A mentira no Reino Animal

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Razumíkhin, personagem do livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, certa vez afirmou: “A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais”. Essa é, sem dúvida, uma definição interessante, porém equivocada. Isso porque o blefe, a mentira, a trapaça não são uma exclusividade da mente humana. Diversos organismos apresentam inúmeras estratégias de sobrevivência que envolvem comportamentos que visam enganar outros organismos com o objetivo de tirar algum tipo de vantagem. Dessa forma, expandindo o arsenal evolutivo que possibilita a sobrevivência de sua espécie.

Um exemplo de animal mentiroso é uma ave que vive no deserto de Kalahari na África, conhecida como drongo rabo-de-forquilha (Dicrurus adsimilis) .Essa espécie estabeleceu uma interessante associação com os suricatos. Os  drongos ficam em árvores  próximas a agrupamentos de suricatos e quando estes avistam um predador que ameaça os suricados a ave emite sons que alertam os  suricatos do perigo. Essa relação é extremamente benéfica para os suricatos, pois tem ao seu dispor um vigia com visão panorâmica. No entanto, porque os drogos avisam os suticatos de um eventual perigo? Seria um caso de altruísmo entre espécies?

A grande sacada dessa ave é o fato dela estabelecer uma relação com os suricatos, pois elas avisam  quando os predadores se aproximam. No entanto, em situações nas quais os suricatos estão coletando alimentos essa ave emite sons avisando a presença de predadores, porém não existe nenhum predador. Mas qual seria o objetivo disso? É que os suricatos ao escutarem a advertência emitida pela ave de que algum predador estaria chegando fogem para suas tocas deixando para traz o alimento que acabaram de coletar.  O drongo rabo-de-forquilha, por sua vez, pega o alimento recém coletado pelos suricatos.

O drongo estabelece uma relação de confiança, para em seguida poder “trair” seus amigos suricatos. Essa relação se baseia em um profundo equilíbrio entre confiança e traição. Um altruísmo excessivo colocaria a ave em situação desvantajosa, pois ela gastaria tempo e energia em um comportamento no qual ela não teria nenhum benefício e consequentemente se tornaria prejudicial, já o blefe demasiado romperia a relação com os suricatos que não cairiam mais no golpe e consequentemente essa ave perderia uma importante fonte alimentar, afinal drongos conseguem cerca de 23% de sua alimentação diária usando este tipo de truque(1)

Além do curioso caso do drongo rabo-de-forquilha, temos outros exemplos de aves que conseguem enganar outros animais na perspectiva de alcançar vantagens para si.   O Cuco-canoro é uma ave na qual a fêmea coloca seus ovos no ninho de outras espécies. Ao eclodirem os ovos do cuco os filhotes empurram para fora os filhotes ou ovos das aves que construíram os ninhos, que por sua vez cuidam do jovem cuco até o mesmo atingir a independência. (2)

Já outra ave, Acanthiza pusilla, apresenta pequeno porte, é uma das menores aves da Austrália, o que a torna extremamente vulnerável contra os predadores. No entanto, essa ave é capaz de imitar os sons de grandes aves e assim assustam os predadores. O mimetismo vocal em aves é relativamente comum. No entanto essa estratégia que imita animais maiores para afastar predadores é rara, mostrando assim a possibilidade e a capacidade desse pássaro para enganar predadores a partir de um comportamento inusitado. (3)

Acanthiza pusilla

Já outra espécie que imita outra na perspectiva de tirar vantagem são as aranhas do gênero  Myrmarachne que adotam um comportamento no qual visam parecer com formigas. Como se sabe aracnídeos apresentam 4 pares de patas e não têm antenas, já os insetos tem 3 pares de patas e 1 par de antena. Dessa forma, como uma aranha se pareceria com uma formiga, já que elas se diferenciam entre o número de patas e antenas?

A grande saída encontrada por algumas espécies desse gênero de aranhas (e de outros gêneros também) é levantar as patas dianteiras para que se pareçam com antenas. Dessa forma, a aranha passa aparentar ter 3 pares de patas e 1 par de antenas, similar a uma formiga. Um exemplo bastante interessante é da espécie Myrmarachne assimilis, representada na imagem abaixo.

Myrmarachne assimilis

O objetivo para que um conjunto de aranhas imitem formigas é o mais variado. Podendo ser para afastar predadores que evitam predar formigas ou até mesmo para adentrar dentro de ninhos de formigas para capturar seus ovos.

Já o blefe entre primatas é bastante documentado, Richard Byrne e Andrew Whiten, dois pesquisadores ingleses, levantaram  253 casos de situações de comportamento de primata na qual enganavam indivíduos da mesma espécie ou de outra espécies.

Um desses casos é de um jovem babuíno do sul da África do Sul: Ao ver que outro babuíno apanhou uma raiz bastante nutritiva, o jovem babuíno gritava como se tivesse apanhando, consequentemente a mãe desse jovem babuíno acreditava que o babuíno maior (que acabara de conseguir alimento) estava machucando seu filhote e o afugentava. Frente esse “teatro”, de forma oportunista, o jovem babuíno prontamente pegava o alimento que tinha sido deixado para traz pelo outro babuíno em fuga.(5).

Assim  mentira e a trapaça não são uma exclusividade humana. Demonstrando que inúmeras estratégias evolutivas podem ser desenvolvidas para manutenção de uma determinada espécie. Além do mais, parte dessas ações são possivelmente práticas pensadas, ou seja, em minha modesta opinião não são uma mera reprodução guiadas por instintos cegos. Nesse sentido, a cognição animal, sua capacidade de resolver problemas do ponto de vista pensado.

Referências

  1. TOM P. FLOWER, MATTHEW GRIBBLE, AMANDA R. RIDLEY. Deception by Flexible Alarm Mimicry in an African Bird. SCIENCE 02 MAY 2014 : 513-516
  2. Davies, N. B.; de L. Brooke, M. (1989). «An experimental stmanudy of co-evolution between the Cuckoo, Cuculus canorus, and its hosts. II. Host egg markings, chick discrimination and general discussion». Journal of Animal Ecology. 58 (1): 225–236. JSTOR 4996
  3. Branislav Igic, Jessica McLachlan, Inkeri Lehtinen, Robert D. Magrath. Proc. R. Soc. B 2015. Crying wolf to a predator: deceptive vocal mimicry by a bird protecting Young. Published 3 June 2015
  4. Platnick NI. (2012). The World Spider Catalog, version 13.0. American Museum of Natural History, New York.
  5. Richard W. Byrne and Andrew Whiten (1989). Machiavellian Intelligence.
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3 Comentários em "A mentira no Reino Animal"

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Gabriel M
Visitante

Muito bom! Dessa forma, já que a mentira e a trapaça não são uma exclusividade humana e é demonstrado em espécies tão diferentes nesse texto, imagino que a corrupção possa vir de ancestrais bem primitivos da espécie humana, não sendo, necessariamente, algo que surgiu com o desenvolvimento de civlizações, política e sociedade.

Lorena
Visitante

É fantástico o estudo comportamental de animais! Belo texto :)

Miguel
Visitante

Muito interessante o artigo. Já havia lido alguns outros sobre esse tema (as diversas formas de “truques” do reino animal). Parece que ainda há muito a ser investigado nessa fascinante área.