A escola da Gestalt de Wertheimer, Koffka (1935) e Köhler (1929) floresceu na Europa nos anos 1920, enquanto o behaviorismo ganhava hegemonia nos Estados Unidos. As duas correntes divergiam em quase todos os pontos, exceto na confiança no experimento e na desconfiança em relação à razão. A escola da Gestalt concentrava-se na experiência subjetiva, recorria amplamente à introspecção e adotava o dualismo psicofísico. O behaviorismo, por sua vez, desconsiderava a mente, rejeitava a introspecção e negava a existência do problema mente-corpo. A psicologia da Gestalt era holística. O behaviorismo era analítico. A primeira se inclinava à teorização. O segundo não via motivo para teorizar. Também a Gestalt era fortemente influenciada pela metafísica holística e pela epistemologia intuicionista, ao passo que o behaviorismo era rigorosamente positivista.
A palavra de ordem da escola da Gestalt era, naturalmente, Gestalt. Tudo o que ela encontrava era declarado uma Gestalt ou uma lei das Gestalten. E tudo o que procurava explicar era explicado em termos de Gestalten tidas como inanalisáveis. Como os membros da escola não se dedicavam à análise conceitual, o termo Gestalt era empregado em três sentidos distintos: todo ou sistema (Ganzheit), estrutura ou configuração (Struktur) e propriedade emergente ou sistêmica (Gestalt-Qualität). O resultado foi uma grande confusão conceitual. Muitos filósofos celebraram a psicologia da Gestalt menos por seus achados efetivos e mais por sua obscuridade. No entanto, outros a rejeitaram de imediato exatamente pelo mesmo motivo.
Tentemos, então, destrinchar os conceitos designados pelo termo ambíguo “Gestalt”.
Um todo, totalidade ou sistema é um objeto complexo cujos componentes estão acoplados. Como consequência, esse objeto tem uma estrutura definida. Um todo difere de um agregado amorfo. Devemos distinguir três tipos de sistema: conceitual, material e funcional. Um sistema conceitual, como um sistema hipotético-dedutivo, é formado por constructos (por exemplo, proposições) ligados por relações lógicas (por exemplo, dedutibilidade). Um sistema material, como o cérebro, é composto por entidades materiais (por exemplo, células) conectadas por vínculos de algum tipo (físicos, químicos, biológicos ou sociais). Um sistema funcional é formado por propriedades mutuamente relacionadas por leis.
Neste ponto, não nos interessam sistemas conceituais, como teorias, que são estudados pela lógica, pela matemática e pela epistemologia. Quanto ao conceito de sistema material ou concreto, ele foi elucidado na seção 3.2. Ali, a estrutura de tal sistema foi definida como o conjunto de todas as relações, em particular vínculos ou acoplamentos, entre seus componentes, somado às relações entre esses componentes e os itens ambientais relevantes. (Um acoplamento, vínculo ou ligação é uma relação que produz diferença nos relata. Relações causais são vínculos. Relações espaçotemporais não vinculam. Ver Bunge, 1977a.) Segue-se que não há estruturas em si mesmas, separadas das coisas. Toda estrutura é propriedade de uma coisa complexa. Em outras palavras, “estrutura” funciona como adjetivo, não como substantivo. Consequentemente, não é sinônimo de “todo”, “totalidade” ou “sistema”.
Esclareçamos agora a noção de sistema funcional, central no pensamento de Luria (Luria, 1973, 1979), e também aquela que os psicólogos da Gestalt, bem como Piaget e Vygotsky, parecem ter em mente quando escrevem de modo pouco claro sobre “Gestalten psicológicas (ou todos, ou totalidades)”. Piaget e Vygotsky sustentavam que essas Gestalten emergem abruptamente no desenvolvimento individual e, por sua vez, dão origem a novos todos. Piaget via essa emergência como resultado necessário da maturação biológica. Vygotsky enfatizava a ação do ambiente social. Em retrospecto, parece evidente que fatores endógenos e exógenos se entrelaçam. (Mais sobre a questão hereditariedade e ambiente na seção 6.2.) Contudo, o foco aqui não é essa tese, e sim o conceito de sistema funcional.
Estipulamos que uma coleção de propriedades é um sistema funcional se, e somente se, for uma coleção de propriedades de um sistema concreto (material) tal que, para qualquer membro da coleção, exista ao menos outro membro dependente do primeiro. Uma formalização possível desse conceito, com os recursos modestos do cálculo de predicados, é a seguinte. Se P é a coleção de todas as propriedades possíveis de coisas concretas, então F é um sistema funcional se, e somente se,
F = {P ∈ P | (∃x)(∀P)(∃Q) [x é um sistema concreto ∧ Px ∧ Q ∈ P ∧ (Px → Qx)]} [5.1]
Não existem propriedades avulsas. Em termos afirmativos, toda propriedade pertence a algum sistema funcional. Isso decorre de dois postulados filosóficos gerais. Primeiro, toda coisa material é um sistema ou componente de algum sistema. Segundo, toda coisa concreta satisfaz leis que exprimem relações entre propriedades. Se adicionarmos as hipóteses de que o cérebro é um sistema e de que as faculdades mentais são propriedades cerebrais, segue-se que o conjunto das faculdades mentais forma um sistema funcional. Os psicólogos da Gestalt sustentavam posição semelhante, embora por razões obscuras.
