Mario Hamuy: “Não há qualquer evidência para a existência de universos paralelos”

O astrônomo Mario Hamuy.

Publicado na BBC

Tal era seu fascínio com o que estava ocorrendo no céu que, quando criança, ele tirou de seu pai alguns binóculos que usava para assistir as corridas de cavalos e subia no telhado de sua casa para observar as estrelas.

Agraciado com o Prêmio Nacional de Ciências Exatas do Chile, Hamuy é atualmente presidente da Comissão Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica de seu país.

Ele também é coautor de um livro sobre o assunto ao qual ele tem dedicado a maior parte de sua vida: as supernovas.

Durante o Festival Hay em Arequipa, Peru, Hamuy conversará sobre isso e outros temas com a BBC Mundo em 11 de novembro.

Antes de viajar, ele concordou em participar de uma entrevista interativa com os leitores.

Essas são suas respostas.

Qual é o corpo celeste que mais lhe assombra ou causa perplexidade? Por quê?

O que mais assombra e causa curiosidade é o grande Big Bang, o início do universo. Não sabemos exatamente como o universo iniciou, não sabemos se houve um antes do Big Bang e creio que essa seja uma das questões que cada vez mais capturará a atenção dos astrofísicos nos próximos anos.

Até onde conseguimos ver o universo?

Podemos observar até 13.800 milhões de anos-luz de distância. Mais além não podemos ver, porque como o universo teve um início no Big Bang, embora seja possível que exista um universo mais além, pois, a partir dessa distância a luz não teve tempo de nos alcançar.

Esse é o horizonte até onde podemos ver.

O universo é infinito? Em caso afirmativo, existiria universos paralelos aos nossos e até mesmo milhões de cópias idênticas ao nosso?

Até onde podemos observar, que são os 13.800 milhões de anos-luz de distância, o universo não mostra curvatura que indique que ele possa ser finito.

A evidência tende a salientar que o universo é plano e infinito. No entanto, se pudéssemos observar além dos 13.800 milhões de anos-luz do nosso horizonte (talvez) pudéssemos observar alguma curvatura.

Créditos: ESA/ NASA.

Mas até agora não temos precisão suficiente para medir se existe uma curvatura que indique que o universo é finito ou infinito.

É uma pergunta que será muito difícil de responder, porque quando o universo iniciou com o Big Bang, houve um estágio de expansão acelerada e qualquer característica da curvatura que universo teria praticamente se apagaria.

Isto é, não sabemos se é finito ou infinito, mas sabemos que é muito mais grande que o horizonte que podemos observar.

E quanto aos universos paralelos, não há qualquer evidência de que eles existam. Foi proposto como uma teoria para remover o problema que se apresenta com um universo tão ajustado à nossa existência, que parece ser demasiada causalidade.

Créditos: Getty Images.

Para evitar esse problema, os astrofísicos teóricos criaram a ideia de que se produziram muitos Big Bang, muitos universos paralelos, cada um com suas leis, e apenas em alguns, como o nosso, se dariam as condições para a vida.

É uma teoria muito boa, mas não há qualquer evidência de que eles existam.

Qual é a forma do universo?

Geometricamente falando, até onde sabemos, o universo é plano. É como a superfície de uma mesa em duas dimensões.

Até agora, não conseguimos medir que essa mesa tenha curvatura, como se fosse pensado como uma esfera.

A única diferença na analogia com uma mesa é que o universo não tem apenas as duas dimensões da superfície de uma mesa, mas, sim, três dimensões (alto, largo e profundo).

Os buracos negros podem ser fundidos ou absorvidos por outros? Isso gera radiação que possa ver vista, como um evento astronômico? Ou não há emissão de luz?

É uma pergunta muito boa. Os buracos negros podem – devido à atração gravitacional – funcionar em um só objeto. E, de fato, pela primeira vez há um ano e meio, o observatório LIGO detectou evidências desse fenômeno através da emissão de ondas gravitacionais que atingiram o nosso planeta depois de terem viajado milhões de anos através do espaço.

Simulação computacional de um buraco negro no centro de uma galáxia.

