A cultura marxista: a filosofia

Na imagem, Karl Marx e Friedrich Hegel.

Por Mario Bunge
Publicado no El País

Em que consiste a filosofia que fundaram Marx e Engels há mais de um século, e o que resta dela ainda hoje? A filosofia marxista básica, como qualquer outra filosofia que se preze, trata do mundo e da maneira de conhecê-lo. A primeira parte é denominada ontologia (ou metafísica) e a segunda gnoseologia (ou teoria de conhecimento). Os marxistas geralmente cobrem esses dois ramos sob o nome de materialismo dialético. É uma das ontologias mais originais e, ao mesmo tempo, mais toscas e obscuras da história. A gnoseologia marxista é uma variante do realismo que está unida a teses empiristas e pragmatistas. Explicarei brevemente.

O materialismo assume que a realidade está composta exclusivamente por coisas concretas ou materiais, sejam elas ponderáveis, como os átomos, ou imponderáveis, como a luz. O realismo, no entanto, assume que o ser humano pode conhecer as coisas, ainda que seja apenas parcial e gradualmente. Pode-se ser materialista sem ser realista, e realista sem ser materialista.

Os cientistas e tecnólogos muitas vezes adotam tacitamente uma filosofia que é, ao mesmo tempo, materialista (já que não andam atrás de fantasmas) e realista (já que se propõem a averiguar como são as coisas que compõe o mundo). O materialismo venceu há tempos na física e química; triunfou na biologia com Darwin; está abrindo caminho na psicologia com ajuda da fisiologia, e nas ciências sociais, com ajuda de algumas ideias de Marx convenientemente modernizadas. Enquanto que o realismo ainda está em subdesenvolvimento.

O marxismo uniu o materialismo com a dialética, doutrina confusa formulada na língua áspera dos pré-socráticos e romanticistas. Segundo Lenin, a dialética é a doutrina da unidade de opostos. Tudo que existe estaria composto de entes, propriedades ou processos que se opõem entre si até que se forme uma nova síntese ou unidade, que por sua vez se dividiria em dois novos opostos, que lutariam até formar uma nova síntese, e assim sucessivamente. Diz-se que cada uma dessas etapas nega a anterior.

Infelizmente, essa tese central da dialética é obscura: não se sabe ao certo em que consiste a oposição e a negação. Se afirma que toda coisa concreta está composta de partes opostas entre si, é fácil encontrar contraexemplos, tais como o elétron, o fóton e o neutrino. Se, ao invés disso, a tese for interpretada em termos de propriedades, a tese é falsa, já que não é verdade que toda coisa seja ao mesmo tempo pequena e grande, valiosa e barata, etc. Tampouco se pode interpretar corretamente como uma oposição entre processos, já que não pode haver processos concorrentes dentro de coisas simples, e nem todo sistema composto está sujeito a transformações mutuamente opostas. O que existe são alguns exemplos de coisas complexas em que algumas partes, propriedades ou processos, se opõem entre si. De modo que a lei da luta e interpenetração de opostos não é uma lei.

A única das chamadas leis da dialética que parece gozar de validade universal é a chamada lei da transformação de quantidade em qualidade, e reciprocamente. Mas formulada dessa maneira é um mero disparate, já que toda qualidade se dá em alguma quantidade, e toda quantidade é de alguma propriedade. A formulação correta é outra: em todo processo de crescimento ou declínio chega um momento em que se produz uma mudança qualitativa, isto é, emerge ou desaparece alguma propriedade. Por exemplo, quando nasce ou morre um membro de uma família se formam ou desaparecem laços familiares, e o estilo de vida da família muda.

