Vermes parasitas encontrados em restos humanos medievais guardam o segredo para erradicá-los hoje

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Vermes parasitas como os encontrados nos restos mortais do rei Ricardo III no século 15 eram relativamente comuns entre os europeus medievais, segundo as descobertas de um novo estudo. Créditos: Susie Kearley / Alamy Stock Photo.

Por Michael Price
Publicado na Science 

Lombrigas do tamanho de uma unha são um tormento em países subdesenvolvidos economicamente, causando diarreia, retardando o crescimento das crianças e até matando. Um novo estudo sugere que esses parasitas eram tão comuns na Europa medieval como são hoje, sugerindo que os avanços posteriores da Europa em questão de higiene e saneamento provaram ser suficientes para vencê-los.

O novo estudo é “extenso e bem feito”, diz Roger Prichard, parasitologista da Universidade McGill, Canadá, que não esteve envolvido com o trabalho. Isso confirma, diz ele, que os esforços bem-sucedidos de erradicação na Europa não foram simplesmente o resultado de números naturalmente baixos de parasitas.

Duas das lombrigas mais insidiosas – tricurídeos e lombrigas humanas – infectam os intestinos e botam seus ovos nas fezes, onde contaminam o solo, as plantações e os suprimentos de água. Mais de 1,5 bilhão de pessoas sofrem com isso atualmente.

Esses vermes parasitas, que pertencem a um grupo conhecido como helmintos, parasitam humanos há milhares de anos. Os cientistas os encontraram em ossos e fezes medievais, até mesmo nos restos mortais do rei Ricardo III. Embora os pesquisadores soubessem que os parasitas estavam nessas amostras, eles não tinham uma boa maneira de estimar sua prevalência.

No novo estudo, Adrian Smith, zoólogo da Universidade de Oxford, Reino Unido, e seus colegas embarcaram em uma ambiciosa peregrinação parasitária. A equipe coletou cerca de 600 amostras de solo das regiões pélvicas de esqueletos enterrados em cemitérios na República Tcheca, Alemanha e Reino Unido entre os séculos VII e XVIII. Conforme um corpo se decompõe, explica Smith, seus intestinos se acomodam ao longo da superfície pélvica, tornando-a um bom lugar para caçar ovos de parasitas que foram para a sepultura com seu hospedeiro.

Os pesquisadores então analisaram o DNA dessas amostras, procurando traços genéticos de dois dos tipos mais comuns de vermes parasitas endêmicos em muitos países hoje: o verme Trichuris trichiura e a lombriga humana pertencente ao gênero Ascaris.

Depois de examinar o DNA das amostras, os cientistas confirmaram a presença de ovos de parasita notavelmente intactos observando de perto essas amostras ao microscópio. O Trichuris “parece um pouco com uma bola de futebol americano”, explica Smith, enquanto o Ascaris é uma esfera redonda e protuberante. Ao todo, a equipe descobriu que cerca de 25% dos indivíduos estavam infectados com Trichuris e cerca de 40% com Ascaris, e essas taxas permaneceram bastante estáveis ​​ao longo do tempo, incluindo no século 18.

Isso está no mesmo nível das estimativas de prevalência para esses mesmos parasitas em partes da África Subsariana, México, América do Sul, Leste Asiático e outros países hoje, os pesquisadores relataram na semana passada na PLOS Neglected Tropical Diseases.

Drogas quimioterápicas desenvolvidas na década de 1960 podem erradicar esses vermes, mas os registros médicos revelam que a Europa estava em grande parte livre de helmintos no início do século 20 (embora os casos tenham explodido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial). Isso sugere que os avanços na Europa em relação a encanamento, higiene e saneamento fizeram a diferença, concluem Smith e seus colegas. E isso, por sua vez, reforça os apelos da Organização Mundial da Saúde, junto com outros grupos, para que esses avanços também aconteçam em outras nações, afirma. “Esse tipo de mudança que aconteceu na Europa é muito poderosa”.