Como fingir entender Heidegger

Aprenda a jogar um dos principais jogos da Academia.

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Por Rodrigo Esteves Lima
Publicado na Revista Poleiro

Com diversas obras publicadas que abarcam temas como metafísica, estética e linguagem, o alemão Martin Heidegger foi um dos principais filósofos do século XX. Sua principal contribuição à filosofia foi, sem dúvidas, fazer com que estudantes do mundo inteiro batessem incessantemente suas cabeças contra a parede enquanto tentam compreender algo da sua prosa impenetrável.

Mas há uma coisa que a maior parte dos estudantes não sabe. Algo que eles irão até mesmo negar existir. A maior parte da Academia de fato lê Heidegger, o que não se sabe é que na verdade ninguém de fato o entende. Há um acordo tácito, um contrato social na universidade que estipula que não se fale sobre o status de completa ignorância acerca de Heidegger e que deve-se somente fingir compreendê-lo. Essas cinco regras abaixo irão ajudar você a jogar o jogo.

1. Sob hipótese alguma tente entender Heidegger.

Enquanto a leitura das principais obras de Heidegger pode não tomar muito tempo, tentar compreendê-las certamente irá. Seriam necessários anos de estudo, um esforço digno de sagrar o maior asceta, somente para tentar compreendê-lo. E muito provavelmente você não conseguirá. Ler Heidegger é importante (e de fato todos na universidade leem), mas somente para se habituar com sua terminologia para poderem fingir que o entendem, nada mais.

Ademais, pense nos possíveis resultados caso você, de fato, consiga compreender Heidegger. Pense em todos os trabalhos que seriam desmascarados, pense nos professores que seriam demitidos, no leite que faltaria na mesa das crianças, nos livros que deixariam de ser vendidos. Tudo isso porque alguém resolveu se atrever a compreender Heidegger. Não entender Heidegger é um dever cívico. Pense nas crianças.

2. Critique a tradução.

Ao criticar a tradução, você dá a entender que não somente leu Heidegger, mas que leu pelo menos duas traduções, o original em alemão e refletiu o suficiente sobre as duas edições para que pudesse criticar a tradução, o que te torna automaticamente um expert em Heidegger.

Além disso, há muita divergência nas traduções de Heidegger no que diz respeito à terminologia utilizada para traduzir os conceitos. O Dasein, por exemplo, um dos principais conceitos da obra heideggeriana, já foi traduzido como entre-ser, ser-aí e outras expressões e termos, cada um tendo sua série de implicações. Diga que a tradução não compreende o Dasein em sua plenitude e aproveite para complementar com o velho clichê dizendo que com Heidegger você aprendeu que realmente só é possível filosofar em alemão.

3. Cite apenas fontes terciárias.

Como ninguém realmente entende Heidegger, todos utilizam livros que fazem uma releitura geral da sua obra na vã esperança de tentar conseguir apreender algo da filosofia heideggeriana, além de dar a ideia de que já leram Heidegger e também comentários sobre seu trabalho. Entretanto, essa já é uma estratégia batida e faz com que a farsa seja rapidamente percebida por aqueles que já são versados na arte de fingir compreender Heidegger.

Vá além. Ao citar quem cita Heidegger você parece ter uma carga de leitura maior do que aqueles que citam somente fontes secundárias. Você também distanciará ainda mais o comentário da leitura original, tornando o pensamento mais confuso e deixando todos atordoados. Se possível, escolha uma fonte terciária de um pós-estruturalista sobre Heidegger. Ninguém realmente entende Heidegger e ninguém realmente entende os pós-estruturalistas, então seu comentário certamente será visto como extremamente avant-garde.

4. Nunca finja já ter lido os cadernos negros.

Os cadernos negros foram manuscritos de Heidegger publicados post-mortem nos quais, entre outras coisas, Heidegger tenta aplicar a sua filosofia para justificar o nazismo e o antissemitismo. A obra é tão vergonhosa que o próprio Heidegger pediu que só publicassem depois da sua morte. Por esses motivos, nem mesmo heideggerianos leem os cadernos negros, portanto, caso você diga que já leu todas as obras de Heidegger sem especificar que não leu nem jamais lerá os cadernos, acabou. Sua farsa foi exposta.

Somente os biógrafos intelectuais de Heidegger de fato leem os cadernos negros (neonazis não conseguiriam entender o material) e se esse for o seu caso, o fato de você estar lendo esse artigo somente comprova o altíssimo grau de ininteligibilidade da obra de Heidegger.

5. Diga como é importante retornar a Heidegger.

Heidegger nunca realmente saiu de cena, mas também nunca dominou completamente o cenário intelectual brasileiro, obcecado com a filosofia francesa. Mas esse não é um problema, podemos usar isso a nosso favor. Pensadores são constantemente trazidos à tona novamente para, logo depois, retornarem ao esquecimento.

Heidegger é um excelente filósofo para ser repensado, afinal ninguém realmente o entendeu. Fale que estamos numa época onde é fundamental tentar (e falhar!) compreender Heidegger sob uma nova luz, possivelmente de acordo com algum pré-socrático obscuro. Esses estão sempre em eterno retorno.

Siga essas dicas simples e assista aos aplausos da comunidade heideggeriana que comemora a chegada de mais um novo membro!

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