Alberto Clemente: “Há uma correlação muito clara entre conhecimento científico e ateísmo”

Crédito: Arne Niklas Jansson.

Por Eduardo Quintana
Publicado na Ciencia del Sur

Para o físico Alberto Clemente de la Torre, não há meio termo: há uma correlação fundamental entre o ateísmo e o avanço do conhecimento, e os cientistas crentes não aplicam corretamente o método da ciência.

O professor emérito da Universidade Nacional de Mar del Plata (UMP) é um cientista militante do ateísmo, tanto que sugere aos descrentes que façam mais sexo para procriar. Ele enxerga o ateu como uma pessoa comprometida com a realidade e a verdade, no qual deve inspirar como exemplo do modelo de vida.

Ele não publica mais no European Journal of Physics, no Foundations of Physics ou no American Journal of Physics como antes e, embora já esteja aposentado, ainda investiga os fundamentos da mecânica quântica e qualifica como fascinante o presente e o futuro das ciências físicas.

Após estudar e trabalhar na Universidade de Córdoba, na Universidade Drexel (EUA), na Universidade Cornell e na Universidade de Heidelberg (Alemanha), o Dr. de la Torre diz que está aposentado, mas continua dando o que falar. Ele leciona a cadeira de “Física em uma perspectiva humanística” na UMP, onde ele mescla ciência e filosofia.

Ele publicou dezenas de artigos científicos em diferentes revistas e possui quatro livros: Física quântica para filósofos, no Fundo de Cultura Econômica, Física em perspectiva humanística, Universo sem deuses e Meditações ateístas. Ele chegou à vice-presidência da associação civil Ateos Mar Del Plata.

A Ciencia del Sur conversou com ele por alguns minutos para discutir a descrença entre a comunidade científica.

Em que você está trabalhando? Você ainda está pesquisando e orientando alunos?

Estou aposentado da universidade e do CONICET há alguns anos, mas não se aposenta por paixão e continuo fazendo o mesmo, mas com menos intensidade.

Continuo pesquisando os fundamentos da mecânica quântica e da física geral, mas me preocupo menos com a publicação dessas investigações. Também dou aulas em um curso de pós-graduação em Física em perspectiva humanística. Eu já não oriento estudantes, mas eu participo como jurado de tese de doutorado.

Várias décadas depois de ensinar e pesquisar ciências físicas, qual é a principal contribuição ou legado que você deixa?

Isso não é fácil de avaliar. Com meia centena de publicações científicas, eu contribuí para fertilizar a base da ciência. Algumas dessas publicações tiveram um impacto significativo e outras não, mas acho que o mais importante é ter participado da manutenção da base sociológica científica.

Além da produção científica, dois aspectos que valorizo: um é o treinamento de cientistas que atualmente têm um desempenho internacional muito bom e o outro é que contribuiu para a disseminação da física nos campos intelectuais humanísticos e no público em geral.

Em geral, posso aplicar ao campo acadêmico-científico e, no meu caso pessoal, a ideia correta de Karl Marx: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. Dei à universidade, ao país e à comunidade científica internacional o que pude produzir e recebi deles o necessário para o meu desenvolvimento profissional.

Acho que todo mundo que reclama por não ter meios de seguir em frente está escondendo sua incapacidade.

Como você avalia esse momento da história da física em geral e da mecânica quântica e das ondas gravitacionais em particular?

É um momento fascinante. Ter sido capaz de observar as ondas gravitacionais previstas pela teoria da relatividade geral de Einstein há um século é um espetacular tour de force. Por outro lado, a ontologia sugerida pela teoria dos campos quânticos, onde a realidade é vista como uma criação e aniquilação permanente de partículas virtuais, fornece uma imagem maravilhosa da existência com amplo suporte empírico.

Sem dúvida, o futuro da física promete mais surpresas quando essas duas grandes teorias científicas forem unificadas. Aqueles que previram o “fim da história” eram realmente míopes culturais.

Nos países teocráticos, o ateísmo não é apenas penalizado, é punível com a pena de morte em alguns casos. As pessoas morrem como resultado de sua filosofia ateísta em nossa era?

Existem poucos casos isolados, mas a coisa mais preocupante é que ainda estão matando em nome de Deus. Não devemos esquecer que a guerra entre Israel e o mundo árabe, as guerras entre sunitas e xiitas, os ataques terroristas na Europa e nos Estados Unidos são manifestações de guerras religiosas que têm sua base ideológica nas diferentes Escrituras Sagradas (Bíblia, Torá, Alcorão).

