Por que as pessoas se apaixonam por pseudociências (e como os acadêmicos podem lutar contra isso)

Vieses cognitivos arraigados são a causa da crença em pseudociências, assim como o esnobismo invertido sobre o privilégio educacional. Mas devemos lutar contra isso, diz cientista.

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Por Sian Townson
Publicado no The Guardian

A pseudociência está em toda parte – na parte de trás do seu frasco de xampu, nos anúncios que aparecem em seu feed do Facebook (e aos montes na internet), na TV, no nosso dia dia. Declarações ousadas em jargão científico multi-silábico dão a falsa impressão de que elas estão apoiadas por pesquisas de laboratório e fatos concretos.

Pulseiras magnéticas que afirmam melhorar o seu desempenho esportivo, carboidratos que engordam, e todo o tipo de comida que pode dar câncer.

Claro, nós cientistas aceitamos que às vezes as pessoas acreditam em coisas que não concordamos. E isso é bom. Ciência está cheio de pessoas que não concordam com as outras. Se todos nós pensarmos exatamente da mesma maneira, poderíamos nos aposentar e invocar a verdade do status quo.

Mas quando pessoas usam de práticas pseudocientíficas perigosas, como por exemplo, práticas de medicina alternativa e homeopatia, é preciso intervir, entretanto, isto é um trabalho demasiado difícil. Mas, por que?

Nações como o Reino Unido, por exemplo, tem um histórico de desconfiança da “elite social” e dos acadêmicos que estão incluídos sob esse rótulo de privilégio. Muitas pessoas se irritam com a ideia de ouvir aqueles com graus elevados “corrigindo” os menos privilegiados educacionalmente.

Acadêmicos têm uma reputação de serem arrogantes, condescendentes e intolerantes com aqueles cujas especialidades diferem das suas. “Mas, para todos os acadêmicos esnobes que conheci, tem havido muitos humildes, envolventes, entusiastas que amam o que fazem e gostam de falar sobre suas pesquisas.”, disse Sian Townson, doutora em bioquímica.

No entanto, quando um acadêmico/cientista inicia uma pesquisa, ele deverá lutar contra uma crença existente e contra uma série de vieses cognitivos. Não acadêmicos também podem cair nestas armadilhas mentais. Listamo abaixo alguns exemplos de vieses:

• Falácia dos custos irrecuperáveis é a razão pela qual as pessoas que já tenham desperdiçado dinheiro em bilhetes para um péssimo filme também desperdiçam sua noite assistindo. Pode ser a razão que as pessoas comem certos alimentos, mesmo que sejam ruins, ou se casam quando o relacionamento já se desgastou – é o desejo de justificar decisões anteriores usando o próximo. E isso significa que se as pessoas apostam em uma crença  por muito tempo,  e investem energia e amor nas mesmas. Quanto maior o tempo de “investimento” em uma determinada crença ou pseudociência, mais forte será a “pressão interna” para continuar acreditando.  A falácia do custo irrecuperável é um um tipo de erro sistemático mental que é estudado tanto pela Psicologia Econômica quanto pela Economia Comportamental, mas também pode explicar o apego às pessoas a certas crenças.

 Juntamente com o nosso amor por crenças, está o fato de sermos viciados em padrões, e dar sentido ao mundo no processo de busca por estes padrões. Isso nos leva ao viés de confirmação e seleção: procuramos evidências para apoiar uma determinada teoria, e ignoramos evidências que mostram o contrário. Dadas as milhões de coisas individualmente observáveis que lhe acontecem todos os dias, é fácil escolher uma para provar uma ideia que você já tenha se apegado, seja por superstição ou estereótipo.

  A vida cotidiana traz uma série de dados e, por vezes, o seu subconsciente resume-os de forma errada, e acabam fazendo com que você possa cair na ilusão de agrupamento. A ilusão de agrupamento funciona da mesma forma que o fenômeno da pareidolia, mas, ao invés de nosso cérebro enxergar padrões em imagens, ele enxerga padrões em pontos aleatórios ou um aglomerado de pontos.  Mas nossa tendência a enxergar padrões e impor uma ordem a dados aleatórios, torna esses aglomerados muito sedutores. Esta ilusão podem nos levar a identificar padrões que não existem, e isto pode ocorrer no nosso dia a dia de maneira mais comum do que possa imaginar. Por exemplo, foi identificado que, uma determinada região caíram cerca de 5 meteoritos em um intervalo de 10 anos, em uma região de 5 km quadrados. Um grupo de “caçadores de meteoritos” imediatamente irá fazer uma busca neste local e montar um acampamento a espera que caiam mais meteoritos. Eles, na verdade, caíram na ilusão de agrupamento, uma vez que meteoritos podem cair em qualquer lugar da superfície do planeta e nunca em locais específicos. 

 O Efeito Dunning-Kruger foi brutalmente resumido por Darwin como “ignorância gera confiança”. Quanto menos você souber, mais provável você se tornará um “perito no assunto”. Por outro lado, quanto mais você sabe, o mais provável que você a duvide de sua própria competência. Isto significa que algumas pessoas têm superioridade ilusória, e alguns especialistas não conseguem explicar como eles conseguem convencer outras pessoas (e eles mesmo) disso.

“Sempre que houver dinheiro envolvido, a ciência é jogada pela janela.” disse Christian Behrenbruch, professor do RMIT University e que dedica pelo menos três horas por dia para combater a pseudociência.

“Por exemplo, muitas pessoas que investem dinheiro em pequenas empresas públicas geralmente não possuem o conhecimento científico necessário e acabam caindo em seus próprios vieses cognitivos  –  uma vez que eles se viciam, continuarão viciados.”

“A outra área é a saúde. Quando um paciente está com uma doença com poucas chances de cura e com cujas condições de tratamento estão ficando cada vez mais escassas, a tendência a tentar qualquer tratamento alternativo, como a homeopatia e outros métodos pseudocientíficos. A parte confusa desta equação é o conceito de esperança humana – e que, infelizmente, é o que mina a ciência cada vez mais. Esperamos que algo funcione, acreditamos que algo vai funcionar.”

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