Por que muitas psicoterapias parecem funcionar mesmo quando não funcionam?

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Créditos: Getty images

Um dos artigos clássicos na história da psicologia é “Os efeitos da psicoterapia: uma avaliação“, publicado em 1952 e elaborado por Hans Eysenck. O psicólogo examinou 19 estudos relacionados a tratamentos, lidando com tipos de terapia tanto ecléticos quanto psicanalíticos em mais de 7.000 casos. A sua conclusão geral foi arrasadora. Os estudos, ele escreveu, “falham ao provar que a psicoterapia, freudiana ou outras, facilita a recuperação de pacientes neuróticos. Na verdade, eles mostram que cerca de 2/3 de um grupo de pacientes neuróticos irão melhorar de sua doença dentro de 2 anos, sendo ou não tratados pela psicoterapia”.

Eysenck notou, de forma meio irônica, que esses achados são encorajadores para o paciente neurótico – mas não são bem-vindos do ponto de vista do psicoterapeuta. Ele também previu que os terapeutas iriam reagir emocionalmente à essa prova (coisa que não vai ser muito diferente nessa postagem), baseando-se nos seus fortes sentimentos e crenças na suposta efetividade, concluindo que “na falta da concordância entre fatos e crenças, há uma necessidade urgente de uma diminuição na força da crença e de um aumento no número de fatos disponíveis”.

Ele estava certo sobre a reação emocional, embora provavelmente surpreendê-lo-ia saber que isso persiste até hoje. O número de fatos disponíveis sobre tratamentos cientificamente validados aumentou dramaticamente nos 62 anos desde a avaliação de Eysenck, porém, ainda muitos terapeutas insistem que as suas observações clínicas informais e as suas intuições são provas suficientes.

Eysenck não tentou explicar o porquê das crenças dos terapeutas serem tão resistentes às provas – isso estava além do escopo de sua análise. Mas agora um grupo de psicólogos está pretendendo fazer isso. Scott Lilienfeld, da Universidade de Emory, trabalhando com seus colegas e outras cinco universidades, argumenta que os terapeutas são sujeitos aos mesmos vieses cognitivos que todo o pensamento humano. O pensamento científico rigoroso não ocorre naturalmente, portanto tais vieses levam terapeutas a inferir e acreditar em resultados que não possuem provas realmente.

Considere que os 2/3 dos pacientes que, segundo Eysenck, se curaram por conta própria. Lilienfeld e seus colegas acreditam que a taxa de remissão espontânea foi superestimada, mas o fato é que um grande número de pessoas com problemas psicológicos se curam por si só, por uma variedade de motivos. As pessoas amadurecem ou eventos consideráveis de suas vidas ocorrem por fora da terapia – ou pessoas se sentem melhores por nenhuma razão aparente. Isso tudo é muito bom para os pacientes – Eysenck notou – mas a espontaneidade raramente é vista pelos terapeutas. Ao invés disso, eles clamam (e acreditam verdadeiramente) que qualquer melhora deva ser consequência do que foi feito na sala de consulta.

A má interpretação da remissão espontânea é uma das várias coisas que Lilienfeld chama de “causas de uma efetividade terapêutica espúria” (ou CSTE, em inglês, acrônimo para “causes of spurious therapeutic effectiveness”). Em uma edição bem recente do jornal Perspectives on Psychological Science, os cientistas proveram 26 CSTE, apenas algumas daquelas que envolvem o crédito às mudanças não relacionadas à terapia. Por exemplo, pacientes podem melhorar simplesmente pela excitação por estar na terapia – o “efeito novidade”. Na verdade, cerca de 15% dos pacientes melhoram entre o tempo correspondente ao telefonema inicial e à primeira sessão.

Ainda outras CSTE são percepções equivocadas de mudanças onde não ocorrem mudanças: por exemplo, os pacientes aprendem a verbalizar seus problemas com muito mais detalhes, o que parece ser uma melhoria, porém os problemas ainda persistem e causam sofrimento. Alternativamente, os pacientes podem contar aos terapeutas o que eles acham que os terapeutas devem ouvir, dando uma (falsa) percepção do avanço terapêutico.

Os autores atribuem todas essas más interpretações da efetividade à quatro vieses cognitivos, bem conhecidos da literatura de cognição social:

Realismo ingênuo: Esse é o pressuposto onipresente de que o mundo é exatamente como o vemos. Essa heurística, ou atalho mental, nos faz focar naquilo que é mais óbvio e ignorar os outros fatos, mais sutis.

Viés de confirmação: Essa é uma tendência comum, profundamente enraizada na procura de evidências consistentes da sua própria hipótese e ignorando e/ou distorcendo qualquer evidência contrário. Então um terapeuta pode usar uma intervenção particular e mentalmente notar apenas as sessões em que o paciente obteve melhoras – ignorando aquelas onde o paciente não demonstrou avanço ou apenas demonstrou uma decaída.