Portanto, foi empiricamente demonstrado que a fusão de buracos negros gera ondas gravitacionais (preditas por Einstein há 100 anos quando elaborou sua Teoria da Relatividade Geral).

Ainda não sabemos se a energia produzida na forma de ondas gravitacionais também vem acompanhada de energia eletromagnética, ou seja, a luz que podemos observar.

Isso não conseguimos ver, nem descartar. Mas graças a LIGO, o interferômetro que detecta ondas gravitacionais, e sua contraparte europeia Virgo, poderão determinar nos próximos anos se a fusão de buracos negros também vem acompanhada de emissões eletromagnéticas ou de luz.

Pode uma supernova ser tão brilhantes e ter muita energia ser observada com um telescópio básico?

Claro, de fato, existem muitas supernovas que ocorrem em nossa galáxia (isto é, a uma distância relativamente pequena) e que foram observadas durante o dia e sem a necessidade de um telescópio.

Várias supernovas puderam ser vistas em nossa galáxia sem o auxílio de telescópios.

Há a famosa supernova do ano de 1054, registrada em detalhe pelos antigos chineses. Essa foi uma supernova que foi observada a olho nu e permaneceu visível durante várias semanas.

E também tem outras em nossa galáxia que foram observadas em um telescópio.

A última foi em 1987 e ocorreu na galáxia mais próxima da Via Láctea, a Grande Nuvem de Magalhães. Ela pode ser vista a olho nu pela noite.

Quando você está olhando para o espaço a partir da Terra e procurando outros planetas ou algum fenômeno no espaço, você olha para todas as direções?

Quando um observa universo, o faz em todas as direções. Um trata de observar toda a esfera celeste. O universo não tem um alto ou um baixo, nem possui um centro.

Vemos isso a partir do nosso ponto de vista, que é a Terra, e vemos uma esfera que nos rodeia, onde estão as estrelas, as galáxias.

Mas um observador em qualquer outro lugar do universo também terá ao seu redor sua própria esfera.

Não há um lugar privilegiado no universo.

Por que as nebulosas são coloridas? O que determina sua cor?

As nebulosas são feitas de gás e os mecanismos físicos pelos quais uma nebulosa parece brilhante podem ser diferentes. Eles podem ser porque refletem luz ou porque absorvem e emitem.

Créditos: NASA.

Isso depende das propriedades físicas do gás ou do pó do qual são feitas.

Por exemplo, se uma nebulosa é muito rica em hidrogênio, ela emitirá luz nas frequências características do hidrogênio (…) e, portanto, ficará bem vermelha.

Depende muito da composição química do gás que compõe a nebulosa.

No caso de serem reflexos da luz de estrelas próximas, dependerá da estrela que estará iluminando esse gás. Às vezes, podem ser estrelas muito azuis, outras mais amarelas.

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Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Sou fundador da Universo Racionalista, especialista em Segurança da Informação e Hacker Ético | Graduando em Tecnologia em Redes de Computadores pela Universidade de Franca | Especialista em Fundamentals of Computing Network Security ( • Design and Analyze Secure Networked Systems • Basic Cryptography and Programming with Crypto API • Hacking and Patching • Secure Networked System with Firewall and IDS ) pela University of Colorado | Especialização em andamento em Cybersecurity ( • Computer Forensics • Network Security • Cybersecurity Fundamentals • Cybersecurity Risk Management • Cybersecurity Capstone ) pela Rochester Institute of Technology | Certificado em Information Security Specialist ( • InfoSec Foundation • Ethical Hacking Essentials • Computer Forensics Foundation ) pela ITCERTS | Certificado em Information Security Analyst ( • Information Security Policy Foundation • Vulnerability Management Foundation ) pela ITCERTS | Cursei integralmente as disciplinas teóricas em Licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franca, mas não realizei o estágio supervisionado para a obtenção do diploma de Ensino Superior | Especialista em Journey of the Universe: A Story for Our Times pela Yale University | Colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade | Colunista da Climatologia Geográfica | Membro da Rede Brasileira de Astrobiologia | Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes e LinkedIn.

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