Publicado por Sergio Morales no Ciencia del Sur.
Resumo: Um artigo sobre o debate científico acerca da natureza do sexo humano. O modelo binário defende que só há dois sexos, o modelo espectral argumenta que o sexo é um contínuo e o modelo bimodal surge como alternativa que integra ambas as perspectivas.
Em 2019 publiquei um breve artigo no qual explorei se realmente há mais de dois sexos (Morales, 2019). Naquela época, ocorria que, enquanto diversos cientistas apontavam que havia apenas dois sexos (macho e fêmea, portanto, o sexo humano é binário), outros começavam a sugerir que tal enfoque impedia reconhecer a complexidade do sexo.
De lá para cá, muita água passou por baixo da ponte. Nos últimos anos, o debate se reativou melhor do que a economia latino-americana após a pandemia e novamente vários cientistas voltaram a discutir, com maior ferocidade do que outrora, se o sexo humano é um binário ou um espectro.
Como o artigo de 2019 ficou curto, neste novo atualizarei o estado da arte para discutir se o sexo biológico humano é realmente um binário, um espectro ou talvez algo diferente. Para uma compreensão mais justa do tema, revisarei os argumentos das duas partes envolvidas e apontarei suas principais limitações.
A complexidade do sexo humano
Se algo fica claro na literatura científica, é que o desenvolvimento sexual humano é um processo complexo onde intervêm múltiplos elementos: cromossomos, genes, gametas, gônadas, genitais, hormônios, caracteres sexuais secundários (fenótipo), cérebro e até conduta (Novella, 2022). Tais elementos formam os componentes do sexo (Tabela 1).
| Significado de “sexo” | Componentes | Binário? | Pode ser alterado? |
| Categoria de sexo | Gônadas | Binário (~1:100.000 nascem com gônadas que não são claramente ovários ou testículos). | As gônadas podem ser removidas, mas os ovários não podem ser transformados em testículos, nem o inverso. |
| O sexo como sistema | Genes | A maioria dos genes implicados na formação das gônadas está presente tanto em fêmeas quanto em machos, já que a maioria está em autossomos ou no cromossomo X, e apenas alguns no cromossomo Y. | Atualmente, os genes associados ao sexo não são modificados por intervenções médicas. |
| Hormônios | Os hormônios relacionados ao sexo formam um sistema sobreposto, multidimensional e dinâmico. | São frequentemente modificados. Intervenções farmacológicas podem promover níveis hormonais médios típicos de mulheres e homens, usadas na reprodução. | |
| Sexo fenotípico | Genitais | Aproximadamente 0,02% dos nascimentos humanos apresentam genitais externos que não são claramente femininos nem masculinos. | Os órgãos genitais podem ser removidos ou modificados por intervenções cirúrgicas e farmacológicas. |
| Outra morfologia corporal | Todas as medidas são contínuas e geralmente sobrepostas, embora muitas vezes estejam fortemente inter-relacionadas. | Intervenções hormonais e cirúrgicas podem alterar algumas características, mas, se realizadas após a puberdade, nem todas podem ser modificadas para um nível típico de membros do outro sexo. | |
| Cérebro | Caracterizado por diversidade, alta sobreposição e mosaicismo. A categoria sexo oferece pouca informação sobre a estrutura cerebral ou sobre a semelhança e diferença em relação ao cérebro de outras pessoas. | Há um padrão complexo e muito variável de mudanças após intervenções hormonais. | |
| Sexo social (percebido) | Em geral, a maioria das pessoas é percebida automaticamente como homem ou mulher, embora a apresentação de gênero andrógina possa produzir exceções. | Os órgãos genitais e outras características fisiológicas e não biológicas podem ser modificados. |
Tabela 1. Os componentes do sexo (Joel & Fine, 2022).
Esses componentes fazem com que a atribuição do sexo seja, em alguns casos, um processo complicado. Tal como demonstram as pessoas intersexuais (que apresentam distúrbios do desenvolvimento sexual ou DSD, na sigla em inglês), nem sempre é fácil atribuir o sexo de um indivíduo que, por exemplo, pode ter genitais femininos e cromossomos masculinos.
Antes que alguém diga que estou confundindo definição com determinação, cabe assinalar que ambos requerem o mesmo tipo de informação: o que é o sexo. E tais distúrbios realmente podem dificultar a identificação do sexo de uma pessoa, complicando também como o definimos.
Um distúrbio relativamente conhecido é a síndrome de insensibilidade aos andrógenos, na qual as células sexuais não respondem aos hormônios sexuais masculinos (andrógenos) porque os receptores não estão ativos. Isso faz com que pessoas com cromossomos XY (homens) tenham testículos internos e genitais externos tipicamente femininos.
Por outro lado, a hiperplasia suprarrenal congênita faz com que o corpo produza uma grande quantidade de andrógenos, fazendo com que pessoas com cromossomos XX (mulheres) nasçam com genitais ambíguos (clitóris grande e lábios vaginais parecidos com um escroto), pelos corporais e faciais, menstruações irregulares e conduta tipicamente masculina.
