Ex-diretor do INPE questiona contratação de empresa privada de monitoramento

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Aplaudido em pé em palestra na USP, Galvão disse que a sociedade tem que resistir aos ataques à Educação e à Ciência. Foto: Cecília Bastos / USP.

Por Janes Rocha
Publicado no Jornal da Ciência

Se decidir pela contratação de outra empresa para monitoramento de queimadas na floresta amazônica, o governo estará descartando um sistema de eficiência comprovada por algo não testado e com margem de erro muito superior. O alerta foi feito por Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em palestra sexta-feira (16/8) no auditório da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP).

Exonerado em julho pelo presidente da República Jair Bolsonaro, que ficou contrariado com a divulgação de dados sobre o aumento do desmatamento da Amazônia, Galvão foi aclamado por uma plateia que lotou os cerca de 180 lugares do auditório, a maioria jovens estudantes. Em seu pronunciamento, algumas vezes interrompido pela emoção e pela voz embargada, Galvão falou das origens, dos fundadores e da estrutura atual do Inpe.

Relembrou os cientistas fundadores do instituto e disse esperar que fossem mantidos programas espaciais internacionais – CBERS em cooperação com a China, Copernicus, com a Agência Espacial Europeia e o lançamento de satélites em parceria com a Nasa – e fez críticas diretas e indiretas ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com quem travou alguns debates pela mídia.

Ele se referia à empresa Planet, que Salles manifestou intenção de contratar para fazer o trabalho realizado pelo Inpe. Em entrevista recente, Salles disse que o sistema privado oferece a vantagem de maior acurácia, com imagens de satélites com aproximação de dois metros do alvo (as árvores da floresta) comparado a das imagens utilizadas pelo Inpe.

Galvão garantiu não ser necessário chegar tão perto para o sistema “ver” que há uma queimada. “A copa de uma árvore da Amazônia tem diâmetro de 15 metros, 20 metros. Para que eu preciso de uma resolução de dois metros para um alerta de desmatamento? Eu preciso de uma resolução de 2 m se eu quiser pagar muito mais para um sistema com maior resolução e maior quantidade de dados”, disparou.

Segundo ele, a aproximação de dois metros geraria uma quantidade de dados muito maior que a atual, demandando um investimento muito maior para ser trabalhado. Além disso, argumentou o cientista, onde seriam armazenados estes dados? “A empresa enviaria esses dados para uma nuvem da Amazon e o governo brasileiro perderia o controle sobre eles”, disse Galvão.

O ex-diretor falou do papel do Inpe como auxiliar na formulação de políticas públicas a partir de suas observações da Terra, especialmente com o agravamento das mudanças climáticas, para a qual elabora modelos especializados. Lembrou que o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), criado em 1988, contribuiu para que o Brasil reduzisse em mais de 80% o desmatamento. O Prodes tem uma margem de acerto de 95% (comparado a 80% da Planet) e foi elaborado para o mapeamento do desmatamento original com a preocupação pela preservação da mata nativa. Nos 500 anos do descobrimento do Brasil até 1988 a Amazônia perdeu 19,7% de sua cobertura de floresta nativa. De 1988 até agora, ou seja, em apenas 3 décadas, mais 11% se perderam.

Com o recrudescimento do desmatamento nos últimos 30 a 40 anos, o Inpe foi solicitado a desenvolver um sistema de alertas, já que o Prodes, apesar de ter grande precisão, apresenta dados pós-desmatamento. “A (ex-ministra do meio ambiente do governo Lula) Marina Silva queria um sistema que desse alerta, então foi criado o Deter, com equipamento desenvolvido por empresas brasileiras”, explicou.

A divulgação pública dos dados, criticada pelo presidente Jair Bolsonaro, é determinada pela Lei de Acesso à Informação e o Decreto 6666. Porém, segundo explicou Galvão, para melhorar a efetividade dos dados na contenção do desmatamento, havia um acordo firmado em 2014 que dava ao Ibama acesso antecipado e exclusivo às informações coletadas pelo Inpe, para permitir uma estratégia de fiscalização e combate ao desmatamento ilegal.

Ele disse que, na verdade, os ataques ao Inpe não são novidade. Já em 1988, quando começaram as divulgações de dados do Prodes apontando aumento do desmatamento, o presidente da República à época, José Sarney, criticou o instituto. No governo Bolsonaro, as desavenças com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) começaram desde o início do ano, até que em 7 de maio Galvão comunicou os problemas ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a quem está subordinado. Em julho, o clima piorou depois que o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do Gabinete de Segurança Institucional, acusou os dados do Inpe de manipulados.

Galvão defendeu a posição do titular do MCTIC na discussão: “O ministro Marcos Pontes sempre disse que a questão é científica, e não política”.

No encerramento de sua apresentação, ele respondeu a uma pergunta que vem sendo feita recorrentemente: estamos voltando às trevas da ditadura militar? “Não”, respondeu o cientista. “Porque a comunidade acadêmica e cientifica e o povo brasileiro não se calarão”. Galvão também conclamou a comunidade científica a resistir aos ataques à educação e à ciência, e, numa mensagem dirigida especialmente aos jovens, aconselhou: “Não acreditem em heróis, não acreditem em mitos; não existe salvador da pátria”.

Desde que deixou o comando do Instituto, Galvão tem sido cumprimentado pela comunidade acadêmica e científica por sua resistência e gestos de dignidade ao abrir mão do cargo para manter suas convicções em favor do Inpe. “O presidente não sabia com quem estava mexendo quando resolveu atacar o Inpe”, afirmou.

Assista à exposição de Galvão na página da USP no YouTube aqui:

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