CoronaVac mantém proteção contra variante brasileira da COVID-19

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Mulher em São Paulo vê a seringa que vai ser usada para aplicar a vacina contra a COVID-19 da Sinovac. (Créditos: Andre Penner/AP)

Traduzido por Julio Batista
Original de Sofia Moutinho para a Science

Como variantes potencialmente mais perigosas do coronavírus se espalharam pelo mundo, cientistas e médicos estão correndo para descobrir o quão bem as vacinas contra a COVID-19 disponíveis protegem contra as cepas mutantes. Os resultados preliminares de um grande estudo com profissionais de saúde agora sugerem que uma dose da CoronaVac, uma vacina desenvolvida por uma empresa chinesa, ainda é cerca de 50% eficaz contra a COVID-19 sintomática em uma cidade brasileira onde mais de três quartos dos novos casos são causada pela variante altamente transmissível conhecida como P.1.

Essa proteção no mundo real é quase o mesmo nível da observada em ensaios clínicos com duas doses da CoronaVac contra o coronavírus pandêmico original no país, sugerindo que as mutações da variante não aumentaram a capacidade do SARS-CoV-2 de contornar as respostas imunológicas evocadas pela vacina.

“É uma notícia muito boa e sustenta a continuidade do uso da vacina no Brasil e em outros países com circulação da mesma variante”, disse Julio Croda, médico e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, que liderou o estudo. A proteção da vacina pode ser ainda melhor após a segunda dose, acrescenta, lembrando que o estudo está em andamento.

Embora 50% da eficácia esteja muito abaixo da proteção superior a 90% do mundo real das vacinas contra a COVID-19 feitas com RNA mensageiro (mRNA), ainda pode ser bom o suficiente para conter a propagação da doença no Brasil; vacinas com esse nível de eficácia em um ensaio clínico qualificam-se para uso de emergência em muitos lugares e atendem ao limite da Organização Mundial da Saúde também.

Também não está claro o quão bem as vacinas de mRNA protegem contra a variante P.1; seus testes clínicos aconteceram antes da variante circular ou em locais com pouca presença da variante. Além disso, a CoronaVac provavelmente oferece uma proteção muito maior contra doenças graves, hospitalização e morte do que contra casos mais leves de COVID-19. Isso foi observado em ensaios de eficácia de duas doses conduzidos no Brasil e em outros países e é típico das vacinas contra a COVID-19. Mas o novo estudo ainda não coletou casos graves o suficiente para calcular a eficácia, disse Croda.

Os resultados preliminares do estudo, ainda não revisados ​​por pares, foram postados em um servidor de pré-publicação essa semana e são os primeiros a avaliar a eficácia da vacina feita pela Sinovac Biotech em uma área infestada com a variante P.1. CoronaVac contém cópias inteiras inativadas do SARS-CoV-2, em contraste com muitas outras vacinas contra a COVID-19, incluindo as vacinas de mRNA, que apenas apresentam a proteína spike do vírus ao sistema imunológico.

A origem da variante P.1 foi rastreada até o Brasil em janeiro, e a cepa se espalhou rapidamente para o resto do mundo. Estudos de laboratório que avaliam se os anticorpos induzidos pela vacina podem neutralizar a infectividade do SARS-CoV-2 levantaram preocupações de que a variante poderia contornar a proteção imunológica conferida pelas vacinas. É provável que o vírus mutante esteja causando a onda recente da COVID-19 no Brasil – o país tem atualmente até 60.000 novos casos por dia. A COVID-19 já matou mais de 350.000 brasileiros.

O estudo com a CoronaVac envolveu dados médicos de 67.718 profissionais de saúde de Manaus, uma cidade amazônica que é o epicentro da variante P.1. O vírus mutante agora responde por 75% de todos os resultados de testes positivos na cidade, onde o sistema de saúde está em colapso por causa da COVID-19.

Para estimar a eficácia da CoronaVac, os pesquisadores se concentraram em 2.656 profissionais de saúde que fizeram testes de reação em cadeia da polimerase (PCR) para infecções por SARS-CoV-2 a partir de janeiro, com o lançamento inicial da vacina, até a semana passada. Os cientistas identificaram 786 pessoas com sintomas aparentes de COVID-19, que eles dividiram em dois grupos de 393 cada: aqueles com teste positivo e negativo para o vírus. Em seguida, os pesquisadores verificaram a proporção de pessoas vacinadas e não vacinadas em ambos os grupos. No grupo positivo, 18,6% foram vacinadas; no grupo negativo, a proporção foi de 24,4%. Usando as pessoas não vacinadas como referência, os pesquisadores calcularam o risco de infecção pelo SARS-CoV-2 14 dias após a primeira dose.

A eficácia de 49,6% no mundo real é semelhante à eficácia da vacina de 50,34% contra o COVID-19 sintomático após ambas as doses, encontrada em um ensaio clínico de fase 3 conduzido no Brasil pelo Instituto Butantan. “Não é por acaso”, disse o epidemiologista Ricardo Palácios, que fez os testes com a vacina na instituição que produz a CoronaVac em convênio com a Sinovac. “Esta é uma confirmação independente de que a vacina é eficiente em um cenário de uma nova variante.”

O epidemiologista Eric Feigl-Ding da Federação de Cientistas Americanos, no entanto, adverte que o novo estudo não sequenciou o SARS-CoV-2 nas pessoas com testes de PCR positivos para garantir que suas infecções fossem causadas pela variante P.1. A conclusão dos autores de que a vacina protege contra a variante se baseia no pressuposto de que ela constitui a maioria dos casos positivos, observa ele.

Por outro lado, disse Feigl-Ding, medir a eficácia da vacina no Brasil pode produzir resultados artificialmente baixos, porque há um alto risco de que as pessoas tenham alguma imunidade devido ao contato anterior com o vírus. “Esta é uma propriedade natural de fazer um teste em uma população altamente infectada anteriormente”, disse ele. Isso também poderia explicar porque o ensaio clínico com a CoronaVac no Brasil mostrou números de eficácia mais baixos (50%) do que em outros países, como Turquia (83,5%) e Indonésia (65%).

A CoronaVac pode se mostrar melhor na população em geral, já que os dados do novo ensaio vêm de profissionais de saúde altamente expostos ao vírus, aponta o imunopatologista Bruno Filardi, do Instituto do Câncer. “Provavelmente a eficácia será maior do que o estudo preliminar está mostrando”, disse ele. Além do Brasil, a CoronaVac foi autorizada e usada na China, Chile, Bolívia, México, Turquia e Indonésia.

Croda e seus colegas continuarão a analisar a eficácia de várias vacinas contra P.1 e outras variantes com grupos maiores de pessoas. Nas próximas 2 semanas, eles planejam examinar os dados de São Paulo, onde mais de 7 milhões de pessoas foram vacinadas com a vacina da CoronaVac ou da AstraZeneca. Esse trabalho é de alta prioridade, de acordo com o especialista em doenças infecciosas Jason Andrews da Universidade de Stanford, que trabalha com a equipe de pesquisa brasileira e é coautor da pré-publicação. “Será fundamental detectar quando as vacinas não serão mais eficazes contra as variantes emergentes”, disse ele. “O que é uma questão de quando, e não se.”