Esses são os exemplos mais comuns. Em outros, o panorama se complica consideravelmente. Por exemplo, o chamado ovotestis remete a uma condição muito incomum na qual indivíduos têm gônadas (seja uma mesma gônada ou gônadas separadas) que possuem tecido testicular e ovariano ao mesmo tempo.
Como tal, a intersexualidade é uma condição na qual os cromossomos sexuais de uma pessoa não coincidem com sua anatomia sexual (genitais e traços sexuais secundários). Tudo isso faz com que o sexo seja considerado um traço complexo, já que se compõe de outros traços que nem sempre atuam de forma coordenada.
Apesar de tal diversidade, muitos cientistas consideram que o sexo humano é binário na medida em que só existem machos (homens, XY, produtores de espermatozoides) e fêmeas (mulheres, XX, produtoras de óvulos). Este é o modelo binário do sexo. Muito provavelmente, é o enfoque defendido pela maioria dos cientistas.
O sexo como espectro (modelo espectral)
O modelo binário foi o primeiro a ser proposto. Durante praticamente toda a história sobre o tema, só existiam dois sexos. Contudo, isso mudou quando, no início dos anos 90, a professora de biologia e estudos de gênero (com formação em zoologia e genética do desenvolvimento), Anne Fausto-Sterling, sugeriu que podia haver mais de dois.
Em um ensaio publicado na revista The Sciences, Fausto-Sterling (1993) indicou que há 5 sexos: aos típicos macho (male) e fêmea (female) somam-se herms (que possuem ovários e testículos), merms (que possuem testículos e alguns aspectos de genitais femininos, mas não ovários) e ferms (que têm ovários e alguns aspectos de genitais masculinos, mas não testículos).
Mediante tais categorias, Fausto-Sterling (1993) propôs que as categorias intersexuais “merecem ser considerados sexos adicionais, cada um por direito próprio” (p. 21). A partir de tal enfoque, o sexo foi redefinido de uma perspectiva binária para uma que o identificou como um contínuo.
Naturalmente, pelo caráter revolucionário de sua proposta, aquele ensaio foi muito debatido.
Sete anos depois, em seu livro Sexing the body, Fausto-Sterling (2000) se referiu à polêmica e esclareceu que seu ensaio teve a intenção de ser provocador e irônico, mas firme. Ali a cientista também reiterou sua intenção de substituir o sistema de dois sexos por um novo sistema de cinco que apreenda a intersexualidade.
E a existência da intersexualidade (que em linhas gerais também inclui qualquer variação em traços sexuais secundários que saia da norma típica binária) é a única evidência que os críticos empregam para questionar o modelo binário. Trata-se de um tema com fortes implicações na atribuição do sexo, na transexualidade, no dimorfismo sexual e na identidade de gênero.
Embora o tema sempre tenha sido debatido, foi depois de 2015 que voltou ao centro da polêmica.
Em um artigo publicado na prestigiosa revista Nature, Claire Ainsworth (2015), PhD em biologia do desenvolvimento, afirmou que “a ideia de que há dois sexos é simplista” (p. 288). Referindo-se a casos de intersexualidade, Ainsworth (2015) deu conta de uma nova concepção que daria início a um conjunto de intercâmbios: o sexo é um espectro (Tabela 2).
No referido ensaio, o termo espectro foi mencionado pelo geneticista Eric Vilain, que tem ampla experiência no estudo de DSD, e se apoia no que certamente é uma forma de variação biológica. Convém esclarecer isso diante das suspeitas de que o modelo espectral advém unicamente dos estudos de gênero ou do ativismo feminista.
Outro ponto que convém esclarecer é que, diferentemente da proposta de Fausto-Sterling (1993), o ensaio de Ainsworth (2015) não afirmou que havia mais de dois sexos, mas unicamente que o modelo binário estava sendo criticado. Entender isso é fundamental para compreender as limitações daquele modelo e por que muitos advogam por superá-lo.
Apenas dois anos depois, outro artigo publicado na revista Scientific American também considerou a multiplicidade de DSD e definiu o sexo (e o gênero) como um espectro (Montañez, 2017). Isso porque os fatores que determinam o sexo de um indivíduo (cromossomos, hormônios, traços sexuais secundários) e seu gênero também existem em um espectro.
Nesse mesmo ano, uma nota publicada na National Geographic referiu-se a crianças e jovens de gênero não binário não apenas para afirmar que o gênero existe em um espectro (algo que muitos binaristas aceitam sem maior problema), mas também para indicar que o sexo cumpre tal característica (Henig, 2017) (Tabela 4). Isso último foi feito referindo-se a pessoas intersexuais.
Naquele momento, o modelo espectral começava a ganhar terreno na comunidade científica e a obter presença nos meios de comunicação de massa.
