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Edward Osborne Wilson, pai da sociobiologia

Publicado por Sergio Morales no Ciencia del Sur.

Resumo: A sociobiologia, fundada por Edward O. Wilson, tentou explicar a conduta humana pela seleção natural. Mas seu caráter especulativo, a falta de evidências e o descuido com a cultura revelaram suas profundas limitações científicas.

Em meados do século XIX, Charles Darwin publicou sua obra mais importante, na qual postulou que todos os organismos biológicos descendem de um ancestral comum. O mecanismo de mudança proposto foi chamado de seleção natural. Embora não tenha explicitado, Darwin (1859) assumiu que o ser humano fazia parte daquela dinâmica.

Apelar à seleção natural para explicar a conduta humana não parece um exercício equivocado. No fim das contas, a conduta dos demais organismos biológicos também se explica por tal algoritmo. Ademais, o ser humano, com crise existencial e tudo, é um organismo vivo como qualquer outro.

Um dos primeiros esforços em perseguir essa ideia foi a sociobiologia. Tal disciplina empregou a seleção natural não apenas para explicar a evolução da conduta humana em geral, mas especialmente para explicar condutas específicas como a territorialidade, a competição econômica ou a dominação feminina.

Embora a sociobiologia tenha se tornado rapidamente influente, em pouco tempo suas principais limitações também foram expostas. No âmbito da conduta humana, tal disciplina foi criticada por abusar da seleção natural como explicação para formular hipóteses que justificavam desigualdades sociais. Até que ponto isso foi verdade?

Seleção natural e adaptação

Capa do livro A Origem das Espécies de Charles Darwin
O nome completo do livro escrito por Darwin é On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Crédito: Wikimedia Commons.

Em sua obra central, A origem das espécies (1859), Darwin se mostrou a favor da evolução das espécies. Nisso, compartilhou opinião com vários naturalistas da época. No entanto, diferentemente deles, o explorador inglês propôs um mecanismo pelo qual as espécies perduravam ao longo das gerações: a seleção natural.

Naquela obra, Darwin concebeu a seleção natural como a “preservação de variações favoráveis e a rejeição de variações prejudiciais” (p. 81). Tal mecanismo refere-se às forças do entorno (predadores, geografia ou clima) que selecionam os traços que permitem a um organismo sobreviver (Bard, 2022).

Dado que tal conceito explica como as espécies sobrevivem, Darwin (1859) afirmou que “a luta pela existência recai sobre a seleção natural” (p. 60). O exemplo mais popular foi retratado nos tentilhões de Darwin, uma ave encontrada nas ilhas Galápagos cujos bicos haviam sido moldados pelo tipo de alimento disponível em seus entornos.

Os traços que permitem que o organismo sobreviva são chamados de adaptações. Dado que resultam da interação do organismo com seu entorno, as adaptações são de caráter biológico. Por sua importância para o desenvolvimento dos organismos, tal termo é um dos conceitos centrais da biologia contemporânea.

A seleção natural é o termo geral que cobre as influências do meio ambiente no sentido mais amplo que afetam a capacidade de um organismo para se reproduzir. Às vezes é chamada de seleção ecológica para distingui-la da seleção sexual ou de parentesco. A seleção natural ocorre quando eventos tanto dentro quanto fora de um grupo de indivíduos incentivam uma variante em uma população a deixar mais descendência reprodutiva que outra. A seleção natural pode ocorrer porque uma variante animal tem mais possibilidades de sobreviver contra predadores ou capturar presas que outra da mesma espécie, ou pode sobreviver melhor às mudanças climáticas, ou pode acessar uma nova forma de alimento. (Bard, 2022, p. 286)

Demonstrar que um traço é uma adaptação não é tarefa fácil. Geralmente são realizados experimentos que demonstrem que certo traço cumpre uma função adaptativa porque aumenta a aptidão do organismo (Bard, 2022; Futuyma & Kirkpatrick, 2017). Isso ocorre porque encontrar adaptações é algo que devemos demonstrar, em vez de assumir.

Que um traço biológico pareça complexo ou aparente cumprir certa função adaptativa não são motivos suficientes para qualificá-lo como uma adaptação moldada por seleção natural (Bard, 2022; Futuyma & Kirkpatrick, 2017). De fato, é muito provável que a maior parte dos traços biológicos funcionais ao organismo não sejam adaptações.

Tentilhões das ilhas Galápagos
Tentilhões de Darwin ou tentilhões das Galápagos. Darwin, 1845. Crédito: Wikimedia Commons.
O anterior demonstra o íntimo vínculo que, segundo a obra darwiniana, há entre ambas as instâncias: apenas a seleção natural molda adaptações. Em outras palavras, não há adaptações biológicas que não tenham sido moldadas por seleção natural, assim como não há traços moldados por seleção natural que não sejam adaptações biológicas.

