadores as adotariam ou as rejeitariam irracionalmente, ou seja, sem justificativa, ao modo que se aceita ou se rejeita uma crença religiosa.

Mas a história da ciência mostra que todas as revoluções científicas conservaram algo da tradição. Por exemplo, a Revolução Científica do século XVII conservou, enriqueceu e utilizou a matemática grega. E a revolução da genética molecular conservou, enriqueceu e utilizou as descobertas da genética clássica e da bioquímica.

Também não é verdade que a adoção de uma ideia revolucionária se pareça com uma conversão religiosa: as pessoas pesam e discutem racionalmente ideias novas. E, apesar de Kuhn, parece-se ainda menor à mudança perceptiva que ocorre quando se observa uma figura ambígua, tal como o famoso desenho que parece ora um jarro, ora uma velha. Essa mudança de percepção acontece automaticamente a cada meio minuto, enquanto as mudanças científicas resultam de atos deliberados, ou seja, investigação de problemas.

Numa resolução, as ideias gerais de Kuhn sobre a evolução das ideias científicas estavam erradas. Pior ainda, algumas das quais tiveram efeitos desastrosos. Estas incluem o construtivismo radical atualmente na moda, segundo a qual o mundo é uma criação das pessoas. É verdade que no final de sua vida Kuhn desmentiu essa fantasia, chamando-a de ridícula. Mas anteriormente já havia aprovado. Por exemplo, quando o filósofo Hartry Field perguntou se era realista, respondeu: “Claro!”. E então, quando perguntado se ele acreditava que o mundo inteiro muda quando mudam as teorias, Kuhn também disse a ele: “É claro!”. Obviamente, Kuhn era confuso e não tinha sutileza filosófica. Isso ajuda a explicar a sua enorme popularidade: a precisão custa muito esforço.

No entanto, Kuhn teve pelo menos três méritos. Um foi o de atiçar o interesse do público pela história da ciência. Seu segundo mérito foi o de corrigir a visão estreita do internalismo, que não dá atenção à sociedade em que se desenvolvem os cientistas. Seu terceiro mérito foi o de admitir honestamente alguns de seus erros. Isto ele fez, em particular, em seu livro A tensão essencial (1977).

Este respeito pela verdade bate de frente com a atitude dogmática dos fiéis do primeiro Kuhn, incluindo pós-modernistas” que negam a própria possibilidade de encontrar a verdade. Kuhn as gerou sem saber, e no final de sua vida, ele lamentou este pecado involuntário. Esperemos que alguns kuhnianos adquiram essa virtude do velho Tom! Nunca é tarde demais para se tornar à luz de fatos ou razões.

Paul Feyerabend

paul-feyerabend-4O filósofo de origem vienense, Paul K. Feyerabend, foi a criança-problema da filosofia do século XX. Ele desafiou todas as regras do jogo intelectual. Zombou de tudo e todos.

Feyerabend nasceu na Áustria em 1924 e morreu na Suíça em 1994. É amplamente conhecido na República das Letras por ter realizado três teses heterodoxas. A primeira, que ele concebeu com seu amigo Thomas S. Kuhn, é a afirmação de que as teorias científicas rivais, são mutuamente “incomensuráveis”. Em outras palavras, seriam incomparáveis ao ponto de tratarem de diferentes problemas.

A segunda tese é o “anarquismo epistemológico”, segundo o qual, o domínio do conhecimento não se diferencia de qualidade: tanto valem a física como a astrologia, o criacionismo e a biologia evolutiva, a medicina e o curandeirismo, a bruxaria e a engenharia.

O terceiro argumento é a antiga crença idealista de que nada existe objetivamente, ou seja, independentemente do sujeito que explora e conhece. Por exemplo, os átomos e as estrelas não seriam coisas materiais existentes em si mesmos, mas conceitos.

Nenhuma das três teses resiste ao escrutínio crítico. Com efeito, se a tese de “incomensurabilidade” fosse verdadeira, ninguém dar-se-ia ao trabalho de fazer observações ou experimentos para decidir entre teorias rivais. Mas, na verdade os cientistas lutam para descobrir a verdade. Em alguns casos (como no caso de experiências no CERN e Fermilab), o realizam a um custo da ordem de centenas de milhões de dólares por experimentação. A busca da verdade é muitas vezes cara, mesmo quando a verdade em si não é uma mercadoria que pode ser atribuída um preço.