Causalidade ilusória: Essa é a mais poderosa propensão a ver causa e efeito onde não existem. É o que faz com que terapeutas (e pacientes) não consigam interpretar a remissão espontânea, focando-se apenas na eficácia terapêutica.

Ilusão de Controle: Essa é a tendência de superestimar a capacidade de moldar os eventos. Isso predispõe os terapeutas a acreditar que eles podem fazer mais do que o possível.

Esses quatro vieses cognitivos universais lideraram todos os tipos de pensamento irracional, incluindo os 26 tipos específicos de CSTE listados nesse artigo. Juntos, eles ressaltam a necessidade do rigor científico e da pesquisa controlada – e menos intuição. A grande lacuna lamentável existente entre a ciência e a prática é em sua essência um conflito entre essas crenças.

Os autores acreditam que a relutância de alguns terapeutas para adotar práticas baseadas em evidências não reflete uma baixa inteligência ou um desrespeito intencional das provas. Ao contrário, decorre de uma crença errônea de que a evidência de uma observação clínica é tão confiável quanto uma evidência de um estudo controlado.

Em breve, um outro artigo sobre a psicoterapia será publicado, com as críticas voltadas à Nova Era


Traduzido e adaptado do texto publicado na Association for Psychological Science, com título Why Psychotherapy Appears to Work (Even When It Doesn’t)


Veja também Uma introdução às psicoterapias da Nova Era.

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Josikwylkson Costa Brito
Olá, meu nome é Josikwylkson Costa Brito (não, meu pai não deu uma cabeçada no teclado), mais conhecido como o Príncipe do Cosmos Nordestino, e nasci na cidade de Campina Grande, na Paraíba, onde moro atualmente. Tenho 18 anos atualmente, estou no segundo ano do curso de medicina e publico textos de cunho científico ou filosófico para o presente site, porém, em virtude dos estudos, não estou a fazê-lo com muita frequência. De todas as minhas publicações, gosto de publicar no âmbito de minha área (saúde), mas também arrisco em postar textos que contradigam o senso comum e que criticam as pseudociências, o que me faz ser esquartejado por muitos irracionalistas (que, inclusive, andam vagando por essa página). As críticas que mais recebo desses senhores são as de que não tenho autoridade o suficiente para falar de determinado assunto (mesmo que eu poste artigos científicos advindos de sites e/ou universidades de confiança). Então, em razão dos 'amigáveis' seguidores que se travestem de conhecedores de argumentação lógica e que rejeitam qualquer postagem minha por tal status, por favor, finjam que eu sou uma pessoa com 40 anos doutor em filosofia, cosmologia, biologia e medicina.

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Fernando
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Fernando

Isso é apenas um artigo de opinião. Faltam referências nesse artigo que você traduziu.

Thiago
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Thiago

Na medicina, há doenças e síndromes que são tratadas de formas diferentes apesar de possuírem os mesmos sintomas – Isso ocorre pela diferença de resposta entre organismos diferentes de pessoas aparentemente iguais… O mesmo ocorre com a psicoterapia. O subconsciente / comportamento de cada pessoa é diferente e cada tratamento, apesar de baseado nas mesmas bases teóricas e/ou experimentais, é colocado em prática de forma diferente. Sendo assim, como cobrar um resultado específico?

Marcos
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Marcos

Eu amo esse tipo de artigo porque eu sempre tenho certeza que a pessoa que o escreveu não se formou em Psicologia. Não que a Psicologia seja imune a discussão sobre sua validade científica, na verdade qualquer estudante de 1º semestre tem no seu currículo essa problemática. O problema real é que vocês tentam criticar de maneira caustica usando artigos (ainda bem), mas nota-se claramente que não são da área. Pra fazer analogia: pensem num estudante de humanas querendo criticar a Física pegando artigos que fazem critica a esta ciência, ele pode até achar um material bom, mas dificilmente vai… Read more »

Pedro Dardengo Mesquita
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Pedro Dardengo Mesquita

Concordo com o texto… Mas tenho que fazer um ressalva, a palavra “prova” está sendo utilizada de maneira incorreta. Não existem provas no meio científico, apenas evidências, teorias, hipóteses, fatos e etc… Prova só existe na matemática. E isso não é um pensamento pós modernista, pelo contrário, é a aceitação da realidade por mais óbvio que algo seja é impossível provar com absoluta certeza qualquer coisa. O canal Papo de Primata discorre muito bem sobre os termos científicos e comenta sobre esse assunto em um de seus vídeos. Para que as pessoas não te julguem pela idade, é importantíssimo que… Read more »

Raul
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Raul

O conceito passa por reformulações. Todavia, o artigo é de 1952.