O próprio Darwin (1859) foi consciente disso ao definir a seleção natural como o “meio principal, mas não exclusivo” (p. 6) da evolução. Isso também explica por que a literatura científica costuma tratar ambos os conceitos em um mesmo capítulo (Charlesworth & Charlesworth, 2017; Dobzhansky, 1967; Futuyma & Kirkpatrick, 2017).

A síntese moderna como paradigma evolucionista

Quando Darwin (1859) publicou sua obra mais importante, ela não foi imediatamente aceita pela comunidade científica. Tal panorama ocorreu porque o criacionismo ainda era uma oposição forte e, sobretudo, porque não se conheciam os mecanismos da herança genética, base material da evolução biológica (Bowler, 1983).

Foi somente com o surgimento da genética mendeliana que a obra darwiniana começou a ganhar maior crédito dentro da comunidade científica e fora dela. Assim, durante os anos 30 do século passado, a seleção natural foi combinada com os princípios da genética, dando lugar à chamada síntese moderna.

Durante boa parte do século XX, a síntese moderna foi o grande paradigma da evolução biológica. Seus principais representantes foram cientistas como Julian Huxley (que cunhou o termo), Ronald Fisher, Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr, George G. Simpson, John B. S. Haldane e William Donald Hamilton.

Embora tenha sido um marco de trabalho diverso (no qual cada cientista desenvolveu seu próprio enfoque) presente em várias disciplinas (como zoologia, botânica ou paleontologia), caracterizou-se por um princípio fundamental: a seleção natural é o mecanismo suficiente para explicar a evolução de todo organismo vivo (Huxley, 1944).

Refletindo tal ênfase, o biólogo Ernst Mayr (1959) afirmou que “a seleção natural permaneceu […] como o componente mais importante da teoria da evolução e se converteu na pedra angular da teoria sintética moderna da evolução” (p. 10). Atualmente, essa relevância se mantém (Futuyma & Kirkpatrick, 2017).

A ênfase no algoritmo darwiniano fez com que a síntese moderna desenvolvesse duas características com grandes implicações para a evolução humana: seu externalismo, que fortaleceu a influência dos fatores ambientais, e seu genocentrismo, que concebeu o gene como único agente de variação e unidade de herança (Pigliucci & Müller, 2010).

Isso fez com que outras unidades de herança e agentes de mudança fossem subestimados.

Naquele contexto, emergiu uma das disciplinas mais polêmicas da ciência da evolução humana.

O que foi a sociobiologia

Edward Osborne Wilson, pai da sociobiologia
Edward Osborne Wilson, pai da sociobiologia. Créditos: Jim Harrison | PLoS.

Em meados do século XX, o biólogo Edward O. Wilson fundou a sociobiologia. Como tal, foi uma das primeiras disciplinas que empregou a obra darwiniana para estudar a conduta social dos organismos. Nisso, utilizou conceitos como seleção natural, adaptação, aptidão (fitness) e seleção de parentesco.

Tal proposta recebeu grande influência da síntese moderna. De fato, Wilson (1975a) definiu a sociobiologia como “o estudo sistemático da base biológica de toda conduta social” (p. 4). Boa parte de sua obra consiste em revelar a presumida “base genética” das condutas sociais.

Tal influência não se viu unicamente em sua definição, mas também em seus objetivos. Assim, em uma clara tentativa de biologizá-las, o próprio Wilson (1975a) afirmou que “uma das funções da sociobiologia […] é reformular os fundamentos das ciências sociais de uma maneira que atraia esses temas à síntese moderna” (p. 4).

Desde muito cedo foi notório seu darwinismo ortodoxo.

Em sua clássica obra Sociobiology: The New Synthesis, Wilson (1975a) ocupou-se da conduta social animal. Apenas o último capítulo dedicou-se à conduta humana e aos traços adaptativos das organizações sociais. Para seus críticos, o questionável não remete à totalidade da referida obra, mas à sua aplicação ao ser humano (Gould, 1976).

Nesse âmbito, tomando o externalismo e o genocentrismo da síntese moderna, a sociobiologia propôs que nossas condutas sociais foram moldadas por seleção natural. Em princípio, isso não é problemático. Se tal mecanismo molda a conduta de todas as espécies, é lógico supor que também molde nossa conduta.

Justamente, o enfoque sociobiológico consistiu em analisar a conduta social humana como se analisássemos a conduta de qualquer outra espécie ou, nas palavras de Wilson (1975a), “como se fôssemos zoólogos de outro planeta completando um catálogo de espécies sociais na Terra” (p. 547).

Até aqui, nada a objetar.

Nesse teor, uma das perguntas-chave da sociobiologia foi determinar “até que ponto o biograma [humano] representa uma adaptação à vida cultural moderna e até que ponto é um vestígio filogenético” (Wilson, 1975a, p. 548). Em outras palavras, até que ponto nossas condutas são produto da cultura ou da biologia.

O poder dos genes

Livro fundacional da sociobiologia
Livro fundacional da sociobiologia. Crédito: Amazon.

