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O papa, a evolução e a alma

Tradução histórica. Este ensaio de Mario Bunge foi publicado originalmente na revista Free Inquiry, edição Winter 1996/97.

Resumo: Bunge questiona a separação entre alma e cérebro e argumenta que as evidências da neurociência, da psicologia e da psiquiatria sustentam uma abordagem materialista da mente, com impacto direto no tratamento de transtornos mentais.

João Paulo II admitiu recentemente que a evolução biológica é real. Isso não é novidade. Pio XII já havia admitido isso em 1953. No entanto, advertiu que a evolução, longe de acontecer espontaneamente, é guiada do alto. Como ele descobriu isso?

Se a evolução tivesse sido conduzida à distância por Deus, então a seleção natural, um dos dois principais mecanismos evolutivos, não seria natural. Seria sobrenatural, logo misteriosa e, portanto, assunto para teólogos, não para biólogos. Claramente, a biologia evolutiva autorizada pelo Vaticano não é aquela em que os biólogos trabalham.

A contribuição do papa para o debate entre religião e ciência consiste em reiterar o dogma de que a alma humana é imaterial e eterna, de modo que estaria livre das amarras da matéria e dos acidentes da evolução. Esse dogma milenar impõe vários problemas que os teólogos nem sequer enfrentaram.

1. Como é possível que o cérebro humano tenha evoluído sem que suas funções específicas também tenham evoluído? As funções de algo em evolução não mudam junto com esse algo? E a biopsicologia não mostrou que funções mentais, como percepção, atenção, emoção, imaginação, formulação de conjecturas e tomada de decisão, são funções cerebrais? Se for assim, não é óbvio que as funções mentais evoluem com seu órgão, o cérebro? E não é por isso que a psicologia evolutiva vem sendo desenvolvida?

2. Se os processos mentais não são processos neurofisiológicos, por que o cérebro humano é o mais complexo e vulnerável de todos os órgãos? Se ele não desempenhasse as funções mais refinadas que se pode imaginar, por que não poderíamos nos virar com um crânio muito menor e quase vazio, útil apenas para usar chapéu ou cabecear uma bola de futebol?

3. Se apenas a mente humana é divina, como os outros primatas, assim como muitos outros vertebrados superiores, conseguem perceber, aprender e se comunicar, às vezes até conosco?

4. Se a mente humana é divina, quem foi agraciado com ela pelo Espírito Santo, e em que estágio da evolução? Foram os hominídeos de três milhões de anos atrás, ou apenas o Homo sapiens, que provavelmente surgiu há cerca de 100 mil anos? E antes de esse milagre acontecer, nossos ancestrais remotos não tinham alma? Se não tinham, seriam eles mais desalmados do que cruzados, inquisidores e cristãos que lutaram por causas fascistas desde 1925 e que continuaram matando uns aos outros na Irlanda do Norte?

5. Se a alma é alheia à evolução, como explicar que algumas de nossas atividades mentais sejam muito superiores às de nossos ancestrais remotos? Não poderia ser porque a evolução mental acompanhou a evolução biológica?

Esses não são os únicos problemas do dualismo mente-corpo defendido por teólogos e filósofos que ignoram deliberadamente a psicologia moderna. O problema mais grave desse dogma é que ele dificulta a investigação científica dos processos mentais, assim como o tratamento médico dos transtornos mentais.

Na prática, o papa advertiu tacitamente neurobiólogos e psicólogos de que deveriam limitar o estudo da mente às suas funções não neurais. Também sugeriu que se abstivessem de estudar grandes símios, macacos e outros parentes evolutivos para descobrir como a mente funciona. Contudo, são justamente essas investigações que produziram algumas das descobertas mais importantes do último meio século.

Por exemplo, graças às técnicas de neuroimagem, hoje é possível revelar mecanismos cerebrais ligados às mais elevadas atividades mentais. Poderia a graça divina substituir a tomografia por emissão de pósitrons e a ressonância magnética?

Outro exemplo é a escassez de serotonina, neurotransmissor fundamental que pode causar depressão. Esse transtorno incapacitante pode ser tratado com Prozac, que controla a concentração de serotonina no cérebro e restaura seu nível normal. A oração poderia ser igualmente eficaz e muito menos cara?

