Tradição x Modernidade no início do século XIX

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A liberdade guiando o povo por Eugène Delacroix, pintado em 1830.

Após Waterloo, a segunda abdicação de Napoleão e o Congresso de Viena a Europa mergulhou em um regime chamado pelos historiadores de restauração. Ele durou 15 anos, de 1815 a 1830, porém essa denominação múltipla que compôs todos os pilares da vida social e política pode ser notado até os dias de hoje.

Uma restauração monárquica

A restauração foi antes de mais nada uma restauração dinástica onde os soberanos que venceram Napoleão pretendiam apagar qualquer resquício da Revolução Francesa na Europa. Para isso escolheram Viena para realizar o Congresso, que não era uma cidade comum, mas sim a única que não havia sido influenciada pela Revolução. Portanto se tratou de uma escolha simbólica. Teve início então a retomada ao trono por toda a Europa, começando por Luís XVIII na França, os Bourbons em Nápoles e na Espanha, os Braganças em Portugal e a dinastia Orange nos Países Baixos. Essa retomada dos monarcas trouxe consigo o espírito do Antigo Regime no campo de ideias filosóficas também. Com o congresso de Viena não se fala mais em República, e a monarquia se apresenta vencedora, soberana e triunfante, porém com uma necessidade de ser legitimada.

A monarquia antes de ser contestada não necessitava de justificativa alguma, porém tudo mudou em 1789 com a Revolução e os doutrinadores de 1815 precisavam teorizar a respeito. E o que foi apresentado como legitimidade é justamente aquilo que representa bem o Antigo Regime; a tradição. Para os teóricos do Congresso de Viena o Antigo Regime era tradicional e imutável. Ao vencer a Revolução provou ser o regime que atende as necessidades, eficaz e burlou as provas que o tempo lhe aplicou. Na ideologia do Antigo Regime ter uma herança histórica é inclusive prestigioso e positivo.

O Congresso de Viena por Jean-Baptiste Isabey, pintado em 1819.
O Congresso de Viena por Jean-Baptiste Isabey, pintado em 1819.

A filosofia de legitimidade do Antigo Regime então apresentou-se como verdadeira oposição à filosofia da Revolução. Eis que surge a batalha no campo das idéias, de um lado a Revolução que propôs que somente o povo tem o direito de garantir legitimidade e caso não se sinta representado tem o direito de desfazer a qualquer momento a ordem imposta. Para a ideologia revolucionária a tradição não tem caráter sagrado nenhum. Tornando assim o antigo obsoleto e ultrapassado. O choque dessas duas ideologias foram em todos os campos que constituem a sociedade. A contra-revolução tinha como objetivo eliminar tudo referente à Revolução e a grosso modo “voltar no tempo” antes de 1789.

Uma luz quando acesa jamais pode ser apagada

Apesar dos esforços do Congresso de Viena a restauração não foi integral. Quatro grandes exemplos demonstrando a herança da Revolução na Europa podem ser trabalhados.

Mudança territorial

Para começar nem todos os monarcas voltaram aos seus tronos. As mudanças territoriais são evidentes e basta uma rápida observação no mapa político europeu antes da Revolução de 1789 e após a assinatura das cláusulas no Congresso de Viena em 1815 que notamos profundas transformações.

Fonte: Blog Apotec.
Fonte: Blog Apotec.
Fonte: Pnld Moderna.
Fonte: Pnld Moderna.

O Santo Império-Germânico que foi dissolvido por Napoleão não foi restabelecido. Mais de cinquenta cidades livres do Santo Império foram absorvidas pelos reinos ou pelos grão-ducados. Houve acima de tudo uma espécie de racionalização ou simplificação do número de Estados na Europa. Os vitoriosos saem ganhando territorialmente; se a Grã-Bretanha teve conquistas fora da Europa, iniciando a era do imperialismo, as outras três grandes potências cresceram na própria Europa. A Rússia contra-revolucionária, por exemplo, anexou um grande pedaço da Polônia. Portanto, seu crescimento populacional foi natural e muito também devido à esta anexação. A Prússia aumentou mais da metade do seu território ao anexar um pedaço importante do Saxe. A Áustria apesar de perder os Países Baixos, que agora seria a Bélgica, tomou a região conhecida como Lombardo Veneziano. Portanto, geograficamente falando, após a Revolução nada mais seria como antes, independente de qualquer esforço por parte dos teóricos do Congresso de Viena.