Há, pois, algo certo na dialética: a afirmação do caráter de mudança de todas as coisas e da emergência de novas propriedades no curso de desenvolvimento. Mas essas ideias não são exclusivas da dialética materialista. Ademais, os marxistas seguem formulando-as em linguagem esotérica que tem sido herdada de Hegel, e não têm conseguido sistematizá-las em uma teoria coerente e em conformidade com as ciências naturais e sociais. O que é pior, a dialética tem infectado o materialismo tornando-o quase ininteligível e o enchendo de teses não materialistas. Uma dessas é a afirmação de que toda sociedade se divide em uma infraestrutura material (a economia) e uma superestrutura ideal (a política e a cultura), que algumas vezes estariam de acordo e outras lutariam entre si. Outra tese não materialista é a de que o cérebro é a base material da mente, mas que esta é imaterial e se opõe ao mesmo modo em que o idealismo se opõe ao materialismo. Um materialista consequente afirmaria, ao invés disso, que tanto a cultura como a política são subsistemas materiais da sociedade, e que a mente é um conjunto de funções cerebrais.

Quanto à gnoseologia marxista, como se afirmou acima, que sua tese realista é importante e verdadeira. Infelizmente, nunca foi desenvolvida em uma teoria. Ademais, está contaminada por três teses que, no melhor dos casos, são quase verdadeiras. Uma é a tese empirista de que todo conceito se origina da experiência. Contraexemplos: os conceitos abstratos da matemática (por exemplo, estrutura algébrica, espaço topológico, tautologia, consequência lógica). Outra tese quase verdadeira é que o critério de verdade é a prática concreta. A praxis põe à prova as regras da ação, não os teoremas matemáticos nem sequer as hipóteses da ciência fática, que devem ser examinados à luz de experimentos controlados, e não de aplicações. Por exemplo, o êxito da engenharia egípcia não valida a tosca física egípcia, mas sim as regras práticas de que se valiam os artesões e engenheiros egípcios.

Finalmente, a gnoseologia marxista está contaminada pela tese sociologista, segundo a qual a estrutura social não só estimula ou inibe os processos cognitivos, mas que ainda determina o seu conteúdo. Por exemplo, têm-se afirmado que a obra de Newton refletiu a primeira revolução industrial, o que não explica por que não havia centenas de milhares de Newton. Esse exagero de contexto social faz por de vista o cérebro individual, a criação própria, e se aproxima do mito hegeliano de que o sujeito não faz senão aprender o espírito dos tempos.

Mas o erro gnoseológico mais fatal que ainda cometem os marxistas é a hermenêutica ou escolástica: a crença de que a verdade se encontra vasculhando textos canônicos. Althusser assumia que Marx havia encontrado suas ideias lendo a Ricardo, e esperava encontrar as próprias lendo a Marx; um discípulo de Althusser aplicou o mesmo método escolástico e escreveu um livro intitulado “Lendo a Althusser”. Claro que nem Althusser nem seu discípulo descobriam nada novo. Para descobrir a realidade tem que estudá-la cientificamente ao invés de limitar-se a ler textos que, embora possam ajudar a compreender o mundo no passado, já estão empoeirados.

Em conclusão, a filosofia marxista, ainda que revolucionária, é hoje conservadora: tem permanecido em nível impreciso de filosofia romântica e resistido a novidade produzida fora de seu ventre. Desse modo, tem deixado de ser filosofia propriamente dita para se converter em ideologia. Por sua vez, esta ideologia tem se ossificado por não se fundar sobre uma filosofia e ciência social da época. Em resolução, o marxismo se envelheceu muito e está condenado a morrer em breve, a menos que se renove radicalmente. Esta renovação deverá começar por adotar o enfoque científico (ou cientificismo) e deverá desembocar em uma ciência social que represente a realidade atual, assim como em uma filosofia de acordo com a ciência atual. Só uma ciência e uma filosofia que harmonizam-se entre si e que estejam de acordo com a realidade podem ajudar a entendê-la e a construir uma sociedade carente dos vícios que afligem a todas as sociedades atuais: uma sociedade equitativa, livre, sem medo, culta e dinâmica.

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