Uma introdução às psicoterapias da Nova Era

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É possível que a mais importante decisão na história da terapia foi a ideia de que ela deveria ser paga pela hora – Jay Haley

Para a perda da sociedade, há um alarmante enfraquecimento dos profissionais de saúde mental quando se trata do monitoramento, comentando e educando o público sobre o que é uma boa terapia, o que é um comportamento negligente de profissionais treinados e o que é ou faz fronteira com o charlatanismo – Singer e Lalich, “Crazy” Therapies

A psicoterapia é uma técnica de tratamento para desordens emocionais ou mentais. Há vários tipos, dos quais alguns já foram empiricamente testados e são conhecidos por ser efetivos, tal como a terapia cognitiva. Entretanto, muitas terapias da Nova Era são pouco mais do que uma mistura de metafísica, religião e “insights” pseudocientíficos. Há talvez divergências razoáveis sobre o que constitui uma terapia sucessível, mas uma terapia sucessível não requer a crença em um deus, reencarnações, abduções alienígenas, possessões por entes, crianças internas, canalizações, milagres ou qualquer outra noção metafísica, religiosa ou pseudocientífica.

No documentário “Divided Memories”, de Ofra Bikel, pacientes são permitidos a demonstrar toda a arrogância e a incompetência possível para os seus terapeutas. Os terapeutas são distraídos do fato de que eles estão sendo usados para demonstrar a monstruosidade de seu trabalho pseudocientífico e auto-enganoso. Terapeuta após terapeuta fala livremente a respeito de como desinteressados eles são da verdade e como indiferentes eles são em relação às famílias que eles ajudam a destruir. Eles são uniformes em seu desprezo às críticas como “negação”. Paciente após paciente é exibido pelos terapeutas como evidência de seu bom trabalho, ainda que nenhum deles pareça melhorar com a terapia e muitos deles desesperadamente adoeçam.

Tentar encontrar uma linha em comum significativa nas terapias não é tão difícil, mas o seu significado não melhora a posição daqueles que pensam que essas terapias são científicas. Uma dessas linhas é a crença de que se uma pessoa tem problemas, ela não é a provável responsável por esses problemas. Outra linha é a crença de que a causa de um problema é algum evento traumático passado, tal como ter sido apunhalado no estômago em uma vida passada ou ter sido abusado sexualmente quando criança, sendo esta última uma base para terapeutas de memória reprimida, que relacionam qualquer desordem emocional a isso. Abuso sexual na infância não é a causa única da maioria dos problemas, de acordo com esses terapeutas, mas é a causa em que a vida do paciente gira. Os terapeutas também nem sequer se importam se a maioria dos seus pacientes não se lembram de ter sido abusados, mas a terapia de memória reprimida talvez os ajudasse a reaver o trauma. Muitos terapeutas em “Divided Memories” clamam ter abusado a si mesmos e descobriram isso enquanto estavam tratando um paciente e ajudando-o a lembrar de seu abuso.  O fato de um terapeuta injetar seus próprios problemas dentro de um tratamento e considerar que crenças sobre a vida passada do paciente irão ajudar faz com que essas terapias da Nova Era pareçam mais com cultos do que com a ciência. Outra linha comum é a crença de que o paciente deve descobrir a causa do seu problema para ser tratado. Esse “insight” da psicoterapia é muito velho, mas nunca foi cientificamente validado ou testado e também não induz uma ideia clara do que significa ser ajudado pela psicoterapia.

A única linha em comum em relação à cura parece ser a de que o paciente acredita que sabe o que causou os seus problemas. Acreditar em quem ou em que o prejudicou no passado é a cura. A qualidade de vida do paciente e a interação com o paciente em aspectos sociais significativos – tal como família, amigos e trabalho – é irrelevante. Para o terapeuta, ter a confiança do paciente é o que importa. Para ganhar essa confiança, uma das táticas muito utilizadas é voltar o paciente contra a sua família e isso se faz fazendo-o acreditar que a causa de seus problemas é um membro dela ou vários membros. Assim, a família não pode ajudar com os problemas porque ela é a causa dos problemas. Um ou mais membros abusaram do paciente e agora estão negando o que aconteceu e os outros membros da família estão desiludidos ou em conspiração para proteger o membro do mal. Claro, isso tem suas consequências: o paciente coloca toda a sua fé  no terapeuta. O paciente está sendo perseguido e o terapeuta é o seu salvador.

A falta de interesse na verdade e na exatidão

De todas as linhas citadas, a que merece ser destacada é a mais terrível: a profunda falta de interesse na verdade ou na exatidão. Nem o paciente nem o terapeuta estão preocupados com fatos ou evidências tangíveis de que a “causa acreditada” realmente aconteceu. Na verdade, se a “causa acreditada” é a real causa, isso é irrelevante para o terapeuta. O paciente cria a verdade e isso é tão real para ele quanto um fato é real para um cético. Isso é tudo que importa. Nós todos vivemos em uma ilusão, proclama um terapeuta. Então,  não é de nenhum interesse se a “causa acreditada” é uma pura desilusão. Qualquer estudante de psicologia novato reconhece a projeção nessa alegação. O telespectador, entretanto, não precisa de nenhum treino para perceber que o terapeuta está claramente iludido quando ele alega que não induz o seu paciente a acreditar em um conto bizarro de que foi abusado pelos seus parentes. A sua total falta de interesse em corroborar evidências para a história, a falta de preocupação com a família que ele está ajudando a destruir, a sua afirmação insincera de que o paciente deve aceitar e ter fé em tudo que ele diz, o seu aparente esquecimento de que a crueldade e o absurdo podem induzir o paciente a mover uma ação judicial de 20 milhões de dólares contra a sua própria família inocente, a sua iludida concepção de que pode se determinar que um paciente foi abusado ou não logo na primeira sessão, todos esses itens somam-se a um pacote inteiro: a ilusão.

