Por que o determinismo cultural não é ciência?

Nesta imagem, podemos observar uma criança sendo torturada por uma tradição cultural no Oriente Médio, conhecida como o Dia de Ashura.

Por Nigel Barber
Publicado na Psychology Today

A principal teoria das ciências sociais é o determinismo cultural. Embora careça de plausibilidade como teoria científica. Em muitos casos, ela não é testável. Quando é, frequentemente fracassa. Tais falhas são amplamente ignoradas porque os cientistas sociais não podem conceber uma alternativa plausível. A ciência social evolucionista [1] poderia cumprir esta tarefa.

O determinismo cultural está baseado no relativismo cultural — a noção de que crescer em uma sociedade é tão diferente de crescer em outra que não podem ser adequadamente comparadas. É como se um residente de um país atuasse em uma realidade diferente de um residente de outra porque falam uma língua diferente, acreditam em uma religião diferente, e assim por diante. Assim, as diferenças sociais são atribuídas a diferenças “culturais”. O problema com esta abordagem de “universos paralelos” é que ela vai contra o “método científico” e a ciência natural (física, química, biologia, etc.) que espera que se cumpram as mesmas leis em todos os lugares.

Até agora, os psicólogos evolucionistas têm desafiado o relativismo cultural, argumentando que as influências genéticas atravessam o ambiente de criação — os homens são fisicamente mais violentos em todas as sociedades, por exemplo — mas eles tinham pouco a dizer sobre o porquê as sociedades são diferentes, um pecado de omissão que fez com que boa parte das ciências sociais se rendessem ao relativismo cultural. Isso é uma pena, porque o ponto de vista das ciências naturais em questões tais como as diferentes formas de casamento (por exemplo, monogamia versus poligamia) pode ser surpreendentemente bem-sucedida enquanto que o determinismo cultural fracassa na hora de explicar a distribuição mundial das formas de casamento.

O determinismo cultural em poucas palavras

A variedade social (ou diversidade) é um objeto de estudo do determinismo cultural. Para sociólogos e psicólogos sociais, as principais diferenças são as atitudes das mulheres e das minorias, e as diferenças de classe. Os antropólogos se concentram na decoração corporal, no casamento, na sexualidade, na guerra, na construção de casas, na religião, na língua, na economia de subsistência, e assim por diante.

Tal variação é comumente vista pelos deterministas culturais como evidências firmes de que as diferenças sociais são causadas por diferenças “culturais”. Uma pessoa absorve as ideias de sua sociedade e passa a se comportar como todas as outras, seja vivendo em um país desenvolvido ou pertencendo a uma tribo indígena.

Neste sentido, os membros de uma sociedade de algum modo aparecem com um conjunto de regras sobre como se comportar, regras que se passam mediante a tradição oral, e subsequentemente através de escritos e por mídias eletrônicas em países desenvolvidos. Ao longo do tempo, estas regras mudam devido a acumulação de pensamentos, tais como as tradições religiosas e os órgãos de direito, bem como através do erro aleatório de cópia, conforme ilustrado por dialetos regionais de uma língua.

O que tem de errado no determinismo cultural como ciência?

Visto como um projeto científico, o determinismo cultural encontra vários problemas incapacitantes. A maioria de suas explicações são circulares. Por exemplo, o crime violento é atribuído a uma cultura de violência. Em primeiro lugar, não sabemos o que faz com que algumas sociedades sejam mais violentas. Em vez disso, o resultado é usado para a mesma explicação, um exercício de raciocínio circular que carece de validade científica [2].

Os principais construtos são geralmente moralistas (por exemplo, o racismo, o sexismo, o imperialismo). Eles tomam partido e impedem que os pesquisadores mantenham um certo tipo de objetividade, que é a chave para uma boa ciência.

Finalmente, os deterministas culturais supõem que os seres humanos pertencem a diferentes âmbitos científicos do que todas as outras espécies evoluídas deste planeta. O resultado é que o determinismo cultural realmente explica muito pouco e as ciências que estão infectadas por ele fazem pouco ou nenhum progresso.

Alguns destes problemas podem ser ilustrados mediante a questão do casamento polígamo que foi o tema de um texto recente. Ao tratar sobre a presença da poligamia em algumas sociedades, os deterministas culturais apontam para atitudes patriarcais, para a ignorância e a opressão das mulheres. No entanto, não há nenhuma evidência em favor de qualquer uma destas explicações moralistas.

No entanto, as evidências apoiam exatamente nas mesmas razões adaptativas para a poligamia humana do que para os sistemas de acasalamento polígamo das aves [3]. São elas: a escassez de machos; a capacidade dos machos para defender bons territórios (espelhados pela desigualdade da riqueza); e a necessidade das fêmeas para adquirir genes resistentes a doenças para os seus descendentes.

Isso não quer dizer que podemos saber tudo sobre a nossa própria espécie estudando pássaros, mas podemos dizer que uma perspectiva comparativa entre as espécies pode ser extremamente importante para a compreensão de nós mesmos.

A julgar pelo sucesso empírico desta abordagem evolutiva para a explicação das diferenças da poligamia através das sociedades e o fracasso abismal do determinismo cultural, o futuro pode pertencer ao adaptacionismo [4]. Isto não é sobre o conceito banal dos universais, mas sobre um compromisso científico ativo com a grande diversidade das sociedades humanas.

[1] Barber, N. (2008). The myth of culture: Why we need a genuine natural science of societies. Newcastle-upon-Tyne: Cambridge Scholars Press.

[2] Barber, N. (2008). Evolutionary social science: A new approach to violent crime. Aggression and Violent Behavior, 13, 237-250.

[3] Barber, N. (2008). Explaining cross-national differences in polygyny intensity: Resource-defense, sex ratio, and infectious diseases. Cross-Cultural Research, 42, 103-117.

[4] De acordo com Everton de Santana, estudante de biologia evolutiva, o adaptacionismo sofreu duras críticas de biólogos como Gould e Lewontin, no artigo feito pelos dois chamado The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist Programme. Eles apontam que as interpretações adaptacionistas dos processos evolutivos não têm que ser descartados, porém o sucesso explicativo do programa do ponto de vista histórico não justifica em sua totalidade a total confiança nessa forma de abordagem. A principal crítica foi a acusação que muitas explicações adaptacionistas eram “just-so-stories”, ou seja, somente historietas que os biólogos inventavam para justificar a crença de que um dado fato ou de que as características dos seres vivos são adaptações. Eles partiam do pressuposto de que o objeto de estudo deles passou por uma adaptação e assim desenvolviam uma história para tentar explicar o surgimento e otimização desse objeto via seleção natural e adaptação, ignorando dados empíricos. A segunda maior crítica é o fato dos biólogos ignorarem programas explicativos alternativos ao adaptacionismos, não abordando a complexidade dos seres vivos tal como deveria ser. A biologia atual se baseia em um pluralismo de processos, ou seja, vários fatores evolutivos podem desencadear a evolução e mudanças significativas dos seres vivos, não somente a adaptação. Tal como a genética, a exaptação, a construção de novos nichos, dentre outros. De novo, não se trata de descartar o programa adaptacionismo, trata-se de além dessa forma de abordagem, levar em conta outros programas disponíveis (como a evo-devo) para analisar a evolução da vida.

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