A Influência das Ciências Cognitivas na Filosofia da Mente

Créditos da Imagem: Data Sciences International.

Os problemas metafísicos sobre a natureza da mente, que antes eram tratados de forma especulativa a priori, são trabalhados hoje em cima de dados científicos nas áreas de psicologia cognitiva, inteligência artificial e neurociência (integram uma grande área do conhecimento chamada de ciência cognitiva)[1].

Os estudos realizados no campo das ciências cognitivas levaram a filosofia da mente em uma direção fisicalista na medida em que acumularam evidência em defesa dessa tese, segundo a qual a mente (os processos mentais) também seria física, e estaria intimamente relacionada com nosso cérebro e suas propriedades.

Uma vez que o fisicalismo se torna mais justificado ele pode ser assumido na investigação de outros problemas, como a consciência, o problema cérebro-máquina ou o livre arbítrio, inspirando propostas reducionistas ou até eliminativistas, por exemplo.

As ciências cognitivas levantam questões metodológicas interessantes que são trabalhadas pelos filósofos da mente como: Como resolver o problema difícil da consciência?[2] Qual é a natureza da representação? Qual o papel que modelos computacionais desempenham no desenvolvimento de teorias cognitivas? Qual é a relação entre ideias aparentemente conflitantes sobre a mente envolvendo redes neurais e sistemas dinâmicos? Os fenômenos psicológicos estão sujeitos às explicações reducionistas através da neurociência?

Uma das problemáticas mais discutidas nos últimos anos envolve o problema difícil da consciência. O termo foi estabelecido pelo filósofo e cientista cognitivo David Chalmers[3], que ao contrário dos outros problemas que ele categorizou (que seriam os mais “fáceis”), onde uma solução vinda da ciência parece possível, nós sequer poderíamos conceber como seria possível chegar a uma explicação (o que não quer dizer que não haja).

O problema difícil da consciência é o problema em explicar como e por que temos qualia – qualidades subjetivas das experiências mentais conscientes – ou experiências fenomenais, id est, como sensações adquirem características, tais como cores e sabores.

A resposta a esta pergunta pode estar na compreensão dos papéis que os processos físicos desempenham na criação da consciência e a medida no qual esses processos criam nossas qualidades subjetivas de experiência. Essa problemática envolve questões sobre se a consciência poderia ser inteiramente descrita em termos físicos, tais como a agregação de processos neurais no cérebro. Mas se a consciência não pode ser explicada exclusivamente por processos físicos, então deveríamos apelar para explicações não-físicas para resolver essa problemática?

Uma solução aparentemente viável pode vir através da ciência da computação entendendo o cérebro como algo semelhante a uma máquina. As conexões cerebrais seriam tratadas como módulos semelhantes às peças de computadores que desempenham diferentes funções podendo gerar a consciência.

A grande problemática é o reducionismo envolvido na compreensão do cérebro como uma máquina. Sabemos que o cérebro possui cerca de 86 bilhões de neurônios[4], são números absurdos, principalmente quando tentamos mapear as conexões cerebrais através do estudo neurocientífico, o cérebro é um órgão complexo demais para se reduzir a explicações mecanicistas.

Uma forma de tentar resolver a problemática da consciência é partir de um ponto de vista mais amplo, enxergando a influência biológica na evolução do cérebro, não ignorando o corpo (seu sistema físico), o meio-ambiente, o aspecto sociocultural do qual o cérebro evoluiu e assim mapear e estimular determinadas regiões do cérebro para compreender melhor o seu funcionamento.

Assim, a filosofia da mente aparece como uma forma de analisar esses dados experimentais, o que as teorias têm a dizer e assim tentam usar essas explicações para ampliar o conhecimento sobre os processos cerebrais.

Referências

[1] Paul Thagard, 1996. Cognitive Science. Stanford: Stanford Encyclopedia of Philosophy.

[2] Stevan Harnad, 1994. Why and How We Are Not Zombies. Journal of Consciousness Studies 1: 164–167.

[3] David Chalmers, 2000. Facing Up to the Problem of Consciousness. The Place of Mind. Cengage Learning.

[4] Suzana Herculano-Houzel, 2009. The Human Brain in Numbers: A Linearly Scaled-up Primate Brain. Frontiers in Human Neuroscience 3: 31.

CONTINUAR LENDO