Por exemplo, em um artigo publicado no New York Times, Fausto-Sterling (2018) retomou sua ideia e reafirmou que “dois sexos nunca foram suficientes para descrever a variedade humana”. Apelando aos componentes que intervêm no desenvolvimento sexual (cromossomos, genitais, socialização) e aos casos de intersexualidade, a cientista reiterou que o sexo não é binário.
É aqui que os debates aumentaram.
Recentemente, Christoph Rehmann-Sutter e colegas (2023) reconheceram que as gametas são binárias, mas assinalaram que disso não se segue que o sexo também o seja. Dois motivos explicam tal conclusão. Primeiro, da existência de duas gametas não se segue que não haja variação no sexo e seus componentes, tal como ocorre nos DSD (Tabela 5).
Para tal argumento, nada justifica que as gametas tenham superioridade na definição do sexo, de modo que devam ser consideradas como sinônimo, menos ainda se os demais componentes não são binários. Pode ser que normalmente as gametas ofereçam uma pista clara do sexo de um indivíduo, mas isso não ocorre em todos os casos.
Segundo, para que a espécie continue se reproduzindo não é necessário que o sexo seja um binário estrito, já que unicamente basta que o seja em uma parte da população. Isso quebra o binarismo. Para Rehmann-Sutter e colegas (2023), ambos os argumentos provam que da existência de duas gametas não podemos concluir que o sexo é binário.
Como vemos, a ideia básica do modelo espectral indica que a existência da intersexualidade impede que o sexo seja entendido como um binário, já que os DSD modificam seus componentes e rompem a lógica binária estrita. Mas será que isso é verdade? Será que o modelo binário não concebe a intersexualidade nem os DSD?
O sexo como um binário (modelo binário)
A título de crítica, o filósofo Alex Byrne (2018) assinalou que o ensaio de Fausto-Sterling não respondeu se o sexo é binário por focar-se no sexo cromossômico. Contrariamente a isso, Byrne (2018) propôs que o sexo se define pelas gametas que um indivíduo produz (espermatozoides ou óvulos) e, dado que não há uma terceira gameta, não pode haver um terceiro sexo.
Para o filósofo, os exemplos de diversidade sexual em outras espécies não refutam que o sexo só possa ser binário, particularmente o sexo humano. Também citando casos de DSD, Byrne (2018) sustentou que o sexo não pode deixar de ser binário apenas porque um pequeno grupo de indivíduos apresenta traços que questionam a lógica binária.
Tal crítica também mencionou um ponto-chave em uma das notas finais: dizer que o sexo é binário significa que há dois sexos, mas a forma como tal enunciado foi tomado nesses debates se vincula a se todos os indivíduos são machos ou fêmeas, não podendo ser de ambos ao mesmo tempo (isto é, ter traços masculinos e femininos).
Naturalmente, a primeira leitura é correta e a segunda nem tanto.
Também se somando à crítica, o biólogo Jerry Coyne (2018) afirmou que, embora em certas espécies haja variação, em seres humanos o tema é muito simples: os machos (homens) têm cromossomos XY e produzem gametas pequenas (espermatozoides), enquanto as fêmeas (mulheres) têm cromossomos XX e produzem gametas grandes (óvulos).
Em sua crítica, Coyne (2018) admitiu a existência de pessoas intersexuais, mas assinalou que são casos muito raros: “Então, sim, o sexo não é verdadeiramente binário no sentido de que cada indivíduo não possa ser classificado inequivocamente entre homem ou mulher, mas a grande maioria sim”. Tal cenário foi descrito mediante o termo bimodalidade.
Para o biólogo, o ensaio de Fausto-Sterling, ao reconhecer que há mais de dois sexos biológicos, não apenas nega que o sexo seja binário como também bimodal. Ademais, tal ensaio também confunde sexo com gênero deliberadamente, o que gera maior confusão por incluir variáveis comportamentais e culturais no que deveria ser um tema estritamente biológico.
Por outro lado, quem também criticou o ensaio de Fausto-Sterling foi a neurocientista Debra Soh (2018) ao afirmar que “o conceito de sexo é, por definição, binário”. Citando os casos de DSD, Soh (2018) sustentou que o sexo é binário apesar da intersexualidade, da mesma forma que as mãos humanas possuem 10 dedos apesar de haver indivíduos que nascem com menos.
Também a partir da web e com ativa presença nas redes, o biólogo Colin Wright (2018) objetou que a intersexualidade componha um terceiro sexo, já que se observa em poucos indivíduos. Para Wright (2018), aqueles que negam a natureza binária do sexo geralmente vêm da esquerda política e são um bom exemplo de negacionismo da evolução biológica.
Em uma nota publicada no Wall Street Journal, Wright e a bióloga Emma Hilton (2020) assinalaram que as críticas ao modelo binário formam uma tendência “perigosa e anticientífica” cujo objetivo é negar a realidade do sexo biológico. Para Wright e Hilton (2020), substituir o sexo pela identidade de gênero é nocivo para as mulheres, os homossexuais e as crianças.