Também se sabe há décadas que deficiência de iodo pode causar não só bócio, mas também quadros graves de comprometimento cognitivo. Deficiência de proteína desacelera a aprendizagem. Lesões no lobo parietal podem causar afasia. Algumas formas de hiperatividade podem ser tratadas com medicamentos, enquanto outras podem exigir intervenção cirúrgica na tireoide. O exorcismo poderia superar esses resultados clínicos?

Também foi estabelecido que o neocórtex é o órgão da inteligência e o sistema límbico o órgão da emoção. Cor, forma e movimento dependem de áreas distintas do córtex. Saber o que está em determinado local é diferente de saber onde está. O leitor pode consultar qualquer manual moderno de psicologia fisiológica, psicobiologia, biopsicologia ou neuropsicologia. A teologia tentou, de algum modo, assimilar essas descobertas?

Essas e muitas outras descobertas sobre o problema mente-corpo ampliaram uma lista que a medicina vem compilando há quase três milênios. Médicos egípcios e gregos da Antiguidade já sabiam que certas lesões cerebrais afetam funções mentais. Também sabiam que algumas substâncias alteram humor, percepção, atenção, memória e inteligência. Não por acaso, a saúde mental contemporânea frequentemente utiliza terapias farmacológicas específicas para transtornos específicos.

Se a alma, ou sua versão secular chamada mente, fosse imaterial, ela não poderia ser afetada, muito menos destruída, por bebidas, comprimidos, cirurgia ou violência física. E se transtornos mentais fossem apenas disfunções de uma entidade fantasmagórica, eles não poderiam ser corrigidos com drogas ou bisturi. Poderíamos fazer exercícios espirituais correndo ou nadando com vigor. A falta de oxigênio em grandes altitudes não reduziria nossas faculdades mentais nem produziria alucinações, como visões de discos voadores ou aparições da Virgem Maria.

É ao tratar o cérebro humano como órgão dos processos mentais que mecanismos psicológicos normais e patológicos estão sendo desvendados. A abordagem materialista adotada por biopsicólogos, assim como por físicos, químicos e biólogos, impulsionou os avanços rápidos da psicologia e da psiquiatria nas últimas décadas. Em sentido amplo, o materialismo não nega o mental, inclusive a consciência. Ele sustenta que todo fenômeno mental é neurofisiológico, embora o inverso não seja verdadeiro.

Em contraste, a abordagem espiritualista, ou idealista, típica da religião, da psicanálise e de certas correntes idealistas de filosofia, obstrui o avanço do conhecimento e, por consequência, o avanço do tratamento de transtornos mentais. É como tentar estudar movimento sem corpos, vento sem ar, digestão sem intestino, batimentos sem coração e sorriso sem músculos faciais. Isso é magia, não ciência.

Dado o enorme preço em ignorância e sofrimento humano cobrado pelo dogmatismo, a declaração papal sobre evolução é um episódio tragicômico na guerra milenar entre ciência e religião. Para pessoas com depressão, esquizofrenia, epilepsia, afasia, dislexia e outros transtornos mentais, não há consolo em ouvir que não se deve esperar ajuda da pesquisa porque Deus, ou melhor, seu Vigário, desacoplou a alma e o cérebro.

Novidades não surgem de repetição automática de dogmas envelhecidos. Elas surgem de uma busca livre, ainda que disciplinada, pela verdade. E religiões historicamente se opuseram, e tendem a continuar se opondo, a essa busca em nome de verdades reveladas e eternas.

É desolador que ainda seja necessário repetir truísmos que já eram comuns no Iluminismo, às vésperas do terceiro milênio. Isso ocorre porque não avançamos tanto quanto se diz. Ou ocorre precisamente porque avançamos rápido, e guardiões do dogma tentam erguer barreiras ao avanço da ciência que investiga os mecanismos cerebrais da mente e põe em xeque o dogma da alma imaterial e imortal. Como disse Dom Quixote: “Eles ladram, Sancho, sinal de que avançamos.”

Universo Racionalista

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Fundada em 30 de março de 2012, Universo Racionalista é uma organização em língua portuguesa especializada em divulgação científica e filosófica.