Inteligência Artificial encontrou um ancestral desconhecido no genoma humano

0
132
Caverna Denisova na Sibéria, Rússia. Créditos: Cheburgenator / Wikimedia Commons.

Por Peter Dockrill
Publicado na ScienceAlert

Ninguém sabe quem ela era, apenas que ela era diferente: uma adolescente de mais de 50.000 anos atrás com uma singularidade tão estranha que parecia ser uma ancestral ‘híbrida’ dos humanos modernos que os cientistas nunca tinham visto antes.

Recentemente, pesquisadores descobriram evidências de que ela não estava sozinha. Em um estudo de 2019 que analisou a complexa bagunça da pré-história da humanidade, os cientistas usaram Inteligência Artificial (IA) para identificar uma espécie ancestral humana desconhecida que os humanos modernos encontraram – e se relacionaram – na longa jornada para fora da África há milênios.

“Há cerca de 80 mil anos ocorreu o chamado ‘Fora da África’, quando parte da população humana, que já era formada por humanos modernos, abandonou o continente africano e migrou para outros continentes, dando origem a todas as populações atuais”, explicou o biólogo evolutivo Jaume Bertranpetit da Universidade Pompeu Fabra na Espanha.

Conforme os humanos modernos forjaram esse caminho para a massa continental da Eurásia, eles forjaram algumas outras coisas também – cruzando com hominídeos antigos e extintos de outras espécies.

Até recentemente, pensava-se que esses parceiros sexuais ocasionais incluíam neandertais e denisovanos, sendo que o último era desconhecido até 2010.

Porém, neste estudo, um terceiro ex-parceiro de muito tempo atrás foi isolado no DNA eurasiano, graças a algoritmos de aprendizagem profunda que vasculham uma massa complexa de código genético humano antigo e moderno.

Usando uma técnica estatística chamada inferência bayesiana, os pesquisadores encontraram evidências do que eles chamam de “terceira introgressão” – uma população arcaica ‘fantasma’ com a qual os humanos modernos cruzaram durante o êxodo africano.

“Esta população está relacionada ao ramo Neandertal-Denisovano ou divergiu cedo da linhagem Denisovana”, escreveram os pesquisadores em seu estudo, o que significa que é possível que esta terceira população na história sexual da humanidade seja possivelmente uma mistura de Neandertais e Denisovanos.

Em certo sentido, do ponto de vista da aprendizagem profunda, é uma corroboração hipotética com uma espécie de ‘fóssil híbrido’ de uma adolescente identificada em 2018; embora ainda haja mais trabalho a ser feito, e os próprios projetos de pesquisa não estejam diretamente ligados.

“Nossa teoria coincide com o espécime híbrido descoberto recentemente em Denisova, embora ainda não possamos descartar outras possibilidades”, disse um membro da equipe, o genomicista Mayukh Mondal, da Universidade de Tartu, na Estônia, em nota à imprensa no momento da descoberta.

Dito isso, as descobertas feitas nesta área da ciência estão vindo em grande escala e rápido.

Também em 2018, outra equipe de pesquisadores identificou evidências do que eles chamaram de “terceiro evento de cruzamento definitivo” ao lado de denisovanos e neandertais, e um par de estudos publicados no início de 2019 traçou a linha do tempo de como essas espécies extintas se encontraram e cruzaram em detalhes mais claros do que nunca antes.

Ainda há muito mais pesquisas a serem feitas aqui. Aplicar esse tipo de análise de IA é uma técnica decididamente nova no campo da ancestralidade humana, e as evidências fósseis conhecidas com as quais estamos lidando são incrivelmente escassas.

No entanto, de acordo com a pesquisa, o que a equipe encontrou explica não apenas um processo de introgressão há muito tempo esquecido – é uma relação que, à sua maneira, informa parte de quem somos hoje.

“Pensamos em tentar encontrar esses locais de alta divergência no genoma, ver quais são neandertais e quais são denisovanos, e então ver se eles explicam todo o quadro”, disse Bertranpetit ao Smithsonian. “Acontece que, se você subtrair as partes Neandertal e Denisovana, ainda há algo no genoma que é altamente divergente”.

Os resultados foram publicados na Nature Communications.