É obrigação do cientista levar a ciência às pessoas, afirma Mario Bunge

Para o filósofo e físico Mario Bunge, o cientista tem a obrigação de levar a ciência à sociedade, de divulgar, entender os fenômenos que ocorrem no mundo. O epistemólogo, que vive no Canadá, disse que hoje não há tempo para processar todas as informações produzidas. Ele indicou que os estudantes deveriam estudar muito e evitar a política partidária na universidade.

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O físico e filósofo Mario Bunge (direita) com o astrofísico e filósofo Gustavo Esteban Romero (esquerda) da Universidad Nacional de La Plata e presidente do Comitê Organizador e Científico do Congresso de Filosofia Científica. Créditos: ABC Color.

Por Eduardo Quintana
Publicado no ABC Color

Completando hoje 100 anos de idade, Mario Augusto Bunge (1919) não perde o humor nem a fina ironia que o caracteriza. Brinca e teoriza, mas também critica duramente quando necessário. “Você deve discutir ideias, teorias e não apenas pessoas”, diz ele a cada instante. Recorda a Albert Einstein e seu legado, mas também os desafios que representam hoje em dia a interação entre ciência e filosofia.

O “Mestre”, como é conhecido, foi homenageado no Primeiro Encontro Latinoamericano de Filosofia Cientifica, realizado em Buenos Aires, e recebeu recentemente o Prêmio Perfil de Inteligência.

No Paraguai, país que visitou duas vezes, uma aos 10 anos de idade e outra em 2013, ao mando da Associação Paraguaiana Racionalista. Ambas experiências estão incluídas em sua obra “Memórias entre dois mundos”, publicada em 2014 pelas editoras Gedisa e Eudeba.

“Memórias entre dois mundos” é um bom livro para entender Bunge?

Em um livro de 400 páginas não se pode colocar toda uma vida. Não haveria interesse pelo leitor de conhecer tudo sobre o autor. Mas é um livro onde exponho também algumas ideias filosóficas minhas. Tem definições sobre materialismo, filosofia exata, etc.

O que a filosofia científica pode fazer com a matéria ou energia escuras?

Caso existam, ela deve promover sua investigação, conhecer suas propriedades. Quais processos estão envolvidos? Não sabemos. Temos que encontrar indicadores desses processos ocultos, que devem não estar mais ocultos.

Por que a sua filosofia científica não é popularizada na América Latina?

Porque predominou a reação antipositivista, que teve início nos anos 20 do século passado, com a reação anticientífica, na realidade. Foi impulsionada por admiradores de Roberston e Gentile. A ciência não teve força na Academia.

A nova geração de filósofos pode reverter isso?

Dos filósofos não podemos esperar muito, desde o primeiro ano de graduação é exigido dos alunos que eles estudem filósofos anticientíficos como Hegel e outros obscurantistas. Também se obriga a ler os novos obscurantistas, os marxistas, que se negam a aceitar as novidades cientificas do século XX.

Eles rejeitaram a relatividade geral, a genética, a sociologia, a biologia molecular. Foram reacionários e não se deram conta. Tiverem uma fé cega.

No século XXI, a sociedade entende de ciência?

Informação não é conhecimento. Para que isso ocorra, deve ser absorvida por um cérebro que a entenda. É apenas um meio.

Tem tanta informação que não há tempo para compreendê-la e convertê-la em conhecimento. Quase toda informação que se chega ao grande público é superficial.

Os grandes órgãos de opinião sempre tratam de esconder a verdade.

Qual o papel do cientista nisso?

O cientista tem a obrigação de levar a ciência às pessoas. Isso foi entendido pelos cientistas ingleses desde o século XIX. Por outro lado, os de hoje consideram que isso é uma perda de tempo, simplesmente porque não aparece em seu currículo. O pesquisador tem o dever de oferecer conhecimento as pessoas.

Qual o papel da universidade atualmente?

A universidade tem duas funções básicas: produzir conhecimento e difundir todo o conhecimento, tanto o novo quanto o velho. O excedente, como serviços sociais, pode ou não ser realizado. Mas se você não cumpre com os requisitos anteriores, não merece um diploma universitário.

A filosofia está em crise?

A maior parte da filosofia é implícita, tácita. Não se ensina filosofia, se faz mais história da filosofia. São estudados Aristóteles, Hegel e Marx, mas não se estuda os problemas de tempo e espaço, a virtude, a solidariedade, a mente, entre outros tópicos.

Eles devem levantar mais problemas do que os autores?

Quando fui professor de filosofia na Universidade de Buenos Aires (UBA), entre 1957 e 1962, mudei completamente a maneira de ensinar. Eu apresentava problemas filosóficos, não obrigava a leitura desse ou daquele filosofo. Mas os que me sucederam mudaram a linha.

E a religião também está em crise?

Uma coisa é a religião com seu corpo de crença: hoje em dia, totalmente incompatível com a ciência. Por outro lado, não há pesquisa religiosa. Se dá ênfase na continuidade e na tradição. Qualquer um que propusesse novas ideias era expulso ou queimado como herege. Em contrapartida, na ciência dariam-lhe um Prêmio Nobel.

Na ciência se premia o que na religião é motivo de castigo.

Deve-se distinguir religião de religiosos?

Sim, temos que diferenciar bem a religião dos religiosos. Tem gente boa ou bem intencionada, como o Papa. Francisco é sensacional, antes de tudo, me parece um homem honesto, humilde e com desejo de ajudar, que está ajudando a mudar a Igreja. Demostra uma capacidade que seus anteriores não tinham.

Como você vê a crise dos refugiados na Europa?

Essa pobre gente foi vítima das agressões norte-americanas no Iraque, Síria, Líbia, Paquistão e Iêmen. Os Estados Unidos deveriam receber a todos como refugiados.

O que você sugere aos jovens que querem ser filósofos ou cientistas?

Passe a maior parte do tempo estudando. Não perca tempo com atividades sindicais, sim, você precisa cumprir o dever de um aluno crítico, mas precisa estudar muito. Não use a universidade como uma carreira política. Muitos usam a universidade para fazer política.

Isso está enganando os contribuintes. Os contribuintes pagam para os jovens estudarem na universidade pública, não para eles fazerem política.

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