Morre Mario Bunge, um dos cientistas de língua espanhola mais citados da história, aos 100 anos

O pensador argentino completou 100 anos em setembro.

0
823
Crédito: Diego Norbiato.

Traduzido de Julio Batista
Original de Patricia Fernandez de Lis, no El País

O cientista e filósofo argentino Mario Bunge morreu hoje à noite em um hospital em Montreal, onde vivia desde 1966, confirmaram fontes próximas à família ao EL PAÍS. Bunge é um dos cientistas de língua espanhola mais citados da história e recentemente completou 100 anos em setembro. Ele publicou meio mais de quinhentos artigos e mais de cem livros e foi condecorado com o Prêmio Príncipe das Astúrias de Ciências Humanas e Comunicação em 1982 pela influência internacional de sua filosofia. Ele também recebeu mais de vinte doutorados honorários, além de quatro títulos de professor honorário em universidades europeias e americanas. A família não realizará nenhum tipo de cerimônia, como era o desejo do próprio Bunge.

Mario Bunge nasceu na Grande Buenos Aires em 21 de setembro de 1919. Foi professor de física e filosofia teórica, primeiro na Universidade de La Plata e depois na Universidade de Buenos Aires. Atualmente, ele era professor de lógica e metafísica na Universidade McGill (em Montreal), onde lecionava desde 1966. Em 1938, com menos de 20 anos, foi fundador e líder da Universidad Obrera Argentina, que possuía mais de 3.000 estudantes antes de ser clausurada por forças peronistas em 1943. Ao longo de sua carreira, ele foi especialmente conhecido por sua incansável luta contra as pseudociências.

Seu livro mais conhecido é  La ciencia, su método y su filosofía, publicado em 1960, no qual ele explica as bases do método científico, mas escreveu dezenas de outros livros sobre filosofia da ciência e epistemologia e também sobre física teórica e psicologia, matemática e ontologia, incluindo os oito volumes de seu Tratado de filosofía básica.

Bunge conversou com o EL PAÍS no ano passado, na ocasião de seu centésimo aniversário . “A política internacional parece um desastre para mim e os populismos de direita são alarmantes”, disse ele. Ele também refletiu sobre o valor da ciência e a importância de fazer investimentos sustentáveis na área. “Não sabemos como medir a velocidade da ciência, mas o que sabemos é que os cortes nos investimentos científicos equivalem a cortes na nossa capacidade cerebral e beneficiam apenas os políticos que ascendem com a ignorância”. Além disso, ele estava especialmente preocupado com o estado da filosofia: “A filosofia está passando por um momento ruim, porque não há pensamento original, quase todos os professores de filosofia fazem é comentar o pensamento de filósofos do passado, não tratam de novos problemas”.

Uma de suas constantes batalhas, pelas quais ele continuou escrevendo livros e dando entrevistas, foi a luta contra a pseudociência. Em um texto publicado no EL PAÍS em 2017, ele alertou contra o “pseudocientificismo”, que consiste em “apresentar as pseudociências como se fossem ciências autênticas, porque partilham de alguns dos atributos da ciência, em particular o uso conspícuo de símbolos matemáticos, embora não possuam suas propriedades essenciais, especialmente a compatibilidade com conhecimentos anteriores e contraste empírico”.

“Sabemos que a longevidade, embora dependa do estilo de vida, também depende da sorte. Eu tive muita sorte.”

Bunge foi o professor e a inspiração de toda uma geração de cientistas de língua espanhola. Por ocasião de seu centésimo aniversário, o neurocientista Ignacio Morgado o descreveu dessa forma: “Um trabalhador incansável e diligente, aposentado no Canadá, Mario Bunge ainda está atualmente lidando com ciência, filosofia política e filosofia e sociedade”. Morgado lembra que escrevia quase todos os dias a Bunge até que, dois ou três dias atrás, o filósofo parou de responder. “A humanidade do professor Bunge”, escreveu Morgado por ocasião de seu centésimo aniversário, “reflete-se não apenas em sua ideologia social, na dimensão moral de seu pensamento e em suas demandas por justiça, oportunidades iguais para homens e mulheres, democracia econômica e racionalidade, mas também em situações especiais de sua vida acadêmica, como quando ele se culpava publicamente por acreditar que não havia sido pouco solidário com a Dra. Justine Sergent, uma competente, empenhada, querida e invejada do famoso Instituto Neurológico de Montreal, que acabou se suicidando aos 42 anos, da mesma forma que o marido, sem resistir à humilhação e à pressão social que teve que enfrentar depois ter sido acusada de ter violado o código de ética de sua profissão”.

Morgado e o filósofo Avelino Muleiro preservam a memória de Bunge em um artigo enviado hoje ao EL PAÍS por ocasião de sua morte: “Ele trabalhou como professor emérito até quase o fim de seus dias, e achamos correto dizer que quanto mais ele se aprofundava na natureza humana, mais ele queria vincular esse conhecimento à bondade e à luta para construir um mundo melhor, distante das guerras e injustiças”.

Bunge era casado com a matemática italiana Marta Cavallo e tinha quatro filhos, todos professores universitários, 10 netos e muitos outros bisnetos. Em sua entrevista ao EL PAÍS, ele refletiu sobre a longevidade: “Enquanto eu morava em minha terra natal, eu não imaginava que chegaria a um século de vida, ou mesmo dormiria uma noite inteira, porque antes minha vida dependia da polícia. Aqui [no Canadá], onde não tenho medo de policiais, você não tem esses pensamento sombrios. Mas sabemos que a longevidade, embora dependa do estilo de vida, também depende da sorte. Tive muita sorte”.

CONTINUAR LENDO