Encerrada a discussão sobre todos e estruturas, passemos ao terceiro significado de “Gestalt”, identificado aqui como o conceito de propriedade emergente. Os psicólogos da Gestalt popularizaram o slogan “o todo é mais do que a soma das partes”. No entanto, não esclareceram os termos difíceis “mais” e “soma”. Não especificaram qual era esse excedente, nem em que sentido ele ultrapassava a “soma”. Sustentamos, contudo, que o slogan faz sentido na seguinte formulação: “todo sistema possui propriedades globais ou sistêmicas emergentes em relação às propriedades de seus componentes, isto é, propriedades ausentes nesses componentes”. Essa tese ontológica, que inclui uma definição de emergência, não se restringe à biologia. Emergência ocorre em todos os níveis da realidade. (Ver Bunge, 1979a.) Assim, um átomo tem propriedades, como espectro de radiação e reatividade química, que seus componentes elementares não possuem. Da mesma forma, uma sociedade tem propriedades, como nível de desenvolvimento econômico e forma de governo, que os indivíduos que a compõem não podem possuir. Nesse ponto, concordamos com os psicólogos da Gestalt. A emergência é real. A discordância está no modo de compreendê-la.
Para os psicólogos da Gestalt, a emergência seria um tipo de fato atômico, não analisável e, portanto, não compreensível, que precisaria ser aceito como último. Em particular, eles negavam enfaticamente que propriedades emergentes de um sistema pudessem ser explicadas por sua composição e pelas interações entre seus componentes. Essa era a tese epistemológica negativa deles sobre emergência. Essa tese já havia sido refutada antes mesmo de surgirem os primeiros psicólogos da Gestalt. Cientistas básicos e aplicados conheciam, havia muito tempo, pelo menos dois mecanismos relevantes e bem visíveis de emergência: montagem (natural ou artificial) e evolução (biológica ou cultural).
O químico pode explicar propriedades de uma molécula com base nas propriedades de seus precursores (átomos ou moléculas) e no modo de ligação entre eles. O biólogo pode explicar propriedades dos membros de uma espécie com base nas propriedades de seus ancestrais, bem como em processos internos (como o desenvolvimento embrionário) e ambientais (como a seleção natural). Em termos gerais, o conhecimento das partes e de suas interações basta para compreender o que pode ser chamado de emergência desenvolvimental. (Ver, por exemplo, Piaget, 1965, p. 28.) De modo análogo, o conhecimento dos ancestrais, de sua constituição interna e de suas circunstâncias ambientais basta para explicar o que pode ser chamado de emergência evolutiva. Em suma, há emergência e ela pode ser explicada, ao menos em princípio. (Para mais, ver seção 13.3 e Bunge, 1979a, 1981, 1983b, 1985a.)
Como a psicologia da Gestalt se saiu? Algumas descobertas foram parcialmente confirmadas. Outras foram refutadas por desenvolvimentos experimentais posteriores. Quase nenhuma explicação sobreviveu. Um dos axiomas da escola era que a percepção é instantânea. Hoje sabemos que toda percepção é um processo que leva pelo menos 100 milissegundos. Outro axioma afirmava que a percepção é um ato unitário, isto é, percebemos os objetos como totalidades e só depois, se necessário, os analisamos. A evidência para essa hipótese, assim como para a instantaneidade, era exclusivamente introspectiva ou fenomenológica. Experimentos recentes de tempo de reação na apresentação de estímulos visuais sugerem que alguns objetos são de fato percebidos como totalidades, enquanto outros são sintetizados a partir de características. Por exemplo, há efeitos do tipo Gestalt na percepção de movimento aparente (Ramachandran & Anstis, 1983). Participantes humanos detectam triângulos como unidades ou primitivos perceptuais, mas detectam flechas como complexos (Treisman & Paterson, 1984). Enquanto os primeiros são detectados automaticamente e de modo pré-atentivo, os segundos exigem atenção e busca serial, que presumivelmente coincide com a ativação sequencial de assembleias neurais. Esses e outros resultados semelhantes podem ser tomados como confirmação parcial, e também refutação parcial, do axioma gestaltista de que todos os estímulos visuais são percebidos como totalidades.
Figura 5.4: exemplos de emergência por montagem.