Se tomamos a sério o anarquismo epistemológico (“tudo vale”), não seríamos superiores a nossos rivais. Mas nenhum pensador o tomou a sério, pois isso equivale a dizer que o “jogo” intelectual não tem regras. Todo mundo poderia dizer com segurança o que desejaríamos, que as evidências empíricas não contariam e, acima de tudo, que a lógica não contaria; de modo que teríamos de tolerar a contradição non sequitur. Ou seja, o ser humano seria indistinguível pela racionalidade.

Finalmente, se fosse verdade que: são apenas conceitos tudo o que o senso comum acredita e que estariam no mundo exterior, desde os elétrons até os continentes, ninguém se preocuparia em explorar o mundo real. Todos se contentariam com a fabricação de mitos e a credulidade em contos de fadas. Mas teríamos de pagar o preço: nos protegeríamos da chuva, não teríamos medo de animais selvagens (incluindo alguns de nossos semelhantes), e nem trabalharíamos para ganhar o pão.

Feyerabend tinha muitos talentos, mas nenhum deles completamente desenvolvido: ele era um amador em tudo o que fazia. Em sua vida inteira, foi um inquieto rebelde sem causa, exagerado e “desorientado”, como dizem os franceses. Ele não tinha paciência para estudar cuidadosamente qualquer tema até dominá-lo.

Foi radical em tudo. Variou de um extremo ao outro. Quando jovem, ele se alistou como voluntário no exército nazista. Estudou um pouco de física, sob a direção de um professor famoso por ter “descoberto” o inexistente monopolo magnético. Ele então foi para Berlim Oriental, para estudar direção de teatro com o grande Bertolt Brecht, um comunista de renome, mas anarquista no coração.

Logo, o mentor de Feyerabend mudou: desta vez juntou-se ao grande físico dinamarquês Niels Bohr. Nada saiu disto. Bohr foi um pouco excêntrico, porém sério e exigia resultados. Alguns anos mais tarde, Feyerabend ajoelhou-se diante de Karl Popper. Logo se desentenderam. Em seguida, passou um tempo com Stefan Kórner em Bristol, e, eventualmente, emigrou para Berkeley, Califórnia.

Nos Estados Unidos, Feyerabend fez amizade com o historiador da ciência Thomas S. Kuhn. Os dois improvisaram o programa da nova filosofia e sociologia da ciência, que nega a razão e descarta o conceito de verdade objetiva, argumentando que as mudanças científicas são tão irracionais quanto a moda muda.

Feyerabend andava feito cigano tanto pelo mapa da cultura como pelo mapa do mundo. Ciência e filosofia eram suas filhas: almejava a suposta liberdade da arte, e ele pensava que não deveria haver nenhuma diferença entre esta e a ciência. Uma vez telefonou-me da Califórnia apenas para me informar que a Universidade da Flórida tinha oferecido-lhe a reitoria da Escola de Música. Naturalmente, ele recusou.

Feyerabend não acatava disciplinas ou compromissos de qualquer espécie. Sem amarras familiares, discípulos, colaboradores e programas de investigação à longa distância, era livre para mover-se à deriva. Primeiro trocou a Áustria pela Alemanha. Então, ele emigrou para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos. Durante os últimos anos de sua vida, ensinava em Berkeley e na Escola Politécnica de Zurique.

Ele gostava do épater le bourgeois, atacando as crenças mais fundamentadas e as reputações mais bem sucedidas. Por esta razão, foi um expositor de sucesso. Seus alunos diziam assistir ao “circo Feyerabend”. Eles admitiram que estavam indo para se divertir, e não para aprender. Em seu escritório tinha um cartaz enorme mostrando King Kong, fantasia biologicamente impossível. Não deixou um discípulo sequer.

No início de sua carreira filosófica, Feyerabend fez bom ponto: ele escreveu alguns artigos epistemológicos sérios, mas não originais. Depois de alguns anos, cansou-se da disciplina intelectual e veio com seu famoso livro Contra o Método (1975), que o tornou famoso da noite para o dia.