Naquele momento, o debate sobre a natureza do sexo obteve grande impacto nas redes sociais. Inclusive a afamada escritora J.K. Rowling, autora da saga de Harry Potter, gerou polêmica ao defender a realidade do sexo biológico (Wright, 2020). Pela natureza de seus tuítes, Rowling obteve uma ampla rejeição e até foi acusada de transfobia.
“Quando os biólogos afirmam que o sexo é binário, queremos dizer algo simples: só há dois sexos. Isso é verdadeiro em todos os reinos vegetal e animal. O sexo de um organismo se define pelo tipo de gameta (esperma ou óvulos) que tem a função de produzir. Os machos têm a função de produzir espermatozoides ou pequenas gametas. As fêmeas, óvulos ou de grande tamanho. Como não existe um terceiro tipo de gameta, só há dois sexos. O sexo é binário.” (Wright, 2023)
Como vemos, o modelo binário afirma que só há dois sexos (o sexo é binário), muito à parte de haver pessoas intersexuais, já que estas compõem um grupo minoritário. Por tal motivo, a intersexualidade não constitui um terceiro sexo. Isso também se confirma no fato de que na maioria das vezes as pessoas com DSD possuem um sexo determinado apesar de seus traços.
Chegados a este ponto, é visível que ambos os modelos têm alguns argumentos válidos, já que se referem a um fato real (a intersexualidade) que questiona a natureza binária do sexo, embora não a refute completamente (tal nuance é muito relevante, como veremos adiante). Contudo, ambos os modelos possuem limitações que convém identificar.
Alguns problemas do modelo espectral
Segundo Wright (2020), o modelo espectral apoia sua crítica ao modelo binário em duas evidências: a intersexualidade e a sobreposição na distribuição de traços sexuais secundários (mamas, quadris largos, ombros largos, pelos faciais ou voz grave). Isso último faz com que haja mulheres com voz grave e pelos faciais, e homens com voz aguda e sem pelos faciais.
Contudo, para o biólogo, aqueles argumentos partem de mal-entendidos sobre o sexo biológico. Assim, o principal inconveniente do modelo espectral é acreditar que a intersexualidade forma um terceiro sexo apesar de não haver uma terceira gameta nem gametas intermediárias. A partir de tal enfoque, o referido modelo é qualificado de pseudociência (Wright, 2020).
Outro problema do modelo espectral é que, em sua tentativa de alcançar uma compreensão holística, usa de forma combinada os termos sexo e gênero, o que pode acarretar mal-entendidos sobre as diferenças anatômicas e comportamentais. Isso é particularmente visível no livro The spectrum of sex, publicado por Hida Viloria e Maria Nieto (2020).
Embora incluir o gênero na equação tenha permitido desenvolver argumentos críticos em direção ao modelo binário, muitas vezes a fórmula sexo/gênero impediu que se teorizasse devidamente sobre as diferenças anatômicas (cromossômicas ou genitais) entre homens e mulheres (Fuentes, 2022a, 2022b, 2023; Rehmann-Sutter et al., 2023).
Outro ponto frágil do modelo espectral é seu vínculo com certas ideologias.
Em uma nota para a Areo, o reconhecido biólogo Richard Dawkins (2022) afirmou que o sexo é “bastante binário”. Nisso sugeriu que por trás da crítica ao binarismo há um forte ativismo ideológico. Isso último também se observa em seu perfil no X, onde o biólogo costuma denunciar todo tipo de ataque.
Aqui também podemos acrescentar a contribuição do físico Alan Sokal.
Para quem não se lembra, Alan Sokal foi o autor do escândalo Sokal. Nos anos 90, em pleno auge da filosofia pós-estruturalista e pós-moderna, Sokal enviou um artigo intitulado “Transgredindo as fronteiras: Rumo a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica” à revista de estudos culturais Social Text.
Algumas semanas depois, o físico advertiu que tal artigo era um texto falso que parodiava o jargão obscuro e ilegível de alguns filósofos e psicanalistas franceses. Por tal obra, Sokal foi erigido como uma voz autorizada no que diz respeito à desmistificação de poses academicistas que, no fundo, não significam nada.
Em dois ensaios publicados na revista The Critic, Sokal (2024a, 2024b) denunciou a intromissão de uma ideologia woke na ciência que pretende censurar os cientistas. Tal ideologia se observa nos ataques que alguns pesquisadores sofreram por defender o modelo binário e afirmar que só há dois sexos.
Contra tal tendência, Sokal (2024a) sustentou que “o sexo em todos os animais está definido pelo tamanho das gametas; o sexo em todos os mamíferos está determinado pelos cromossomos sexuais; e há dois e somente dois sexos: macho e fêmea”. A partir de tal enfoque, o físico concluiu que o sexo remete a “uma distinção binária extremamente clara” (Sokal, 2024a).