Para resolver aquela dúvida, Wilson (1975a) comparou a conduta humana com a conduta dos primatas. Seu objetivo foi encontrar os traços que subjazem à nossa conduta social. Tal exercício inspirou-se na etologia de Konrad Lorenz, que analisou o ser humano a partir de um olhar zoológico.

A finalidade de tal comparação foi identificar as condutas que se mantêm constantes na ordem Primata e persistem no gênero Homo (como a dominância masculina ou o cuidado materno). Para Wilson (1975a), tais condutas ofereciam “uma base adequada para a formação de hipóteses” (p. 551).

E que condutas ele analisou?

Em seu esquema, a sociobiologia propôs que fenômenos sociais como a divisão sexual do trabalho, a dominância masculina, as hierarquias sociais, a territorialidade, a agressão, a religião, a guerra, o genocídio e a competição econômica tinham uma base genética moldada por seleção natural.

Sobre aquela base, Wilson (1975a) reconheceu a importância da cultura ao afirmar que “apenas no ser humano a cultura se infiltrou completamente em praticamente todos os aspectos da vida” (p. 559). No entanto, em lugar de concebê-la como uma força autônoma, concebeu-a como um traço dependente dos genes.

Nesse marco, Wilson (1978a) enunciou seu famoso lema: “os genes seguram a cultura com uma coleira” (p. 167). Isso revela que os genes mantêm certo poder e explica também por que a sociobiologia conjecturou que as diferenças culturais entre grupos humanos poderiam ser produto de diferenças genéticas.

Embora os genes tenham cedido a maior parte de sua soberania, mantêm certa influência ao menos nas qualidades condutuais que subjazem às variações entre culturas. […] Voltando finalmente à questão da evolução cultural, podemos conjecturar heuristicamente que os traços que se demonstrou serem lábeis são também os que têm mais probabilidades de diferir de uma sociedade humana a outra com base em diferenças genéticas. (Wilson, 1975a, pp. 550-551)

Até esse momento, o enfoque sociobiológico parecia muito razoável: a seleção natural molda a conduta humana, há uma base genética que exerce poder (ainda que não seja determinante) e a cultura é um produto de nossa evolução genética, antes que a causa daquele processo. Tudo parece, digamos, muito darwiniano.

Qual foi, então, o problema?

Se recordarmos o vínculo entre seleção natural e adaptação, notaremos que o dilema em afirmar que nossas condutas foram moldadas por seleção natural reside no fato de que isso implica que os seres humanos temos adaptações biológicas (base genética) que nos predispõem a dominar as mulheres, liberalizar a economia ou invadir países.

O próprio Wilson (1975a) afirmou inclusive que “uma pergunta-chave da biologia humana é se há uma predisposição genética para ingressar em certas classes e desempenhar certos papéis” (p. 554). Sim, aqui os termos classes e papéis referiam-se a classes e papéis sociais. Isso fez com que a sociobiologia superestimasse o poder da herança genética.

A questão de interesse já não é se a conduta social humana está geneticamente determinada, mas até que ponto. A evidência acumulada de um importante componente hereditário é mais detalhada e convincente do que a maioria das pessoas, incluindo os geneticistas, acredita. Eu irei mais longe: já é decisivo. (Wilson, 1978a, p. 19)

Embora o raciocínio sociobiológico tenha sido muito darwiniano, consolidou uma forma de justificar desigualdades sociais, políticas e econômicas entre populações humanas, já que as via como resultado de predisposições genéticas (a famosa base genética) moldadas por seleção natural.

Sem dúvida, foi uma ideia perigosa. Por isso, as críticas não demoraram a chegar. No mesmo ano em que Sociobiology: The New Synthesis veio a público, diversos cientistas se manifestaram contra, apontando aquela que foi sua limitação mais importante: seu caráter especulativo.

Especulações e contos

Por meio de uma carta, Elizabeth Allen e colegas (1975) acusaram a sociobiologia de revitalizar teorias eugenésicas e construir uma nova onda de determinismo biológico via argumentos ad hoc, especulações pré-históricas e exageros das semelhanças entre o ser humano e os primatas.

Não negamos que haja componentes genéticos na conduta humana. Mas suspeitamos que os universais biológicos humanos hão de ser descobertos mais nas generalidades de comer, excretar e dormir que em hábitos tão específicos e altamente variáveis como a guerra, a exploração sexual das mulheres e o uso do dinheiro como meio de intercâmbio. (Allen et al., 1975, p. 44)

Em sua réplica, Wilson (1975b) protestou contra os “enunciados falsos e acusações” da referida carta, a qual considerou um “ataque abertamente partidário”. Para o entomólogo, os autores da missiva interpretaram mal os argumentos de seu livro, o qual revisaram de maneira fragmentada, descontextualizada e distorcida.

No ano seguinte, outra crítica acusou a sociobiologia de formular hipóteses biologicistas ao desatender a evidência etnográfica, favorecer condutas presumidamente universais, exagerar as semelhanças entre humanos e primatas, e elaborar hipóteses incomprováveis e infalseáveis (Sociobiology Study Group, 1976).