Mudança institucional

Na França, berço da Revolução, o próprio rei Luis XVIII não viu possibilidade da retomada ao Antigo Regime e concede então uma Carta Constitucional. Essa Carta Constitucional por si só já é a maior prova do legado das ideias iluministas divulgadas pela Revolução já que no Antigo Regime não existia qualquer forma de contrato ou constituição. O Antigo Regime é autossustentável ideologicamente e politicamente. Ao avaliarmos o corpo da Carta percebemos então um maior número liberdade, inclusive de opinião, imprensa e culto. Valores fortemente defendidos pela filosofia da Revolução. E esse tipo de constituição não é exclusividade da França, mas de praticamente grande parte da Europa. O continente toma rumo de um caminho mais democrático. A moderna Holanda em sua lei fundamental divide poder legislativo entre o soberano e os Estados Gerais. A Noruega concede uma constituição na qual o rei só dispõe de um veto suspensivo. A Rússia ficou marcada como ultra conservadora no início do século XIX porém o Czar outorga uma constituição ao grão-ducado de Varsóvia. Podemos então concluir que institucionalmente a Europa não passaria uma restauração. As ideias foram lançadas e os monarcas então tiveram que absorve-las no início do século.

Aparelho Administrativo

Ao avaliarmos a organização administrativa no pós Revolução nos deparamos com um aparelho administrativo uniforme, racionalizado, hierarquizado da qual nenhum monarca, independente do seu interesse com a contra-revolução ousou por em risco. Portanto, as mudanças no aparelho administrativo foram mantidas.

A questão social

Uma vez espalhadas ideias de liberdade, igualdade e fraternidade pela Europa o clima social no continente nunca mais seria o mesmo. Com o auxílio das cartas constitucionais a luta pela liberdade civil ganhou força e fim do privilégio, igualdade civil de todos diante da lei, da justiça e dos impostos eram algumas das palavras de ordem. O acesso a cargos públicos e administrativos também foi um requisito no início do século XIX. É importante ressaltar o salto da burguesia e o seu papel no contexto histórico. As melhorias foram evidentes para essa classe apesar de uma tentativa de restauração, o que fez com que a sociedade europeia passasse de uma sociedade aristocrática para uma sociedade burguesa gradativamente.

Dois opostos e o motor da história

Apesar das mudanças no início do século XIX, o ideal aristocrático ainda estava presente e pôde ser notado em boa parte da Europa. São os chamados ultra conservadores que tendiam a relacionar a Revolução de 1789 com algo maligno e até mesmo diabólico. Era inadmissível para eles compactuar com qualquer tipo de ideologia revolucionária e pretendiam manter uma classe camponesa servil assim como suas terras em segurança. A resistente aristocracia teve que conviver com os crescentes liberais do século XIX, que por sua vez eram herdeiros diretos da Revolução. Os liberais não aceitavam o fim da Revolução e promoveriam os novos ideais até o fim. Liberdade era a palavra de ordem e suas ideias influenciaram diversas guerras civis e estrangeiras ao longo do século. Foram esses dois campos antagônicos e o seu choque de ideologias que moveu o motor da história no século XIX.

Ao observarmos esses dois campos antagônicos podemos fazer uma correlação com o século atual. A própria Revolução é ainda um parâmetro para a nossa cultura, a ideia de liberdade é ainda defendida por muitos assim como a luta contra a corrupção e tirania. Por outro lado encontramos grupos ideológicos que se agarram ao sagrado, imutável e tradicional. E por muitas vezes a correlação entre ambos também pode ser presenciada, como um indivíduo que acredita em seus ideais libertadores mas por vez preza o que a tradição lhe concedeu. Entender a origem é esclarecer o presente e assim conseguirmos fazer uma análise de nossa sociedade.

Referência

Rémond, René. O Século XIX: 1815-1914. 1976.

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