A mesma ideia foi defendida em um texto publicado junto com Dawkins (Sokal & Dawkins, 2024).
Embora certamente o ativismo por trás do modelo espectral tenha chegado ao excesso de negar que haja dois sexos, também é pertinente indicar que alguns dos temas mencionados por Sokal nos referidos ensaios (como o conceito de raça, a psicologia evolucionista ou a influência da testosterona na conduta) seguem em debate (Myers, 2023).
Nesse contexto, muitos binaristas (como Wright, Dawkins ou Coyne) afirmam que as críticas ao modelo binário são políticas e advêm de pessoas mal-intencionadas que utilizam covardemente as pessoas intersexuais (Alcalá, 2023). Embora haja um componente de militância, pensar que todas as críticas ao modelo binário são políticas é uma crença infundada.
Nisso, alguns acusaram o modelo espectral de despatologizar os DSD para respaldar a ideia de que o sexo não é binário porque há “sexos novos” (Alcalá, 2023). Contudo, isso é um erro, já que, como também afirmaram os binaristas, as pessoas intersexuais têm um sexo, seja homem ou mulher.
Se não podemos negar que há uma grande cota de ativismo ideológico nos proponentes do modelo espectral, pecaríamos de ingênuos se acreditássemos que a militância só vem dali. Entre os binaristas também há um forte ativismo ideológico conservador. De fato, boa parte do conservadorismo biologicista está repleto de ideologia (Morales, 2024).
Alguns problemas do modelo binário
Embora o modelo binário se apoie sobre fatos reais (a intersexualidade afeta um grupo minoritário), comete o erro de chegar ao outro extremo e produzir um argumento reducionista. Tal argumento não trata o sexo biológico como um conjunto de componentes, mas como cromossomos, genitais (Karkazis, 2019) ou gametas (Rehmann-Sutter et al., 2023).
Tal argumento é reducionista porque reduz a complexidade do sexo humano, ao considerar um ou dois componentes de um conjunto maior. Com isso, não quero dizer que os cromossomos ou genitais não definam o sexo de um indivíduo. Definem na grande maioria dos casos. Mas em situações concretas o sexo cromossômico e genital não são determinantes.
Se é certo que os proponentes do modelo espectral cometem o erro de afirmar que os cromossomos ou genitais não são determinantes partindo de casos particulares, os defensores do modelo binário cometem o erro inverso: acreditar que os cromossomos ou genitais são determinantes para todos os casos, em detrimento, por exemplo, da identidade de gênero.
Tal problema pode ser visto como uma falácia de composição, que consiste em inferir que uma propriedade relativa a uma parte de um todo também é válida para o todo. Apesar de o conceito sexo se referir a um complexo de elementos muito variado, os binaristas acreditam que o sexo (o todo) é binário porque as gametas (a parte) o são.
E já que falamos de identidade de gênero, outro problema do modelo binário é o quão mal entende tal conceito ao tratá-lo como um capricho subjetivo (Wright, 2020). Isso é um grande erro, considerando que a identidade de gênero se erige sobre uma base biológica que inclui os componentes do sexo (Fisher & Cocchetti, 2020; Roselli, 2018; Saraswat et al., 2015).
A partir de tal evidência fica claro que a identidade de gênero não é um desejo pessoal, mas produto de mecanismos biológicos e culturais. A intenção pela qual tal conceito é maltratado pelo binarismo é clara: promover enfoques reducionistas do sexo implica minimizar a população trans que recorre à identidade de gênero para estabelecer seu sexo (Wright, 2023).
Outro ponto problemático do modelo binário é a crítica à existência de um terceiro sexo. Embora este argumento seja empregado como ponta de lança nas redes sociais, a verdade é que, além de Fausto-Sterling (1993), ninguém afirmou explicitamente que haja um terceiro sexo. Salvo alguns memes, nenhum referencial sério defende isso.
E a melhor prova está em que quando os binaristas acusam seus rivais de acreditarem em um terceiro sexo, não citam ninguém. Em seu ensaio a respeito (editado pela prestigiosa Routledge), Hilton e Wright (2024) mencionaram o tema em três oportunidades, mas não citaram ninguém, ou seja, não disseram que cientistas ou acadêmicos defendiam a existência de um terceiro sexo.
Muitas vezes me envolvi em discussões contra os binaristas que afirmam que seus rivais acreditam na existência de um terceiro sexo. Contudo, quando lhes pedi que dissessem quem afirma isso, onde e como se chama tal terceiro sexo, nunca obtenho resposta. Sugiro aos leitores tentarem o mesmo quando se encontrarem em tal situação.
Outro problema do binarismo está em assumir que, porque o sexo é binário, também o é a conduta humana, particularmente as diferenças comportamentais e psicológicas entre homens e mulheres. A partir de tal enfoque, alguns binaristas como Coyne, Wright e Soh afirmaram que as diferenças de gênero são um produto do sexo binário.
