Uma síndrome pós-COVID danifica gravemente o coração das crianças

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Modelo 3D do coração nas mãos do Dr. Matthew Bramlet. Créditos: Institutos Nacionais da Saúde.

Por Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas em San Antonio
Publicado na Medical Xpress

A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), que se acredita estar ligada ao COVID-19, danifica o coração a tal ponto que algumas crianças precisam de monitoramento e intervenções para o resto da vida, disse o autor sênior de uma literatura médica publicada em 4 de setembro na EClinicalMedicine, uma revista científica do The Lancet.

Estudos de caso também mostram que a SIM-P pode atingir crianças aparentemente saudáveis de forma imperceptível três ou quatro semanas após infecções assintomáticas, disse Alvaro Moreira, MD, MSc, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas em San Antonio. O Dr. Moreira, neonatologista, é professor assistente de pediatria nas Joe R. e Teresa Lozano Long School of Medicine da universidade.

“De acordo com a literatura, as crianças não precisavam exibir os sintomas clássicos no trato respiratório superior de COVID-19 para desenvolver a SIM-P, o que é assustador”, disse o Dr. Moreira. “As crianças podem não apresentar sintomas, ninguém sabe que elas têm a doença e, algumas semanas depois, podem desenvolver essa inflamação grave no corpo”.

Resultados

A equipe revisou 662 casos de SIM-P relatados em todo o mundo entre 1 ° de janeiro e 25 de julho. Entre as descobertas:

  • 71% das crianças foram internadas em unidade de terapia intensiva (UTI).
  • 60% apresentaram choque circulatório.
  • O tempo médio de permanência no hospital foi de 7,9 dias.
  • 100% apresentaram febre, 73,7% dor abdominal ou diarreia e 68,3% vômitos.
  • 90% realizaram exame de ecocardiograma (ECG) e 54% dos resultados apresentaram anomalias.
  • 22,2% das crianças necessitaram de ventilação mecânica.
  • 4,4% necessitaram de oxigenação por membrana extracorporal (ECMO).
  • 11 crianças morreram.

“Esta é uma nova doença infantil que se acreditamos estar associada ao SARS-CoV-2”, disse o Dr. Moreira. “Pode ser letal porque afeta vários sistemas de órgãos. Seja o coração e os pulmões, o sistema gastrointestinal ou o sistema neurológico, existem tantas faces diferentes para essa doença que inicialmente era difícil para os médicos a entenderem”.

A quantidade de inflamação na SIM-P ultrapassa a de duas condições pediátricas semelhantes, a doença de Kawasaki e a síndrome do choque tóxico. “O que salva é que o tratamento desses pacientes com terapias comumente usadas para a doença de Kawasaki – imunoglobulina e glicocorticosteroides – tem sido eficaz”, disse Moreira.

Anormalidades cardíacas

A maioria das 662 crianças sofreu com o envolvimento cardíaco, conforme indicado por marcadores como a troponina, que é usada com grande precisão em adultos para diagnosticar ataques cardíacos.

“Quase 90% das crianças (581) foram submetidas a um ecocardiograma porque tinham uma manifestação cardíaca significativa da doença”, disse o Dr. Moreira.

Os danos incluíram:

  • Dilatação dos vasos sanguíneos coronários, um fenômeno também observado na doença de Kawasaki.
  • Fração de ejeção reduzida, indicando uma capacidade reduzida do coração de bombear sangue oxigenado para os tecidos do corpo.
  • Quase 10% das crianças tinham aneurisma de um vaso coronário. “Ou seja, uma dilatação ou inchaço localizado do vaso sanguíneo que pode ser medido em um ultrassom do coração”, disse Moreira.

Crianças com aneurisma correm maior risco de sofrerem de um evento cardiovascular semelhante no futuro. “Essas são crianças que precisarão de observação significativa e acompanhamento com múltiplos ultrassons para ver se isso vai se resolver ou se isso é algo que terão pelo resto de suas vidas”, disse o Dr. Moreira.

“E isso é catastrófico para um pai que teve um filho anteriormente saudável e então ele/ela está em uma porcentagem muito pequena de indivíduos que desenvolveram SIM-P após a infecção por COVID-19”, disse ele.

Outra descoberta dos estudos de caso: quase metade dos pacientes com SIM-P tinha uma condição médica prévia e, desses, metade dos indivíduos era obeso ou estava com sobrepeso.

“Geralmente, tanto em adultos quanto em crianças, vemos que os pacientes obesos terão um resultado pior”, disse Moreira.

Quando comparados com a infecção inicial por COVID-19, os marcadores inflamatórios na SIM-P eram muito mais anormais. Por exemplo, a troponina, o marcador usado em adultos para diagnosticar ataques cardíacos, estava 50 vezes maiores que o nível normal em crianças com SIM-P.

“As evidências sugerem que as crianças com SIM-P têm uma inflamação imensa e potencial lesão do tecido do coração, e precisaremos monitorar essas crianças de perto para entender quais implicações elas podem ter a longo prazo”, disse o Dr. Moreira.