A impressão deixada pelo esmagador documentário de Bikel é que há um número de terapeutas da Nova Era que estão misturando metafísica, religião e charlatanice. Eles não têm nenhum interesse em fatos ou na verdade, e, pelo fato de serem pseudocientíficos, não têm nenhuma maneira de testar se estão fazendo algo válido ou não.

O livro “Crazy” Therapies, de Singer e Lalich, citado anteriormente, documenta a ampliação das terapias pseudocientíficas entre os terapeutas da Nova Era. Os autores atribuem parte da popularidade de terapias bizarras ao crescimento da irracionalidade e à demanda de tais itens em talk shows e em circuitos de livros. Alguns terapeutas, como Sondra Ray, defensores da “terapia do renascimento” não se consideram cientistas e sim guias espirituais. Eles são orgulhosos da falta de suporte científico. As teorias do renascimento e do reparentamento são baseadas na noção de que adultos têm problemas porque seus pais foram inadequados. Não há nenhuma prova dessa noção, apesar de sua popularidade desde os tempos de Cain e Abel. “Durante o curso de terapia, clientes regridem, tornam-se independentes, têm a sua própria auto-estimo e o seu senso de si atacado e diminuído e perdem o contato com a sua orientação de realidade cotidiana anterior” (Singer e Lalich: p;130). Em Maio de 2000, os terapeutas Brita St. Clair, Jack McDaniel, Connell Watkins e Julie Ponder foram presos por “abuso infantil, resultando em morte”, de acordo com a Reuters.  Eles sufocaram uma garota de dez anos até a morte durante uma terapia de renascimento em Evergreen, Colorado. Na presença de sua mãe, a criança foi envolta em um cobertor que representaria o útero porque ela teria de passar por uma simulação de parto, ela seria empurrada para o “canal de parto” para que pudesse “renascer”. Watkins, 54, e Ponder, 40, foram condenados culpados por “abuso infantil imprudente, resultando em morte”.  O par foi sentenciado a 16 anos de cadeia. Eles não foram sentenciados à máxima pena de 48 anos porque “não havia nenhuma evidência de que os terapeutas pretendiam causar danos à criança”.

Alguns alegam que a saúde mental é afetada por possessões por entidades espíritos que devem ser sossegados. Outros usam a regressão até a vida passada para achar a causa do problema. Alguns tratam abduções alienígenas como não-ilusões. Há várias terapias catárticas que envolvem grito primal, renascimento ou reparentamento. Nenhuma dessas terapias tem validade científica. Outras, tal como a Comunicação Facilitada (FC) e a Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares (EMDR) parece serem científicas, mas a FC geralmente não é aceitada como efetiva pela comunidade científica e a EMDR parece ser apenas outra variante da terapia cognitivo-comportamental.

Não é difícil selecionar a terapia da Nova Era mais notória, mas a Técnica de Organização Neural (NOT) desenvolvida pelo quiroprático Carl Ferreri é a melhor. Ferreri decidiu, sem o menor indício de evidência científica, que todos os problemas mentais e físicos são resultados de crânios desalinhados. Ele acredita que à medida que você respira, os crânios de sua cabeça se movem, causando desalinhamentos que podem ser corrigidos pela manipulação. Essa hipótese foi posta em prática sem a menor incidência de que os ossos do crânio se movam ou que exista alguma relação entre o “alinhamento padrão” dos ossos. Ferreri não foi parado pela lógica, senão por ações judiciais e acusações criminais.


Traduzido e adaptado do texto do The Skepctic’s Dictionary com título (New Age) psychotherapies


Dicas de leitura:

Dawes, Robyn M. House of Cards – Psychology and Psychotherapy Built on Myth, (New York: The Free Press, 1994).

Gold, Mark. The Good News About Depression: Cures and Treatments in the New Age of Psychiatry (Bantam, 1995).

Haley, Jay. “Therapy—A New Phenomenon” in The Power Tactics of Jesus Christ and Other Essays (Rockville, Md.: The Triangle Press, 1986.)

Kandel, Eric R. & James H. Schwartz, eds. Principles of Neural Science 4th ed. (McGraw-Hill Professional Publishing, 2000).

Singer, Margaret Thaler and Janja Lalich. “Crazy” Therapies (San Francisco: Jossey-Bass, Inc., 1996).

Watters, Ethan and Richard Ofshe. Therapy’s Delusions: The Myth of the Unconscious and the Exploitation of Today’s Walking Worried (Simon and Schuster, 1999).


SITES

Fringe Psychotherapies: the Public at Risk by Barry L. Beyerstein

Review of “Crazy” Therapies by Singer and Lalich

Innocence Lost – Frontline

Twelve Myths about False Memories

Beck Institute for Cognitive Therapy

The Scientific Review of Mental Health Practice

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