Contudo, tal extrapolação não é tão simples.
Em uma nota para a Sapiens, o antropólogo Agustín Fuentes (2022a) afirmou que o sexo não é binário nem tampouco o é a experiência humana, já que ter certos cromossomos não produz corpos ou vidas binários. A partir daquela perspectiva holística, o antropólogo assinalou que nem os genitais, nem os hormônios, nem os cromossomos são determinantes confiáveis do sexo.
Tal perspectiva sobre o sexo não remete unicamente a cromossomos ou genitais, mas a todos os seus componentes, incluída a conduta (cultural, para o caso humano). Por isso, Fuentes, apoiando-se em um estudo que trata o sexo como uma categoria complexa que opera em distintos níveis biológicos (McLaughlin et al., 2023), respalda a ideia de que o sexo não é binário.
A obra do antropólogo é fundamental, já que resgata a influência da cultura na flexibilização do dimorfismo sexual humano e na forma como o estudamos (Fuentes, 2022b). Certamente, o dimorfismo costuma ser empregado como evidência para respaldar o modelo binário e também para biologizar as diferenças de gênero em diversos tópicos (Morales, 2023a, 2023b).
O enfoque antropológico sobre o sexo humano é holístico porque considera não apenas gametas, hormônios e cromossomos (majoritariamente referidos por biólogos), mas também a conduta e a cultura que a molda (Clancy et al., 2024; Fuentes, 2022a, 2022b). Embora para muitos isso seja criticável, não seria a primeira vez que antropólogos e biólogos debatem por algo semelhante.
E falando de debate, o próprio Fuentes (2023) esteve no centro da polêmica, após publicar um breve ensaio na revista Scientific American onde afirmou que “embora as gametas animais possam ser descritas como binárias (de dois tipos distintos), os sistemas fisiológicos, as condutas e os indivíduos que as produzem não o são”.
A partir do enfoque holístico-antropológico, fica claro que o sexo humano (visto como mais do que meras gametas) não é binário. Aqui é pertinente reconhecer que o sexo é uma propriedade dos indivíduos, não das gametas, e que as pessoas não são sinônimos de gametas nem de cromossomos. Lamentavelmente, isso não deteve os ataques contra Fuentes.
Este episódio demonstra que também há uma feroz militância no binarismo.
Finalmente, um grande problema do modelo binário são suas definições convenientes.
Em um debate sobre o tema em questão organizado pelo Massachusetts Institute of Technology em abril deste ano, a historiadora Alice Dreger disse: “as mesmas pessoas que nos dizem que o sexo trata de gônadas ou gametas nos dizem que o sexo realmente trata de hormônios quando chegam a um estádio esportivo”. E olha que ela tem razão.
Colin Wright é um dos ativistas a favor do modelo binário que popularizou nas redes a definição de que o sexo de um indivíduo depende do tipo de gametas que produza: óvulos para as mulheres e espermatozoides para os homens. Até aí, tudo claro. Contudo, se falamos de esporte, os critérios mudam misteriosamente.
Nos últimos Jogos Olímpicos celebrados em Paris, uma esportista monopolizou todos os holofotes: a boxeadora argelina Imane Khelif. Segundo o presidente da Associação Internacional de Boxe, Imane é intersexual: é uma mulher, nascida e criada como mulher, mas com cromossomos XY. Cromossomicamente, Imane seria homem, mas a partir da identidade de gênero, ela é uma mulher.
Isso, contudo, não impediu que fosse acusada de ser transgênero, um homem disfarçado de mulher (como disse Dawkins no X) ou um travesti (como afirmou Wright no Facebook). Tal cenário foi idôneo para que os binaristas questionassem sua participação em esportes femininos (Wright, 2024a) e torcessem sua sacrossanta definição de sexo segundo o tipo de gameta.
O melhor exemplo foi dado pelo próprio Colin Wright.
Em um artigo de seu blog pessoal, Wright (2024b) qualificou Imane como um homem biológico (biologically male) unicamente por seus cromossomos XY e seus níveis de testosterona. De suas gametas não disse absolutamente nada. Onde ficou a definição que tanto promoveu nas redes e que muitos binaristas, como Alex Byrne, consideram uma definição de manual?
No momento, ninguém sabe, mas podemos especular.
E se Colin tivesse seguido sua definição habitual, teria chegado à conclusão de que Imane não é homem, já que não produz espermatozoides. Naturalmente, isso teria sido nefasto para ele e o setor que representa. Por tal motivo, viu-se na necessidade de esquecer as gametas e falar de cromossomos e testosterona. Melhor exemplo de definição conveniente não há.
Binário e espectro, duas palavras ruins
Enquanto alguns cientistas sustentam que nem a intersexualidade nem a variedade de papéis sexuais refuta que o sexo é binário (Elliott, 2023; Goymann et al., 2022; Marinov, 2020; Rehman, 2023), outros cientistas afirmam que o sexo não é binário (Berkowitz, 2020; Novella, 2022; Sun, 2019), mas sim um espectro (Brusman, 2019; Henig, 2017; Kralick, 2018a; Štrkalj & Pather, 2021) e que isso se observa até em nossos ossos (Kralick, 2018b; Schall et al., 2020).