Novamente, em outra réplica, Wilson (1976) qualificou as críticas de “vigilantismo acadêmico” (ou seja, de julgar o valor de uma obra por suas convicções políticas). Como se percebe, embora as objeções contivessem um importante aspecto político, desde cedo se tornou habitual acusá-las de estarem totalmente politizadas.

O paleontólogo Stephen Jay Gould
O paleontólogo Stephen Jay Gould. Crédito: Museum of Natural History.

Nesse mesmo ano, o paleontólogo Stephen Jay Gould (1976) destacou que a sociobiologia pecou por determinismo biológico ao pressupor que a seleção natural molda as condutas humanas tal como molda a conduta de outras espécies. Por isso, não forneceu evidência real, mas “argumentos indiretos baseados na plausibilidade” (Gould, 1976).

Tal caráter potencial, aliado ao seu emprego fundamentalista do algoritmo darwiniano, fez com que Gould (1978) batizasse a sociobiologia como “a arte de narrar contos” (just-so stories). E é que grande parte de sua atividade consistiu em inventar contos evolutivos que refletiam a presumida onipotência da seleção natural.

Adicionalmente, em The Mismeasure of Man, Gould (1981a) criticou diversos aspectos da sociobiologia e indicou que seu objetivo (a busca de uma base genética) é um exemplo de determinismo biológico. De fato, suas falhas metodológicas (como a falta de evidência empírica e seu enfoque reducionista) invalidam sua tese central.

Muitas das afirmações de Wilson são mais duvidosas porque ele se baseia em grande medida em uma tradição especulativa, infelizmente seguida amplamente dentro da biologia evolucionista: a just-so story. Dado que supõe que a seleção natural é quase totipotente, resulta legítimo inventar uma história sobre sua ação quando se enfrenta uma conduta adaptativa. Mas suponhamos que a conduta não seja uma adaptação em absoluto, que seja “para” outra coisa, que não seja produto da seleção natural genética. Não podemos provar essas alternativas porque sempre se pode construir histórias genéticas, e Wilson utiliza a própria possibilidade de construção como critério de validade. (Gould, 1981b, p. 288)

Em tom semelhante, partindo de uma ideia similar, o neurobiólogo Steven Rose (1979) afirmou que “toda a estrutura do método e raciocínio empregado pela sociobiologia contém uma série de falhas fundamentais” (p. 279). Para essa crítica, os contos sociobiológicos não são cientificamente válidos porque elaboram modelos fictícios.

Onde está a base genética

O tom conjectural da sociobiologia fez com que os críticos apontassem para uma falta de evidência empírica sobre a base genética das condutas humanas. Isso, que forma a contrapartida de sua natureza hipotética, foi outro de seus vazios mais contundentes, também revelado desde muito cedo (Sociobiology Study Group, 1976).

Um dos primeiros a destacar isso foi o biólogo Richard Lewontin (1976, 1977, 1980), que afirmou que a sociobiologia constituiu um tipo de determinismo biológico (um raciocínio falacioso que superestima o impacto dos genes) que não apresentou evidência real de como a seleção natural molda condutas humanas específicas.

Por esse motivo, Lewontin (1977) qualificou a sociobiologia como uma “ciência política” cujos resultados podiam ser empregados para justificar determinada ordem social. Nesse tom, o crítico também acusou a obra wilsoniana de estar composta de “contos adaptativos meramente imaginários” (Lewontin, 1980).

Não se apresenta nenhuma evidência de uma base genética dessas características, e os argumentos a favor de seu estabelecimento por seleção natural não podem ser provados, já que tais argumentos postulam situações hipotéticas na pré-história humana que são incontroláveis. (Lewontin, 1977, p. 15)

De fato, para Lewontin (1979), a sociobiologia foi um caso extremo de programa adaptacionista porque “assume sem maiores provas que todos os aspectos da morfologia, fisiologia e conduta dos organismos são soluções adaptativas ótimas para os problemas” (p. 6). Isso foi produto de sua ênfase na seleção natural.

Para o final dos anos 70, em um popular ensaio, Gould e Lewontin (1979) criticaram o paradigma adaptacionista (ou panglossiano) que se referiu à onipotência do algoritmo darwiniano como explicação suprema e advogaram por um enfoque plural. Naquele ensaio, a sociobiologia foi mencionada como exemplo de adaptacionismo.

Anos depois, em conferências na Universidade de Utah, Lewontin (1982) reiterou que a sociobiologia atribuiu causas genéticas a condutas humanas específicas, mas não forneceu evidência empírica de que tais condutas se transmitam geneticamente. Por isso, catalogou-a como uma proposta reducionista e determinista (biologicista).

Ao mesmo tempo em que a sociobiologia era aplicada em diversos campos (Barash, 1977; Barlow & Silverberg, 1980; Chagnon & Irons, 1979; Freedman, 1979; King’s College Sociobiology Group, 1982), o vendaval de críticas a converteu em uma das propostas mais combatidas (Caplan, 1978; Gregory et al., 1978; Holtzman, 1977; Ruse, 1976).

