Belas esculturas de ossos de 51.000 anos atrás estão mudando nossa visão dos neandertais

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Falange de alce-gigante gravada e esculpida. Créditos: V. Minkus / Leder et al., Nat. Ecol. Evol., 2021.

Por Conor Feehly
Publicado na ScienceAlert

Como humanos, gostamos de pensar que temos algumas características únicas no reino animal. A linguagem nos permite comunicar com eficiência uns com os outros. A cultura preserva e acumula conhecimento ao longo das gerações. Tecnologia e ferramentas nos ajudam a resolver problemas. Símbolos e arte revelam pistas sobre nossas experiências complexas.

Um crescente corpo de evidências sugere que as características que tendemos a presumir são exclusivas dos humanos modernos, podem ter estado presentes também em nossos primos hominídeos.

Cientistas anunciaram agora a descoberta de um osso de alce-gigante esculpido e gravado com 51.000 anos, produzido pelos neandertais nas montanhas Harz, no norte da Alemanha. Os entalhes no osso de veado são arranjados de forma precisa e artística em padrões chevron.

Evidências anteriores de traços simbólicos e artísticos em neandertais são escassos, mas as novas descobertas levantam questões interessantes sobre o quão complexo o comportamento dos neandertais pode realmente ter sido.

As descobertas se somam a pesquisas anteriores que já apontavam para as características comportamentais complexas dos neandertais, como sua capacidade de produzir e ouvir os sons da fala de humanos modernos, sua produção de ferramentas e tecnologia e seu luto pelos mortos.

Os arqueólogos Dirk Leder, Thomas Terberger e seus colegas dataram o osso de alce-gigante pelo carbono, revelando seus 51.000 anos de idade. A análise microscópica e a replicação experimental sugerem que o osso foi realmente fervido para amolecer antes que a gravação ocorresse.

Até agora, as evidências artísticas dos Neandertais se resumiam a símbolos minimalistas e estênceis feitos à mão nas paredes das cavernas em três sítios arqueológicos espanhóis – La Pasiega, Maltravieso e Ardales.

Os autores do novo estudo acreditam que a gravação de linhas individuais no desenho chevron, combinada com o fato de que esses alces-gigantes (Megaloceros giganteus) eram raros ao norte dos Alpes naquela época, reforça a ideia de que as gravuras têm significado simbólico e mostram evidências para imaginação conceitual em neandertais.

“Os achados arqueológicos de gravuras de artistas são raros e, em alguns casos, ambíguos. Evidências de decorações artísticas sugeririam a produção ou modificação de objetos por razões simbólicas além da mera funcionalidade, adicionando uma nova dimensão à complexa capacidade cognitiva dos neandertais”, escreve Silvia Bello, do Museu de História Natural de Londres, em um artigo do News & Views publicado na Nature.

“A escolha do material, sua preparação antes do entalhe e a técnica habilidosa usada para a gravação são todos indicativos de expertise sofisticada e grande habilidade no trabalho com ossos”, acrescentou Bello.

Uma questão no centro desta pesquisa é se esses Neandertais foram influenciados por antigos contemporâneos do H. sapiens na produção desse tipo de osso esculpido.

Leder, que trabalha no Serviço Estadual de Patrimônio Cultural da Baixa Saxônia, e seus colegas acreditam que os neandertais tinham as capacidades manuais e intelectuais para produzir o artefato independentemente de qualquer influência humana moderna.

Eles sustentam sua hipótese com evidências arqueológicas que sugerem que o H. sapiens chegou à Europa Central vários milênios depois que o osso esculpido e gravado foi datado.

No entanto, dadas as evidências recentes da troca de genes entre os neandertais e os humanos modernos há mais de 50.000 anos, Bello acha que não podemos descartar a possibilidade de o H. sapiens ter tido alguma influência na produção desses tipos de artefatos pelos neandertais.

“Dada essa troca inicial de genes, não podemos excluir uma troca de conhecimento semelhante entre humanos modernos e populações de Neandertal”, ela escreveu.

“A possibilidade de um conhecimento adquirido do homem moderno não subestima, na minha opinião, as habilidades cognitivas dos neandertais. Pelo contrário, a capacidade de aprender, integrar a inovação na própria cultura e se adaptar a novas tecnologias e conceitos abstratos deve ser reconhecido como um elemento de complexidade comportamental”.

A pesquisa foi publicada na Nature Ecology and Evolution.