A combinação de religião com poder político e militar é letal e, enquanto existir, não haverá paz no mundo.

Os ateus ainda sofrem por serem ateus nos últimos séculos? Alguns autores crentes argumentam que os livres pensadores mais perseguidos eram cristãos ou crentes.

Acho que não, mas qualquer perseguição por razões ideológicas é uma aberração, seja por ser crente ou ateu. O fato quantitativo de saber se existem mais ateus perseguidos do que crentes é, para mim, irrelevante.

No século XXI, em muitos países, existem democracias onde a liberdade de culto ou credo é respeitada. Os ateus são respeitados em nossas sociedades? É importante que os ateus se tornem visíveis?

Muitas leis contêm explicitamente a liberdade de culto, mas ignoram a liberdade de religião. Os ateus são geralmente ignorados em pesquisas e formulários.

Na Argentina, os ateus representam a segunda minoria depois dos católicos e são muito mais numerosos do que protestantes, testemunhas de Jeová, judeus etc. No entanto, esses grupos religiosos têm presença muito maior.

É por isso que é importante que os ateus se mobilizem para conseguir o lugar certo na sociedade.

O que ateísmo realmente significa?

Ser ateu é mais do que simplesmente negar a existência de Deus: não é apenas uma opção ontológica que analisa a existência das coisas. Também propõe uma ética humanista não baseada em medo ou punição.

O ateísmo epistemológico enfrenta as verdades reveladas da religião com as fundamentadas na ciência. Na experiência, ele busca felicidade, bondade e justiça neste mundo, porque não há outro.

Em resumo: ser ateu é um compromisso com a realidade, o bem, a verdade e a felicidade.

Alguns ateus se declaram publicamente agnósticos para se pouparem de possíveis argumentos e pressões. Como você vê essa postura?

A opção agnóstica de negar o julgamento baseado na impossibilidade de demonstrar com rigor absoluto a existência ou inexistência de Deus (ou de qualquer coisa) seria a mais racional se houvesse evidência igual a favor e contra a existência de Deus.

Não é assim: as provas da existência de Deus são muito pequenas (e falaciosas), enquanto há uma infinidade de provas de sua inexistência. A opção mais racional é o ateísmo, não o agnosticismo.

Há uma tendência ao ateísmo em certos grupos sociais? Digamos, os cientistas são mais propensos ao ateísmo ou não necessariamente? O que você diz sobre os cientistas que são crentes? Eles têm dissonância cognitiva ou algo mais?

Há uma correlação muito clara entre conhecimento científico e ateísmo. Uma pesquisa feita na National Science Foundation dos EUA mostra que mais de 90% dos principais cientistas não são religiosos (entre os biólogos, excedeu 95%). O mesmo resultado foi encontrado na Royal Society of London.

Em uma pesquisa realizada na Argentina (pela equipe Fortunato Mallimaci), observa-se que o ateísmo aumenta junto com o nível educacional. Se existem cientistas que acreditam em Deus, é porque eles não aplicam o método científico ao caso em questão. Eles são semicientíficos.

Em um estudo realizado pela Universidade da Malásia e outro nos Estados Unidos, foram encontradas evidências da baixa taxa de nascimentos de ateus proporcionalmente em comparação com grupos de cristãos e outros religiosos. Os incrédulos procriam menos, então haveria uma tendência à redução do número de ateus. O que você acha disso?

Possivelmente o mesmo é encontrado ao comparar cientistas, intelectuais, pensadores e filósofos com ignorantes. A única coisa em que consigo pensar é em dizer aos ateus para agirem mais: uma nova e agradável militância.

-Quais problemas ou desafios enfrentam, ao seu modo de ver, os ateus ao redor do mundo?

O maior problema é a frustração encontrada na luta contra o preconceito, contra a arrogância dos ignorantes, contra a irracionalidade e contra a estupidez. Diante dessa frustração, o ateu nunca deve abandonar sua racionalidade e destacar seus valores éticos. O melhor que podemos fazer é nos apresentar como exemplos de ética, tolerância, simpatia, alegria de viver, pensamento crítico.

Em suma, sejam boas pessoas. Isso pode convencer mais do que mil argumentos corretos.