Em modo de resposta, Wilson (1978b) declarou estar “surpreso, inclusive assombrado” por toda a rejeição e reafirmou que muitas das críticas basearam-se em mal-entendidos. Para seu fundador, estudar a base genética da conduta humana não foi um ato reducionista, mas redutivo, e a redução é um método da ciência.

Contudo, foi nesse campo que a obra wilsoniana tocou o fundo.

O antropólogo Marshall Sahlins (1977) foi um dos primeiros a advertir que empregar a obra wilsoniana para estudar a conduta humana degenerava em sua ideologização. Para Sahlins (1977), tal exercício produziu uma forma de “sociobiologia vulgar” que concebia os fenômenos socioculturais como fatos biológicos naturais.

Subestimando o impacto da cultura

Livro Sociobiology Examined de Ashley Montagu
Sociobiology Examined de Ashley Montagu. Crédito: Amazon.

Somada ao seu caráter especulativo, outra crítica formulada majoritariamente por antropólogos defendeu que a sociobiologia ignorou o impacto de um fator-chave para entender a evolução de nossa conduta: a cultura.

Para Sherwood Washburn (1978), a sociobiologia cometeu “graves erros quando aplicada à conduta humana” (p. 54). O mais importante foi superestimar o poder da seleção natural e ignorar a evidência arqueológica e histórica que demonstra como diversos fatores culturais moldam nossa conduta.

Justamente por desconhecer o peso de tais fatores e desatender suas evidências, a sociobiologia nunca apresentou provas factuais da base genética das condutas sociais humanas, repetindo os velhos erros da eugenia, do darwinismo social e do racismo científico (Washburn, 1981).

Por outro lado, empregando evidência etnográfica e elaborando modelos matemáticos, Peter Richerson e Robert Boyd (1978) apontaram que, para estudar a conduta do ser humano, não bastava considerar seu genótipo e entorno, mas também seu “cultura-tipo”, isto é, a herança cultural recebida de gerações passadas.

Tal proposta afirmou que muitas condutas humanas não seguem os preceitos da evolução genética (como propôs Wilson), mas da evolução cultural. Por isso, Richerson e Boyd (1978) afirmaram que as predições sociobiológicas estão “sistematicamente equivocadas para o caso humano” (p. 148).

Para a sociobiologia, o individualismo ocidental foi moldado por seleção natural, o que deu lugar a teorias biologicistas sobre a desigualdade econômica. Em contrapartida, para os críticos, a obra wilsoniana ignorou que grande parte de nossa conduta se adquire por transmissão cultural, não por herança genética (Boyd & Richerson, 1980, 1985).

A partir de tal enfoque, em resposta à frase wilsoniana sobre a coleira genética, Richerson e Boyd (2001) responderam que “a cultura está bem alinhada [à coleira genética], mas o cão no final é grande, inteligente e independente, não um poodle de brinquedo bem treinado” (p. 166). Em outras palavras, a cultura é uma força evolutiva autônoma.

O trabalho de Wilson é difícil de aplicar à conduta humana justamente porque esta depende mais da cultura do que da genética. Por isso, Jerome Barkow (1978) afirmou que “a sociobiologia nunca deve ser diretamente aplicada à conduta humana sem considerar o papel da evolução cultural” (p. 15).

Com o tempo, outros antropólogos continuaram destacando aquele problema.

Por exemplo, Marvin Harris (1979) anunciou que os antropólogos de fato aceitam as hipóteses sociobiológicas gerais, mas afirmam que elas apenas explicam uma pequena parte da conduta humana. Assim, diversos fenômenos culturais não podem ser resolvidos mediante os “princípios reducionistas da sociobiologia” (Harris, 1979).

James Silverberg (1980) também acusou a obra wilsoniana de possuir argumentos falaciosos e reducionistas, ignorar que muitas condutas humanas são aprendidas via transmissão cultural (não por herança genética), interpretar mal o conceito de adaptação e minimizar a variabilidade cultural da conduta humana.

A partir de um enfoque histórico, Kenneth Elliott Bock (1980) postulou que uma explicação ótima das diferenças culturais se obtém apelando à história das populações, não à sua biologia. Para Bock (1980), grande parte do interesse wilsoniano pela biologia é produto de uma má compreensão da cultura.

Por sua vez, Ashley Montagu (1981) sustentou que a aplicação da sociobiologia à conduta humana expôs os vieses e preconceitos de seu fundador. Essa crítica também indicou que tal programa descuidou da influência da cultura e da aprendizagem, e superestimou a importância de fatores genéticos sem fornecer maior evidência.