Eu soube do aparecimento deste livro por um estudante mexicano que me informou que acabava de abandonar o estudo da ciência porque Feyerabend acabava de demonstrar que a ciência não é mais credível e muito menos, mais digna de respeito que a superstição.

Este livro teve uma grande circulação porque denegria a ciência e no geral, ao pensamento rigoroso, na hora certa. Foi o momento em que a juventude universitária norte-americana, revoltada com a Guerra do Vietnã, havia se rebelado contra o establishment. Sem distinguir o complexo industrial-militar-político da técnica, e nem esta da ciência, os jovens rebeldes batiam cegamente contra a ciência básica e a filosofia rigorosa, acusando-as de todos os horrores: A guerra, a degradação ambiental, o consumismo, etc.

O livro de Feyerabend chegou a justificar essa reação irracional. Seu slogan era Anything goes (“Tudo vale”), refrão de uma popular comédia musical norte-americana. Essa foi a tese que mais tarde foi chamada de “pensamento débil” e uma das precursoras do chamado “pós-modernismo”.

Feyerabend não chegou a esta conclusão niilista após uma análise detalhada de um punhado de teorias científicas. Ele se tornou alérgico à análise conceitual. Na minha última discussão com ele, publicada em 1991 na New Ideas in Psychology, mostrei que Feyerabend interpretava equivocadamente as únicas fórmulas que aparecem em Contra o Método. Alguns desses erros são tão grotescos, a ponto de que bastariam para suspender qualquer estudante de física que os cometesse.

A via que levou Feyerabend a abandonar a ciência foi um caminho à Damasco. Ele mesmo a descreveu há três décadas na revista israelense de filosofia. Nela, ele conta como estava cansado de múltiplos tratamentos médicos para curar-se de uma doença crônica. Um dia em que andava por uma rua em Londres, Feyerabend viu um cartaz de publicidade sobre curas milagrosas. Convencido de que ele não tinha nada a perder, desceu as escadas e entrou no consultório da curandeira. Ela o questionou e prescreveu-lhe um tratamento heterodoxo.

Segundo Feyerabend, a curandeira curou-lhe da doença crônica. Obviamente, ele nunca ouviu falar do efeito placebo, e não lembrou-se do velho provérbio “uma só andorinha não faz verão”, nem da velha advertência “depois de não é o mesmo que causa de” (ou talvez ele apenas quisesse ser persuadido). Sua “conclusão” foi a de que o curandeirismo é tão bom quanto a medicina, se não, mais que esta. Sem mais, generalizou esta tese a todos os campos. Esta é a origem do “anarquismo epistemológico”. Ou seja, trata-se de uma generalização a partir de um caso único, e sem um traço de controle experimental. É o mesmo raciocínio que alimenta a fé pré-científica na psicanálise, na homeopatia e na religião.

A coisa não parou por aqui. Feyerabend e seu amigo Thomas Kuhn conversam juntos e se convencem mutuamente de que a verdade objetiva é inalcançável. Eles argumentam que o que é verdadeiro em um determinado momento é apenas o que se convém a aceitar como verdadeiro, independentemente de que tenha sido provado. Na ciência tudo seria convencional e arbitrário.

Mas Kuhn, ao contrário de seu amigo, continuou trabalhando, e eventualmente recapacitou-se. Deixou de defender que a verdade é convencional, e parou de falar sobre paradigmas (em 1974, ouvi-o dizer que estava cansado do assunto). Não foi assim com Feyerabend, que durante as duas últimas décadas de sua vida adotou posições cada vez mais irracionalistas e subjetivistas.

À primeira vista, Feyerabend parece-se com outros heterodoxos que se deleitavam com o épater le bourgeois. Em particular, alguém poderia pensar em Sexto Empírico, Erasmo, Voltaire e Nietzsche, outros tantos filhos terríveis de suas épocas. Mas a semelhança é superficial. Vejamos o porquê.