Tal cenário contraditório pode nos fazer acreditar que ambos os lados se referem aos mesmos fatos, mas os veem de forma distinta. E não seria uma leitura equivocada. Grande parte do debate sobre a natureza do sexo humano não tem a ver com dados, mas com sua interpretação. Será que o problema não está na realidade, mas sim nos conceitos que empregamos?
Pessoalmente, discordo do termo binário não porque descreva fatos falsos, mas porque os representa de forma inexata. Isso pode se dever a seu caráter metafórico. Em matemática, um sistema binário é um sistema composto de dois elementos. De certo enfoque, faz muito sentido dizer que o sexo humano é binário, já que só há dois sexos.
O problema reside em que os sistemas binários não admitem variação. Considerando que a intersexualidade implica uma variação dos componentes do sexo que, sem dúvida, influi em sua definição, é facilmente destacável que a palavra binário não é um bom termo para descrever a complexidade do sexo humano, particularmente a intersexualidade.
Diante de tal argumento, os binaristas costumam dizer que seus rivais confundem os componentes do sexo com o sexo como tal (sex itself). Mas, para além do essencialismo que implica falar de um sexo como tal, como se pode analisar o que é o sexo sem considerar os elementos que o compõem? Como é possível discutir o sexo sem discutir o que o sexo realmente é?
Negar que o sexo seja binário não implica assumir automaticamente que há três sexos, que é o que muitos binaristas afirmam para desqualificar as críticas. De fato, não há argumento lógico algum que sustente a passagem de i) o sexo não é binário a ii) há um terceiro sexo. Pensar que sim é um claro exemplo de falácia de non sequitur.
Mas, então, o que significa dizer que o sexo humano não é binário?
Negar que o sexo humano seja binário unicamente significa que o termo binário não o define bem, não é exato nem apropriado nem lhe faz justiça. Isso tampouco significa que o enunciado “só há dois sexos” seja falso. De fato, cientistas como Fuentes (2022a, 2023) aceitaram que há duas gametas. O que não aceitam é que o sistema chamado sexo seja estritamente binário.
E se prestarmos atenção, as gametas são binárias, mas o restante dos componentes do sexo não o são tanto (Tabela 1). Este “não o são tanto” basta e sobra para questionar a validade do termo binário, sendo que este representa um sistema de dois componentes sem variabilidade, isto é, sem que nenhum dos elementos ostente variação.
Se discordo do termo binário, também discordo do termo espectro por ser tão ou mais inexato. Sua definição a partir da física se refere a algo muito distinto. Pessoalmente, entendo os argumentos do modelo espectral, focados em apreender a intersexualidade, mas o problema reside na metáfora que escolheram, a qual gera mais confusão do que certeza.
Neste ponto, os termos binário e espectro são palavras ruins.
Bimodal, uma palavra melhor
Se queremos encontrar uma opção que integre ambas as visões, essa já existe na teoria: o termo bimodal foi proposto como uma melhor alternativa para compreender a natureza do sexo. E o melhor é que foi mencionada tanto por quem defende o modelo binário quanto por quem apoia as críticas ao modelo binário.
Com bimodal quero dizer duas coisas: 1) só há dois sexos (macho e fêmea, o que majoritariamente depende do tipo de gameta), não três nem quatro (porque não há uma terceira nem quarta gameta); e 2) há uma grande variação de traços (intersexualidade) que nem sempre se encaixam nos sexos típicos. Trata-se de um enfoque respaldado na própria evolução biológica do sexo (Marinov, 2020).
Um dos cientistas que mencionou o termo bimodal para discutir a natureza do sexo foi Fausto-Sterling (2016) em uma entrevista conduzida por Priscille Touraille. Contudo, a leitura que lhe deu naquele momento fez com que a palavra bimodal fosse entendida como sinônimo de binário. Isso não reflete o sentido que tal termo obteve posteriormente.
Quem proporciona uma melhor definição da palavra bimodal é o neurologista clínico Steven Novella (2022), que também, ao meu entender, expôs de forma ótima as diferenças entre os modelos binário e bimodal. Em suas próprias palavras, Novella (2022) afirmou que é mais exato entender o sexo biológico humano como bimodal do que como binário.
Bimodal significa que existem essencialmente duas dimensões no contínuo do sexo biológico. Para que o sexo seja binário teriam que haver dois extremos não sobrepostos e sem ambiguidades nesse contínuo, mas claramente não os há. No meio existem todos os tipos imagináveis de sobreposição, portanto, bimodais, mas não binários. (Novella, 2022)
Tal postura contém outros aspectos relevantes como a negação de que haja um terceiro sexo (Novella o nega explicitamente), a aceitação de que o sexo em seres humanos cumpre uma função reprodutiva, mas não se esgota nela (também cumpre funções de socialização) e a crítica ao argumento reducionista que afirma que o sexo é binário porque as gametas o são.