O impacto dessas críticas foi tão grande que o próprio Wilson empreendeu um novo projeto (baseado no conceito de coevolução) que buscou dar maior relevância à cultura (Lumsden & Wilson, 1981). Todavia, insistiu-se em que ela dependia dos genes: “a coleira genética volta a alinhar a cultura” (Lumsden & Wilson, 1983, p. 65).

No clássico livro Not in Our Genes, Lewontin e colegas (1984) tacharam a sociobiologia como um exemplo de determinismo biológico caracterizado por superestimar a presumida influência dos genes na conduta humana (mediante a ênfase na seleção natural) e subestimar o impacto da cultura e da história.

Da mesma forma, em um artigo publicado no Yearbook of Physical Anthropology, Henry Harpending e colegas (1987) destacaram que o enfoque adaptacionista da sociobiologia não foi um defeito casual, mas a consequência de ignorar como certas formas de transmissão cultural moldam condutas humanas.

A pouca atenção da sociobiologia à cultura também foi advertida pelo filósofo Philip Kitcher (1985), que afirmou em seu livro Vaulting Ambition que “os sociobiólogos descuidam de importantes fatores culturais que muito facilmente poderiam moldar a forma da conduta que observamos” (p. 183).

Inclusive o próprio Gould (1986) deu conta de como a obra wilsoniana não pôde fornecer uma explicação sólida das diferenças culturais entre populações, apesar de querer consolidar-se como uma grande teoria da natureza humana. Por isso, Gould (1986) qualificou a sociobiologia como “darwinismo de papelão”.

E é que, para tal disciplina, realmente não há forma de reconhecer a cultura como força autônoma, já que fazê-lo nos afasta dela e nos aproxima de suas teorias rivais. Nesse ponto, o melhor exemplo que expõe o descuido com a cultura e a superestimação da genética se encontra no estudo das diferenças entre homens e mulheres.

Não é sexismo, é a biologia

Livro Not in Our Genes
Not in Our Genes. Crédito: Wikimedia Commons.

Em sua obra central, Wilson (1975a) postulou que a divisão sexual do trabalho (homens caçadores e mulheres coletoras e criadoras) era um fenômeno praticamente universal, visível na maioria das sociedades. Isso lhe bastou para afirmar, em um artigo posterior, que tal divisão “parece ter uma origem genética” (Wilson, 1975c).

Ainda que remeta a fatos passados, aquele biologicismo estaria por trás das brechas de gênero modernas. Nesse tom, Wilson (1975c) afirmou que, mesmo que homens e mulheres tivessem uma educação igualitária, “é provável que os homens sigam desempenhando um papel desproporcional na vida política, nos negócios e na ciência”.

Atenção: tais afirmações não são inocentes.

Tal proposta ocorreu em um contexto ideologicamente denso, no qual se publicaram livros de tom biologizante como The Naked Ape (de Desmond Morris), The Imperial Animal (de Lionel Tiger e Robin Fox), The Hunting Hypothesis (de Robert Ardrey) e The Inevitability of Patriarchy (de Steven Goldberg).

Dentro do marco darwiniano no qual se situou a obra de Wilson, se dizemos que a divisão sexual do trabalho tem uma origem genética, estamos dizendo que as brechas de gênero (trabalhistas ou científicas) não são fenômenos sociais, mas produto de adaptações biológicas moldadas por seleção natural. Isso lhes outorga um caráter determinista.

Todavia, não passou muito tempo para que a sociobiologia fosse criticada por promover um determinismo biológico no campo do gênero ao ignorar a evidência etnográfica que contradiz a presumida universalidade de muitas condutas (Chasin, 1977) ou ao atribuir as diferenças de gênero a diferenças cerebrais (Salzman, 1977).

Então, embora afirme ser científico, Wilson, assim como outros deterministas biológicos, não faz nenhuma tentativa de abordar material que não respalde suas teorias. Isso não é ciência: é propaganda, promovida pela mídia não por seus méritos científicos, mas por suas funções políticas. (Chasin, 1977, p. 30)

[N]este momento não há evidência científica crível de que exista uma base genética para qualquer traço de conduta humana socialmente significativa […] ou para formas sociais em nossa sociedade — e, obviamente, isso inclui diferenças de conduta entre homens e mulheres e papéis sexuais em nossa sociedade. As afirmações feitas até o momento sobre bases genéticas para traços socialmente significativos são metodologicamente defeituosas ou puramente especulativas. (Salzman, 1977, p. 31)

Lewontin (1977) afirmou que a sociobiologia promoveu o sexismo (uma forma de determinismo biológico) ao pretender explicar as diferenças de gênero apelando à evolução biológica por seleção natural. As outras três formas de determinismo biológico são o racismo, o classismo e a doutrina da natureza humana.

Durante os anos 80 e 90, múltiplas análises revelaram que a sociobiologia pecou por determinismo biológico ao enfatizar a seleção natural e descuidar da cultura e de outros fatores sociais (Bleier, 2001; Fetzer, 1985; Gould, 1986; Lewontin, 1991; Rose, 1982, 1997; Rose & Rose, 1986; Ruse, 1985; Segerstråle, 2000; Tang-Martinez, 1997).