Sexto Empírico questionou uma pilha de crenças infundadas que se passavam na antiguidade. Exagerou, mas ensinou a pensar criticamente. Seus livros contra os filósofos, os gramáticos e outros intelectuais foram o flagelo dos “embusteiros” de sua época, e ainda são lidos com prazer dois milênios mais tarde. Em vez disso, Feyerabend é um dos ídolos dos “embusteiros” de nosso tempo.

Em seu Elogio da loucura, o humanista e teólogo Erasmo de Rotterdam não se limita a criticar certas ideias e usos de seu tempo, mas o faz atingindo a razão. Ele também propõe alternativas construtivas, tais como tomar uma vida autenticamente cristã e repartir os bens (não por acaso era amigo próximo de Thomas Morus, avô do comunismo). Em vez disso, Feyerabend não apoiou suas próprias críticas ou ofereceu outra alternativa à licença total.

Voltaire fez todo um século rir, mas não era palhaço. Foi um estudioso sério e crítico, tão bem informado como um implacável de seu tempo. Entre outras coisas, elogiou a um Newton que a França ignorava, e criticou o finalismo quando era aceito até mesmo por grandes cientistas. Outrossim, Voltaire deixou uma considerável obra histórica, política, filosófica e literária. Seus trabalhos incluem cerca de quarenta volumes. Os de Feyerabend, apenas dois. Voltaire atacou o obscurantismo, enquanto Feyerabend o defendeu. E Voltaire vislumbrou algumas características da sociedade democrática moderna, que deram origem à Revolução Francesa. Em vez disso, Feyerabend, ao exigir que escolas públicas ensinassem ciência com mitos, confundiu a democracia com o caos.

Por fim, o paralelo de Nietzsche com Feyerabend limita-se à rejeição da crença na possibilidade de encontrar verdades objetivas. Nietzsche escrevia bem e abundantemente (até demais), e fez algumas contribuições para a filologia. O seu Assim falou Zarathustra é (pelo menos eu pensava assim quando eu o li com a idade de 17 anos) um bonito poema em prosa, embora não se possa concordar com o seu conteúdo. Em vez disso, Feyerabend, que se sentia artista e proclamava a grandeza da arte, não deixou obra artística alguma e nem se distinguiu por seu estilo literário. Durante o último terço de sua vida, seu estilo foi panfletário.

No que se parecem notavelmente Nietzsche e Feyerabend, é que a pregação de ambos contra a ciência foi tão bem sucedida como improcedente. Na minha opinião, ambos exerceram uma influência negativa na cultura moderna. Não em vão, Nietzsche era o ensaísta filosófico favorito de Hitler e foi exumado pelos “pós-modernos”. Não surpreendentemente, em Feyerabend se refugiaram os fanáticos que exigiam que as escolas secundárias americanas dedicassem tempo igual tanto à lenda bíblica da criação da espécie quanto a biologia evolutiva.

Este obituário está acabando e eu acho que violei a regra romana: “Dos mortos dizer somente o bem.” Em minha defesa eu vou dizer que não encontrei nada de bom a dizer sobre Feyerabend. E que, dada a influência negativa de seu trabalho, sinto que tenho o dever de atentar contra ele perante aqueles que ouviram elogios, mas não leram.

Creio que Feyerabend estava profundamente errado. E acho que seus erros são devidos ao fato de que nunca se sentou e estudou pacientemente, de modo aprofundado, a tema algum. Deixou-se levar por sua histrionia e sua ânsia de ser uma celebridade instantânea.

Eu também acredito que a influência popular de Feyerabend foi tão prejudicial quanto forte. Foi prejudicial porque propagou os mitos de que não há verdades objetivas e que no final, o único que importa é o poder. E sua influência popular foi enorme justamente porque pregou com palavras fáceis e claras (por exemplo) que nada vale a pena ser estudado a sério e com rigor, uma vez que “tudo vale”. É um convite para o “facilismo”. Como se fosse necessário em países sem tradição cultural rigorosa.

Se em verdade tudo valesse por igual, não haveria razão para preferir nada aprofundado e, consequentemente, para amar, cultivar ou defender nada em particular. Felizmente, não é assim. Nem tudo vale por igual. Portanto, não há razão para se ficar indiferente ao erro e à injustiça. Em vez disso, há razões para trabalhar pela verdade e pela justiça.

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