10 mitos sobre o positivismo lógico

Bertrand Russell e Rudolf Carnap.

Publicado no Grupo de Análisis Filosófico de la Biología

O empirismo lógico (ou positivismo lógico, ou neopositivismo) foi um dos movimentos filosóficos mais influentes do século XX (tanto por aceitação quanto por rejeição). A semente desse movimento levou à origem da tradição analítica na filosofia da ciência.

Eles promoveram o conhecimento da ciência de uma forma extraordinária. Muitas de suas posições sobre o assunto eram inadequadas, mas as atuais posições mais sofisticadas são baseadas no trabalho que realizaram.

É por isso que seus trabalhos fazem parte de muitas disciplinas de metodologia, epistemologia ou filosofia da ciência. Eles também são frequentemente mencionados em questões de filosofia, especialmente por causa de sua posição antimetafísica (que, segundo alguns pensadores, é antifilosófica).

No entanto, esse movimento costuma ser apresentado de forma caricata. Há diversos mitos sobre o empirismo lógico que seria bom evitar:

Mito 1 – Tratava-se de um movimento homogêneo que pode ser caracterizado por um conjunto de teses substantivas compartilhadas.

Na verdade, tratava-se um grupo de especialistas em diferentes áreas que mantinham posições heterogêneas e que mudaram muito ao longo do tempo.

Essa caracterização errônea se deve, em parte, ao fato de que se pega como textos representativos de todo o movimento manuais como Language, Truth and Logic de Ayer (escrito aos 26 anos após passar apenas 4 meses em Viena) e se ignora textos – e  autores – centrais.

Mito 2 – É um movimento que considera como irrelevante os fatores sociais na atividade científica e filosófica. Consequentemente, é apolítico.

O que os unia era o ideal Iluminista de que a sociedade deveria ser educada em ciência. Seu objetivo era criar uma linguagem universal que facilitasse a comunicação entre cientistas e, então, permitisse que a ciência fosse comunicada à sociedade.

A atuação política dos membros, enquanto filósofos, diminuiu com a ascensão do nazismo e, posteriormente, com a Guerra Fria. No entanto, alguns deles agiram politicamente e se dedicaram às questões sociais, especialmente Neurath e Frank.

Mito 3 – Dedicavam-se a refletir sobre a física, desprezando as outras ciências.

Carnap era físico, mas Neurath, por exemplo, era um sociólogo marxista. Eles realizaram pesquisas em áreas como biologia ou psicologia. Além disso, ao contrário de autores como Popper, eles não desprezavam a psicanálise e nem o marxismo.

Mito 4 – Eram reducionistas.

Eles buscavam uma linguagem universal para a qual toda a ciência pudesse ser traduzida. No início, eles pensaram que a linguagem universal era a fisicalista. Mas o termo “fisicalista” não se refere à linguagem da física. Refere-se a enunciados simples que predicam algum valor ou propriedade de alguma zona temporal específica. Eles não achavam que todas as ciências eram reduzidas à física.

Mito 5 – Eram fundacionistas (a base empírica era objetiva e neutra).

Embora tenha havido discussões sobre o assunto, eles não achavam que os enunciados básicos não eram passíveis de revisões. Mais tarde, eles distinguiram entre termos teóricos e observacionais, mas a distinção era convencional e arbitrária. Eles aceitavam porque o consideraram útil para seus objetivos.

Mito 6 – O critério empirista do significado distingue entre discurso com significado e sem significado (a metafísica).

O critério busca distinguir entre enunciados com significado cognitivo (porque são analíticos ou porque têm significado empírico) de afirmações que não têm. Nem tudo que não tem significado cognitivo é destituído de sentido. Pode ter um significado emotivo.

Nem todo enunciado que não tem significado cognitivo é metafísica. A poesia não é metafísica. Uma afirmação dos objetivos últimos que se buscam também não é. Só é metafísica uma afirmação destituída de significado cognitivo que é apresentada como se tivesse.

Mito 7 – A posição do empirismo lógico é metafísica (e, consequentemente, autocontraditória).

O critério não tem significado cognitivo, mas só seria metafísico se fosse apresentado como se tivesse. Eles nunca argumentaram que tudo que não tivesse significado cognitivo deveria ser eliminado. Apenas o discurso impostor que finge expressar fatos.

Mito 8 – A posição do empirismo lógico é normativa em comparação com a posição dos filósofos historicistas que é descritiva.

O enfoque não pretendia ditar se certas teorias eram pseudocientíficas. O objetivo era expressá-las de forma mais adequada. Se suas ferramentas não funcionassem frente a uma teoria específica, eles mudavam suas ferramentas.

Por outro lado, não é verdade que os enfoques historicistas posteriores não foram normativos. Ao contrário do empirismo lógico, Kuhn, por exemplo, compartilha com Popper a intenção demarcatória entre ciência e pseudociência.

Mito 9 – Os empiristas lógicos não estavam interessados na história da ciência.

Embora Carnap nunca tenha trabalhado em tópicos de história da ciência, isso não era representativo de todo o grupo (nem era um sinal de desinteresse). O livro de Kuhn, na verdade, foi publicado na enciclopédia do empirismo lógico.

Zilsel e Frank, por exemplo, tinham trabalhos em história da ciência. E Neurath, como marxista, estava interessado em mostrar o desenvolvimento histórico das posições filosóficas.

Mito 10 – Os filósofos historicistas (especialmente, Kuhn) refutaram / desmoronaram o empirismo lógico.

As ferramentas do empirismo lógico para reconstruir teorias científicas e a ideia de construir uma linguagem universal acabaram sendo abandonadas pelo trabalho que os próprios empiristas lógicos levaram adiante.

Carl Hempel termina publicando um artigo, “On the ‘standard conception’ of scientific theories“, explicando por que a concepção de teoria científica que eles propuseram não funcionava.

Por outro lado, as relações entre Kuhn e o empirismo lógico são mais complexas do que, às vezes, é apresentado.

O projeto Iluminista de formação científica da sociedade foi deixado de lado no movimento e na filosofia da ciência, lamentavelmente, por motivos relacionados à história política do século XX, e não por causa do ataque de qualquer escola filosófica.

Atualmente, há uma reavaliação do movimento e de seus objetivos. Muitos pesquisadores consideram que, embora os meios por eles oferecidos fossem inadequados, o ensino e a comunicação de ciência deveriam ocupar um lugar central na agenda da comunidade científica, e mais uma vez um objetivo fundamental na filosofia da ciência.

Referências

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