O ultradarwinismo e a teorização sociobiológica, especialmente aplicada a sociedades humanas, baseavam-se em evidência empírica instável, premissas defeituosas e pressuposições ideológicas não examinadas sobre os chamados aspectos universais da “natureza humana”. Adicionalmente, tais afirmações deterministas foram imediatamente mobilizadas em apoio aos movimentos políticos neofascistas e de nova direita nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Europa continental. (Rose, 1997, p. viii)

Para o final dos anos 90 e início do novo século, a sociobiologia era praticamente uma disciplina superada. Entretanto, mesmo naquele contexto, houve quem levantasse a voz para defender a obra wilsoniana e declarar, contra todas as evidências, que ela sempre esteve correta.

O ocaso da sociobiologia

Mal entrado o século XXI, o ecólogo condutual John Alcock (2001) afirmou em seu livro pomposamente intitulado The Triumph of Sociobiology que suas críticas estiveram baseadas em múltiplos erros e tergiversações. Assegurava que foram Wilson e seus colegas que realmente ganharam o debate contra seus críticos.

Embora a sociobiologia já não goze de vigência, o estudo darwiniano da conduta humana continuou sob outros nomes: antropologia evolucionista, ecologia condutual, psicologia evolucionista e evolução cultural. Desde logo, são disciplinas que podem chegar a ser muito diferentes em vários aspectos. Recomendo não confundi-las.

Recentemente, houve uma tentativa de repensar as bases teóricas da sociobiologia para compatibilizá-las com mecanismos como a seleção de grupo (Wilson & Wilson, 2007). Contudo, muita água já correu sob a ponte. Outros marcos alcançaram avanços importantes na compreensão da conduta humana (Morales, 2022).

Se acreditam que tudo o que foi apontado é suficiente, enganam-se. Uma crítica recente exumou evidências que puseram em xeque a credibilidade do próprio Wilson.

Diga-me com quem andas

Jean-Philippe Rushton
Jean-Philippe Rushton. Crédito: SPLC.

Em um artigo de opinião publicado na Scientific American, Monica McLemore (2021) afirmou que Wilson teve um “legado complicado” por suas ideias racistas. Tal artigo gerou uma forte polêmica, não apenas por suas afirmações, mas também porque foi publicado logo após o falecimento do pai da sociobiologia.

Um dos primeiros a reagir foi o biólogo Jerry Coyne (2021), que qualificou o artigo de McLemore de “estúpido” e “abertamente ignorante do trabalho de Wilson”, que poderia ter sido escrito por qualquer “ideólogo da justiça social”. Adicionalmente, tachou a Scientific American de ter uma filosofia woke.

Após afirmar que poderia criticar o artigo de maneira sistemática (em sua prosa elegante: “poderia esbravejar eternamente sobre a ignorância desta mulher”), Coyne (2021) defendeu que Wilson pôde ser determinista biológico, mas não racista. Isso se apoia no fato de que o artigo de opinião não forneceu evidência.

Pouco tempo depois de publicado o artigo de McLemore, o blogueiro Razib Khan (2022) publicou uma carta aberta afirmando que Wilson não foi racista. A tal missiva depois se somaram grandes cientistas como o próprio Coyne, Joseph Henrich, Jonathan Losos, David Sloan Wilson, Richard Wrangham, Marlene Zuk e Mary Jane West-Eberhard.

Naquele momento, o debate pelo legado de Wilson se converteu em uma guerra virtual, na qual diversos cientistas e opinadores podiam escolher um lado e enfrentar-se entre si. Como isso foi algo novo, as provas arqueológicas ainda se encontram na web.

Todavia, apesar das reações que o artigo de McLemore gerou no Twitter, que acusavam a Scientific American de ser woke, anticientífica ou esquerdista (ou como o post do biólogo e ativista Colin Wright que afirmou que tal revista “can go fuck itself”), as evidências reais não demoraram a chegar.

Em um artigo publicado na revista Science for the People, Stacy Farina e Matthew Gibbons (2022) apresentaram evidência do vínculo de Wilson com o racismo científico, uma doutrina que afirma que as diferenças entre populações humanas (ou raças, como ainda as chamam alguns de seus defensores) são fundamentalmente genéticas.

Em meados do século XX, o psicólogo J. Philippe Rushton ganhou fama por defender que a personalidade, a criminalidade, o coeficiente intelectual (QI) e a promiscuidade sexual tinham uma base biológica. Rushton também dirigiu a Pioneer Fund, uma instituição acusada de ter apoiado a eugenia, o supremacismo branco e o nazismo.

A evidência em jogo foi o apoio de Wilson a Rushton. Tal apoio chegou na forma de uma carta dirigida aos superiores de Rushton para instá-los a não desvinculá-lo da Universidade de Western Ontario, em razão de suas polêmicas investigações sobre a base genética da diferença de QI entre americanos e afro-americanos.