Contudo, quando essa totalidade existe, ela é precedida por análise inconsciente dos estímulos em características separadas. Ver Figura 5.4. Experimentos psicológicos recentes mostram que as características surgem primeiro na percepção e só depois são integradas, desde que o sujeito focalize a atenção no objeto (Treisman & Gelade, 1980). Essa descoberta tem explicação neurofisiológica. Desde o trabalho dos laureados com o Nobel Hubel e Wiesel (1962), sabe-se que o sistema visual é um analisador que processa sinais de entrada de modo sequencial, envolvendo sucessivamente células de tipos diferentes. Algumas dessas células sintetizam o que as anteriores haviam analisado. O mesmo vale para o sistema auditivo.
Os dois sistemas sensoriais mencionados contêm detectores de características que reagem apenas a traços específicos dos estímulos, como bordas e cores, e até mesmo linhas em inclinações particulares. Também, além desses analisadores sensoriais, o cérebro de mamíferos contém unidades neurais que reúnem os sinais emitidos pelos vários analisadores. Essas unidades sintetizam os sinais em totalidades perceptuais. Ver Figura 5.5.
Figura 5.5: a percepção de um todo é precedida por análise realizada por detectores de características.
Assim, mesmo quando uma figura, como um X no meio de uma matriz de O, “salta” ao sujeito e é apreendida automaticamente, de modo pré-atentivo, de uma só vez, essa totalidade resulta de um processo analítico complexo. A síntese final talvez agradasse os gestaltistas. Já a análise prévia provavelmente desapontaria tanto eles quanto seus aliados filosóficos.
Os associacionistas tentaram explicar fenômenos mentais complexos em termos de “átomos mentais” e de suas associações (a “química mental” de Mill). Em linha semelhante, os reflexologistas tentaram decompor funções cerebrais superiores em reflexos elementares. Nenhuma dessas tentativas foi bem-sucedida. Os psicólogos da Gestalt tomaram esses fracassos como prova do fracasso da análise em geral e, de modo mais amplo, da razão. Consequentemente, adotaram uma metafísica holística e uma epistemologia intuicionista. A adesão a essas filosofias os impediu de analisar e, portanto, de compreender as próprias Gestalten que haviam identificado.
Examinemos, por fim, a versão específica de dualismo psicofísico defendida pela escola da Gestalt, o paralelismo psicofísico. A hipótese afirma que todo estado, ou evento, mental está correlacionado com um estado, ou evento, cerebral sincrônico. Ou, como diziam os gestaltistas, o conjunto de eventos mentais é isomórfico ao conjunto de estados cerebrais. (Na verdade, há um morfismo, não um isomorfismo, porque alguns estados cerebrais, talvez a maioria, não têm “correlatos” mentais.) Note-se que não se supõe que eventos mentais causem eventos cerebrais, nem que sejam causados por eles, e muito menos que sejam idênticos a algum tipo de evento cerebral. O que se postula é a sincronia entre eventos heterogêneos.
Entre as visões sobre a relação mente-corpo, o paralelismo é a mais segura, pois acomoda qualquer conjunto de dados possível. De fato, ele não pode ser refutado empiricamente, porque não há estados mentais sem “contrapartes” cerebrais. Como a hipótese é insensível aos achados empíricos, sua avaliação deve ser buscada em outro plano. É preciso perguntar se ela tem poder heurístico, explicativo ou preditivo, e se é compatível com a biologia e com a visão de mundo científica.
É claro que o paralelismo tem algum poder heurístico e preditivo, pois orienta psicólogos a buscar os “correlatos” neurais de processos mentais. Ainda assim, a hipótese da identidade faz isso e vai além, pois explica o mental como fisiológico. Em contrapartida, o paralelismo não explica nada. Em particular, não tenta explicar o desenvolvimento mental (ontogênese) nem a evolução mental (filogênese), já que toma a mente como dada. Por isso, entra em conflito com a biologia e abre espaço para a postulação de agência sobrenatural. O paralelismo também não se harmoniza com a visão de mundo científica. Com efeito, essa visão não admite eventos que não sejam mudanças em coisas concretas. Falar em paralelismo mente-corpo é como falar em paralelismo movimento-corpo. (Recorde a seção 5.1.)
Em conclusão, a psicologia da Gestalt merece crédito por algumas descobertas experimentais importantes, como a percepção aparentemente instantânea de certas formas, a existência de “boas formas” (como C, em contraste com O), as alternâncias gestálticas (como a que ocorre automaticamente, a cada meio minuto aproximadamente, quando se fixa o olhar em um cubo de Necker) e a “experiência aha” na resolução de problemas. Ainda assim, a psicologia da Gestalt não se dispôs a explicar suas próprias descobertas. De fato, recorreu à palavra Gestalt como um dispositivo quase mágico para bloquear tentativas de explicar os fenômenos (Petermann, 1932). Essa atitude anticientífica deve ser atribuída à filosofia obscurantista adotada pela psicologia da Gestalt.
O artigo foi publicado originalmente por Mario Bunge no livro Philosophy of Psychology (Treatise on Basic Philosophy, Vol. 5, Springer, 1987).




