Gato de Schrödinger volta à vida e cai morto ao mesmo tempo após não aguentar ver tanta deturpação da mecânica quântica

O Jornal GGN ataca novamente, mas desta vez com uma deturpação medonha da mecânica quântica para defender crenças no sobrenatural. Para facilitar o que está sendo criticado, citarei cada parágrafo seguido de uma objeção:

1. “Como demonstrado em texto anterior por referência a fatos irrefutáveis e a experimentos científicos consistentes, nós somos espíritos que continuam vivendo após a morte do corpo. Este texto tem o objetivo de tornar ainda mais fácil a aceitação científica desse fato da natureza pelos mais céticos.”

Em primeiro lugar, o fato é algo que envolve o estado ou mudanças de estados de coisas concretas, tais como átomos, campos, partículas ou pessoas. Como disse Mario Bunge em seu Dicionário de Filosofia, “se não são tais coisas, não são fatos. Assim, a análise de qualquer fato deveria partir da identificação de coisa(s) envolvida(s), tais como reagentes, no caso de uma reação química, e cérebros, no caso de um processo mental”. Então, o termo “fato irrefutável” não faz sentido, porque fatos ocorrem, independente do poder explanatório de uma teoria existente (por exemplo, a constatação de que existe uma pessoa atravessando a rua em um dado momento e local, e a existência de uma hipótese ou teoria que sugira uma velocidade média para que o pedestre atravesse a rua antes do semáforo fechar). A teoria, embora seja baseada em evidência, não é irrefutável, ainda que demonstre uma suposta “perfeição estética” em sua capacidade de explicar um fato, isto porque novas evidências podem surgir para refinar ou refutar a explicação atual. O mérito da ciência está em sua característica de reavaliar e melhorar (melhorismo) às suas teorias e não em ficar fechada em um sistema de crenças inalteráveis (dogmatismo). Em conclusão, a característica de irrefutabilidade não é uma característica da ciência, porque é antidogmática per se, mas da religião e da pseudociência, pois preservam os seus sistemas de crenças, independente das evidências disponíveis. Por último, o autor ainda menciona que “somos espíritos que continuam vivendo após a morte do corpo”, mas não cita qualquer estudo científico para corroborar essa afirmação.

2. “Segundo os próprios espíritos ensinam e conforme ficou constatado pela experiência empírica de milhares de médiuns especialmente a partir do século XIX, todos os seres humanos, salvo raras exceções, são dotados de alguma mediunidade, o que significa, a grosso modo, a capacidade de conexão com as dimensões espirituais.”

O autor assume a priori, isto é, sem basear-se em qualquer estudo controlado, que existem espíritos, que eles interagem (e ensinam ainda!) com o mundo físico e que existe uma conexão entre dois mundos ontologicamente diferentes. O primeiro problema consiste em definir o que são espíritos, algo que o autor não define, mas usa como referência a obra O Livro dos Médiuns de Allan Kardec. O segundo problema é que, caso o autor esteja usando a definição de “espírito” de Kardec, que é a ideia de que existem “seres inteligentes, mas extracorpóreos, que povoam o universo, além do mundo material”, isto seria impossível de acordo com as leis da termodinâmica, porque o “espírito” teria que ter a propriedade de possuir “energia”¹ para interagir com o universo. Em lógica, o “espírito” deixaria de ser extracorpóreo (imaterial). Assim, a conclusão seria a de que espíritos não existem, ou não podem interagir com o “mundo material”, porque ontologicamente eles não podem possuir energia e, portanto, ser materiais. O último problema é o de admitir, novamente sem qualquer evidência, que existe outro mundo além do nosso e ontologicamente diferente.

¹ Em ciência, “energia” não é sinônimo de “alma”, “fluído espiritual”, “cargas que pessoas carregam” (como se fossem pilhas) ou algo que transcenda a experiência empírica. Como afirma Bunge em seu Dicionário de Filosofia, “energia é a extensão para qual uma coisa real muda ou pode mudar”. Em síntese, “energia” é a propriedade universal (uma grandeza física, um atributo mensurável e quantificável) de entes concretos (campos, matéria e radiação) do universo.

3. “Inúmeras pessoas têm intuições sobre o que vai acontecer, pré-ciências, como Chico Xavier teve várias que se concretizaram. Outras têm intuições a respeito do que devem pensar, fazer, escrever.”

A intuição não tem nada de espiritual, paranormal ou sobrenatural, pois é apenas uma “habilidade cognitiva” para entender ou produzir novas ideias, ainda que seja falível e dependa da experiência, a prática da razão ajuda a fortalecê-la. Agora, diferente do que afirmam os parapsicólogos, a intuição não tem relação alguma com a precognição, isto é, “a capacidade de prever o futuro”. Além disso, o Conselho de Pesquisa dos Estados Unidos concluiu que “não há nenhuma evidência científica a partir das pesquisas realizadas durante um período de 130 anos para a existência de fenômenos parapsicológicos” (clarividência, mediunidade, precognição, et cetera).

4. “Inevitavelmente, todos estão ligados entre si (vide Teoria da Não Localidade), com os seres humanos desencarnados e com o próprio Planeta Terra por vibrações (vide Teoria da Gaia), por um canal energético. É por isso que muitos sentem as energias dos outros, como dores de cabeça quando estão perto de pessoas carregadas. É por isso também que vegetais, como plantas que murcham, reagem mal em ambientes de energia carregada.”

Esse parágrafo contém inúmeros equívocos, mas vou destacar apenas três. Em primeiro lugar, a não-localidade da mecânica quântica refere-se apenas a sistemas quânticos, em especial partículas, e não seres humanos. Serve para designar a correlação entre os estados de duas ou mais partículas emaranhadas em um ponto no espaço. Um outro problema é que a hipótese da Gaia é a noção de que a biosfera está ligada com outros componentes físicos da Terra (atmosfera, hidrosfera e litosfera) que formam um complexo sistema que regula o ambiente interno, de modo a manter uma condição estável mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico, controlados por mecanismos de regulação inter-relacionados. Além disso, como expliquei acima, a ideia de “energia” (e “vibração”²) mencionada pelo autor não encontra respaldo na literatura científica.

² “Vibração”, diferente do que pregam os parapsicólogos em um sentido espiritual, é um termo usado na física, que pode ser usado para designar o movimento periódico (oscilação) de uma partícula, sistema de partículas ou de um corpo rígido em torno de uma posição de equilíbrio.

Conclusão

O artigo possui inúmeros equívocos em cada parágrafo, o que faz com que cada objeção seja maior do que a própria afirmação. O autor demonstra um desconhecimento total dos conceitos mais básicos e fundamentais da ciência moderna. Existe um abuso de “jargões científicos” aplicados de maneira imprópria e, supostamente, proposital para dar uma suposta “validade científica” para a crença teológica do autor. Em síntese, dediquei-me para objetar apenas o que está escrito no início do artigo, pois são conceitos mal difundidos (e pouco explicados) para o senso comum.

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