Aqui muitos poderiam pensar que o termo bimodal é empregado pelos defensores do modelo espectral como um salva-vidas. Mas a verdade é que também foi empregado pelos binaristas mais obstinados, como Coyne (2018b), que disse na parte final de um de seus textos que se o sexo humano não era binário, então era “seguramente bimodal”.
E, no fundo, os binaristas sempre souberam que o sexo é bimodal.
Algo curioso é que os defensores do modelo binário reconhecem a intersexualidade e as possíveis exceções (por exemplo, pessoas inférteis ou incapazes de produzir gametas) que respaldam a bimodalidade do sexo. Contudo, continuam empregando e defendendo o termo binário mais por sua carga política do que por sua exatidão terminológica.
Naturalmente, o termo bimodal também é uma metáfora, como qualquer estatístico rigoroso poderia facilmente assinalar. Mas, mesmo que de metáforas se trate, bimodal é, de longe, uma palavra melhor do que binário e espectro, na medida em que reconhece a existência de dois sexos (o modelo binário) e apreende a intersexualidade (modelo espectral).
Chegados a este ponto, o que devemos fazer com o modelo binário?
Um pouco de filosofia da ciência
Em 1965, celebrou-se em Londres o Colóquio Internacional de Filosofia da Ciência que reuniu diversos acadêmicos em torno da obra do físico Thomas Kuhn. Um dos participantes foi o matemático Imre Lakatos. Diferentemente de outras propostas, como a de Karl Popper, a obra de Lakatos (1987) concebeu o progresso científico de um modo mais liberal.
Enquanto o falseacionismo popperiano (chamado dogmático ou ingênuo) assinalou que o progresso científico ocorria quando uma teoria refutava e eliminava outra, o falseacionismo de Lakatos (chamado sofisticado ou metodológico) propôs que o progresso científico ocorria quando uma teoria refutava outra, mas sem que esta fosse eliminada.
A chave está em que a nova teoria é melhor porque explica novos fatos, o que não converte a teoria anterior em inútil, falsa ou pseudocientífica. Menciono brevemente este episódio da filosofia da ciência porque considero que pode nos ajudar a entender melhor a polêmica entre os modelos binário e bimodal.
Uma lição que deixa a obra de Lakatos (1987) é que nem todas as teorias refutadas o são porque estão totalmente equivocadas. Muitas delas são refutadas não porque haja novas teorias que as contradigam por completo, mas unicamente porque as novas teorias explicam melhor novos fatos. Mais do que eliminação, há superação.
Extrapolado ao problema deste artigo, as diferenças entre os modelos binário e bimodal são desse tom, sutis, já que um não invalida totalmente o outro. De fato, o modelo binário não é falso nem pseudocientífico, mas insuficiente (Rehmann-Sutter et al., 2023), na medida em que mostra limitações para entender a intersexualidade (Novella, 2022).
Por isso, o enunciado “o sexo humano é binário” não é falso nem muito menos, mas unicamente limitado. Isso faz com que as críticas que tacham o modelo binário de ser falso ou pseudocientífico estejam equivocadas. Por muito tempo, o sexo foi entendido como um binário. Tal concepção alcançou importantes avanços científicos que nos trouxeram até aqui e não devemos desconsiderar.
Palavras finais
Como vimos neste artigo, os modelos binário e espectral possuem bons argumentos, mas também problemas e limitações que os impedem de teorizar a natureza do sexo biológico. Em contrapartida, o modelo bimodal constitui uma melhor alternativa porque integra o melhor de ambas as perspectivas sem incorrer em seus principais erros.
A respeito disso, só resta dizer que qualquer que seja o modelo que alguém escolha defender, isso deve ocorrer considerando e avaliando os argumentos a favor e contra, e combatendo as ideias, nunca as pessoas. Tal atitude implica um respeito pelo progresso científico, bem como pelos agentes que o conduzem.
Da mesma forma, é pertinente reconhecer que a crítica ao modelo binário tem fortes implicações não apenas na prática médica e na formação do pessoal de saúde (Štrkalj & Pather, 2021), mas também na maneira como estudamos o sexo e qualquer forma de diversidade sexual humana (Sharpe et al., 2023). Isso é fundamental para o progresso científico e o desenvolvimento social.
No início deste ano, o meio The Telegraph e a Censuswide entrevistaram 198 cientistas britânicos para lhes perguntar se acreditam que o sexo e o gênero são binários. Quanto ao sexo, pouco mais da metade (58%) respondeu que sim, é binário, exceto (e aqui vem o importante) em casos de intersexualidade (Pinkstone & Knapton, 2024).
Talvez os entrevistadores e entrevistados não soubessem, mas tal postura corresponde mais à lógica bimodal do que à binária.
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