Em sua carta, Wilson disse, quase em tom demandante, que tal universidade já tinha muitos problemas para querer mais um, relativo à ameaça da liberdade acadêmica, e defendeu que os estudos de Rushton foram avalizados por importantes geneticistas da época. Obviamente, nenhum nome foi mencionado.

O psicólogo não fez mais que agradecer o tremendo gesto.

Farina e Gibbons (2022) contaram também como o apoio de Wilson conseguiu que Rushton publicasse um estudo na prestigiosa Proceedings of the National Academy of Sciences. Nesse processo, Wilson exerceu o papel de editor, solicitando a busca de revisões favoráveis e, posteriormente, aceitando sua publicação.

Diante de um novo pedido de apoio de Rushton para patrocinar outra publicação na Proceedings, desta vez sobre diferenças raciais, Wilson declinou. Mas sua justificativa, devo admitir, me arrancou um sorriso:

Tenho dois colegas aqui, Gould e Lewontin, que utilizariam qualquer desculpa para voltar a apresentar a acusação. Assim, não sou a pessoa adequada para patrocinar o artigo, embora adorasse recomendá-lo a outro membro menos vulnerável da Academia Nacional. (Farina & Gibbons, 2022)

Como se isso não bastasse, Wilson apoiou Rushton contra uma avaliação de sua universidade que qualificou seu desempenho como “insatisfatório”, seu trabalho sobre a base genética das diferenças raciais como “substancialmente defeituoso” e seu histórico de publicações como possuidor de “graves deficiências acadêmicas” (Farina & Gibbons, 2022).

Para Farina e Gibbons (2022), foi o sustentado apoio de Wilson (mediante cartas dirigidas a diretores da universidade e assessoria nas publicações) que permitiu que Rushton continuasse como professor de psicologia em Western Ontario (com tenure) e ganhasse credibilidade na comunidade científica.

O ensaio de McLemore (2021) e as provas apresentadas por Farina e Gibbons (2022) geraram discussões que analisaram se Wilson ou outros acadêmicos vinculados poderiam ter defendido, talvez sem plena consciência, formas de racismo científico (Borrello & Sepkoski, 2022; Carlson, 2022; Hölldobler, 2022).

Evidentemente, tudo isso não faz de Wilson um racista, mas demonstra que ele apoiou alguém que certamente o foi.

Palavras finais

Como se pode ver, a sociobiologia de Wilson padeceu de toda uma série de problemas, a começar por seu caráter especulativo (a invenção de contos evolutivos ou just-so stories), sua falta de evidência empírica (onde está a base genética?), seu descuido com a cultura e sua promoção do adaptacionismo e do determinismo biológico.

As críticas à obra de Wilson não foram unicamente metodológicas ou ideológicas. As grandes limitações da sociobiologia, descobertas após sua aplicação à conduta humana, fizeram com que desde muito cedo algumas críticas questionassem seu caráter científico (Ruse, 1976, 1985).

Ela não foi a única vítima.

A chamada síntese estendida questionou sua antecessora ao revelar que os organismos são agentes de sua própria evolução (não estão simplesmente programados por seus genes) e reconhecer outras formas de herança capazes de gerar mudança (Laland et al., 2014). Uma delas é a herança cultural.

Com efeito, o reconhecimento da cultura como força evolutiva faz parte da síntese estendida (Laland et al., 2014; Laland et al., 2015). Nisso, marcos como a teoria da construção de nicho (Odling-Smee et al., 2003) e a teoria da herança dual (Richerson & Boyd, 2005) alcançaram importantes avanços.

O debate entre paradigmas gerou uma guerra cultural entre cientistas (Buranyi, 2022).

Apesar de tudo o que foi visto, a sociobiologia não desapareceu do imaginário público. É provável que todo aquele que tente elaborar uma explicação darwiniana da conduta humana formule raciocínios sociobiológicos, nos quais a seleção natural desempenha um papel central e a cultura, pois bem, tem um papel secundário, se é que tem algum.

Aquele tipo de esforço cognitivo só pode gerar argumentos adaptacionistas, nos quais qualquer conduta humana (especialmente as que mostram grandes brechas de gênero) será tratada como um produto da evolução biológica, como algo que os humanos carregamos nos genes e não podemos nos livrar.

Um exemplo disso vemos no trabalho divulgativo da filósofa Roxana Kreimer e da neurocientista Marta Iglesias, que costumam elaborar explicações biologicistas e referir-se a propostas sociobiológicas, como a teoria do investimento parental de Robert Trivers.

Mas isso já é outra história, uma que, seguramente, em breve hei de lhes contar.

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Sergio Morales

Sergio Morales

Bacharelado em Antropologia e Mestrado em Epistemologia pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos. Possui publicações em periódicos acadêmicos no Peru, Colômbia, Argentina, Espanha e Reino Unido. Colunista de evolução humana, gênero e epistemologia das ciências sociais. Também aborda o campo da evolução cultural através do projeto “Cultura y Evolución”.