Vítimas da peste negra nem sempre eram jogadas em valas comuns, sugerem evidências de DNA

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Indivíduos enterrados em Cambridge, que morreram de peste. Crédito: Unidade Arqueológica de Cambridge.

Por Clare Watson
Publicado na ScienceAlert

Quando a Peste Negra devastou a Europa em meados do século 14, ela exterminou cerca de metade da população continental com mortes tão rápidas que as pessoas tiveram que enterrar inúmeras vítimas em valas comuns. Pelo menos, essa é a história que os vestígios arqueológicos nos contaram até agora.

Os pesquisadores acabam de descobrir novas evidências sugerindo que os enterros em massa são apenas um lado da história devastadora criada pela peste, porque, ao que parece, algumas vítimas foram colocadas para jazer em seus próprios túmulos com grande cuidado.

A equipe da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, por trás desse novo estudo coletou amostras de quase 200 túmulos e detectou DNA antigo de Yersinia pestis, a bactéria que causa a peste, nos dentes de algumas pessoas que morreram da doença e foram enterradas sozinhas.

“[Esta pesquisa] melhora muito nossa compreensão da peste e mostra que mesmo em tempos incrivelmente traumáticos durante as pandemias anteriores, as pessoas tentaram arduamente enterrar o falecido com o máximo de cuidado possível”, disse o arqueólogo e autor principal Craig Cessford da Universidade de Cambridge.

A descoberta adiciona uma nova dimensão à longa e horrível história da peste, que se estendeu por anos após a Peste Negra de 1346 a 1353, no que ficou conhecido como a segunda pandemia da peste (depois da primeira, alguns séculos antes).

Até hoje, surtos de peste bubônica ainda surgem em países como a República Democrática do Congo, Madagascar e Peru. A China e a Califórnia também registraram casos nos últimos anos, embora a doença agora possa ser tratada com antibióticos modernos, se disponíveis.

Mas as pessoas na Idade Média tinham mais alguns séculos pela frente antes que a causa desta doença mortal, Y. pestis, fosse descrita pelo bacteriologista suíço-francês Alexandre Emile Jean Yersin em 1894.

Temendo a doença contagiosa que matou pessoas em poucos dias, as vítimas foram enterradas em valas comuns ou ‘fossas da peste’, como a que foi descoberta em um mosteiro do século 14 no noroeste da Inglaterra. Continha 48 esqueletos e mais da metade eram crianças.

Os arqueólogos por trás daquela escavação pensaram que algumas dessas pessoas – mesmo tendo sido colocadas para jazer em valas comuns – foram enterradas com cuidado, possivelmente envoltas em mortalhas, com base na compressão dos ombros do esqueleto. Mas era um palpite que precisava de mais evidências para se manter.

Munida com técnicas de sequenciamento de DNA, a equipe da Universidade de Cambridge começou a trabalhar com a amostragem de mais de 190 esqueletos de cinco cemitérios dentro e ao redor de Cambridge, incluindo um convento, um cemitério de um hospital urbano e uma igreja, na esperança de encontrar DNA antigo preservado nos dentes das pessoas que sucumbiram à praga.

Os restos mortais, a maioria desenterrados em cemitérios singulares e uma vala comum, foram datados entre 1349 e 1561, então essas pessoas provavelmente morreram durante a segunda pandemia de peste. Isso foi confirmado em 10 dos 197 esqueletos analisados, que deram positivo para Y. pestis.

“Esses esqueletos eram quase impossíveis de reconhecer e, portanto, a atenção se concentrou nos sepultamentos em massa excepcionais”, porque a doença mortalmente rápida “não deixa rastros visíveis no esqueleto”, escreveu Cessford e seus colegas.

Indivíduos enterrados na sala do capítulo do convento que morreram de peste. Crédito: Unidade Arqueológica de Cambridge.

Com evidências de DNA confirmando que os restos mortais são de vítimas da peste, “esses enterros individuais mostram que, mesmo durante os surtos de peste, as pessoas eram enterradas com considerável cuidado e atenção”, explicou Cessford.

“Particularmente no convento onde pelo menos três dessas pessoas foram enterradas dentro da sala do capítulo“, e uma quarta pessoa também foi cuidadosamente enterrada em uma igreja próxima, disse Cessford.

O aspecto mais impressionante da maneira como essas vítimas da peste foram enterradas, como Cessford e seus colegas explicam em seu estudo, é o esforço que as pessoas devem ter investido para enterrar seus parentes dentro das paredes da sala do capítulo.

“A sala do capítulo tinha piso de ladrilhos argamassados; dezenas de ladrilhos teriam de ser levantados com cuidado antes de uma sepultura ser inserida e reintegrada ou substituído por uma laje de sepultura posteriormente”, escreveram.

“Isso [também] contrasta com a linguagem apocalíptica usada para descrever o abandono desta igreja em 1365, quando foi relatado que a igreja estava parcialmente em ruínas e ‘os ossos dos cadáveres foram expostos às bestas'”, acrescentou Cessford.

A equipe encontrou algumas pessoas que estavam em valas comuns e testaram positivo para Y. pestis, o que é uma boa comparação, mas ao encontrar as primeiras evidências de vítimas da peste medieval enterradas sozinhas graças ao DNA antigo, o estudo abre um novo capítulo para arqueólogos.

Cessford e seus colegas dizem que pode ser o início de uma grande mudança em nossa compreensão arqueológica das sociedades que enfrentam graves surtos de epidemia, escrevendo que a descoberta traça um “quadro mais abrangente de fragilidade e resiliência em sociedades do passado”.

“Se cemitérios de emergência e sepultamentos em massa são atípicos, com a maioria das vítimas da peste recebendo sepultamentos individuais em cemitérios normais, isso põe em questão o quão representativos esses locais excepcionais são”, concluiu a equipe.

Também faz você se perguntar que história permanecerá da pandemia de coronavírus que assolou 2020 e ainda não terminou.

O estudo foi publicado no European Journal of Archaeology.