Quem é o seu especialista?

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Créditos: Times Higher Education.

Em um trecho de “The Boxer”, um dos seus maiores sucessos, Simon e Garfunkel cantam “tudo mentira e brincadeira / mas mesmo assim um homem ouve o que quer ouvir / e descarta o resto”[I]. Sem que soubessem (eu presumo), os músicos estavam descrevendo um fenômeno cognitivo que tem sido bem estudado na atualidade: o viés de confirmação.

O viés de confirmação é uma inclinação que temos em procurar evidências e razões que corroborem nossas crenças preexistentes, ou decisões que já tomamos, enquanto passamos longe de argumentos contrários a elas, ou os rejeitamos deliberadamente. No debate político brasileiro contemporâneo, por exemplo, o viés de confirmação contribui para que as pessoas tenham certeza de que seus candidatos ou partidos políticos preferidos são honestos ou, pelo menos, “não tão ladrões quanto os outros”.

Tenho me interessado por um tipo bem peculiar de viés de confirmação, que frequentemente embaça debates sobre ideias científicas: a seleção a la carte de experts. O que isto significa? Basicamente, “os melhores especialistas são aqueles que corroboram o que eu penso, e por isso eu recorro a eles para defender as minhas ideias”. Ou, como diz o título de uma recente palestra do biólogo e youtuber Pirula: “a ciência só está certa quando concorda comigo”.

Somos epistemicamente dependentes de muitas outras pessoas (médicos, mecânicos, cientistas, contadores, etc) devido a dificuldade – a impossibilidade, na verdade – que temos em entender todos os assuntos que são relevantes para a nossa vida. Assim, se não conseguimos saber tudo, é importante desenvolver a capacidade de reconhecer, na medida das possibilidades, as pessoas que verdadeiramente conhecem mais do que a maioria de nós sobre diversos temas.

Há poucos dias, enquanto eu navegava pelo Facebook, vi uma alegação extraordinária em uma página mantida por um sujeito que é, supostamente, um médico, isto é, um especialista em saúde humana. O médico em questão escreveu que a AIDS é uma doença autoimune, associada à “energia dos rins fragilizada”, que por sua vez está relacionada ao medo. O que isto significa, para a presente discussão? Que qualquer ideia, por mais bizarra ou mal fundamentada que seja, encontra o acolhimento de algum “especialista”. Pense em outras alegações pouco plausíveis, ou claramente falsas: Terra plana, criação das espécies animais e vegetais na mesma forma em que elas se encontram hoje, ausência de relação entre o cigarro e diversos tipos de câncer, alienígenas reptilianos disfarçados de humanos vivendo entre nós – todas elas recebem o respaldo de alguém, e este alguém em certos casos é tido como um “especialista” no assunto.

Como, então, identificar um especialista? Epistemólogos contemporâneos têm escrito a respeito do assunto, e vou apresentar alguns sinais que indicam que estamos diante de um especialista “de verdade”. Quando escrevo “sinais”, quero dizer que esta tarefa não é sempre simples, mas vou tratar de características discutidas por autores como Massimo Pigliucci[II] e David Coady[III][IV] como elementos muitas vezes presentes naqueles que podem ser chamados de experts.

Um especialista, em termos gerais, é alguém que conhece mais, está melhor informado, e tende a tomar melhores decisões com base nas informações que têm sobre o seu assunto do que a maior parte das pessoas, ou da maior parte das pessoas de um determinado local. Conhecer mais significa ter melhores argumentos ou estar a par das melhores evidências sobre uma dada questão ou sobre uma área específica.

Para uma pessoa leiga que está avaliando a confiabilidade de um expert, é algumas vezes difícil identificar se os seus argumentos são bons ou não. Consideremos, por exemplo, alguém muito bom em retórica, mas cujo discurso é parcamente amparado por boas razões ou evidências consistentes. Aos olhos de uma pessoa de fora da área em discussão, pode ser que a capacidade que o sujeito tem de expor suas ideias e defende-las o qualifique como um especialista no assunto. Por isso, há um elemento adicional a ser destacado aqui: como os pontos de vista deste expert se relacionam com os de outros, ou com o consenso (quando ele existe) da comunidade de especialistas no assunto?

Certamente, a maior parte dos especialistas em um assunto pode estar errada – e isso é reconhecido até por quem ressalta a importância dos experts no mundo contemporâneo, como Tom Nichols[V], que dedicou um capítulo de seu livro a discutir os erros de especialistas. No entanto, não parece sensato considerar um expert em virologia alguém que, contra os resultados de décadas de pesquisa na área e um forte consenso médico, defende a alegação de que o HIV não tem qualquer relação com a AIDS, por exemplo, ou que conclui que a AIDS é uma doença autoimune.

A avaliação da confiabilidade de um especialista também pode receber o apoio do que Pigliucci chama de “evidência independente de que o expert é mesmo um expert”, o que significa verificar suas credenciais técnicas, acadêmicas ou profissionais, e analisar se elas estão em consonância com a área de atuação do expert. Existem biólogos capazes de consertar carros, mas em geral é razoável deixar esta atividade para mecânicos, enquanto que planos de manejo de fauna tendem a ser melhor executados pelos primeiros.

Outro sinal que auxilia a identificação de um expert são os seus vieses pessoais. De fato, todos temos vieses, sejam ideológicos, políticos, sociais, financeiros, cognitivos (como o viés da confirmação), entre outros. Por isso, qualquer trabalho científico (filosófico, econômico, etc.) vai ser influenciado, de alguma maneira, pelos vieses de seus autores[VI]. Apesar disso, alguns vieses parecem ser mais explícitos, e têm relação direta com a área ou o assunto ao qual se dedica o especialista. Os resultados de uma pesquisa financiada por uma indústria tabagista para testar se o consumo de cigarros pode estar relacionado ao aparecimento de doenças cardiovasculares e a cânceres, por exemplo, são suspeitos[VII] – embora não necessariamente estejam errados.

Por último, é interessante verificar o histórico do especialista em questão, ou seja, o sucesso passado em questões relacionadas a sua área de conhecimento ou atuação. Como acontece com todos os sinais anteriores de identificação de especialistas confiáveis, este também não é infalível. Mesmo assim, tendemos naturalmente a nos guiar por essa característica em nosso dia-a-dia: não marcamos consulta com um médico que sabemos ter um histórico recente ruim em diagnosticar doenças, e tampouco vamos a um dentista que frequentemente danifica a gengiva de seus pacientes durante um procedimento.

Em resumo, podemos fazer uma apreciação da confiabilidade de um especialista – seguindo os passos de Pigliucci e Coady (e Goldman) – examinando (a) a qualidade de seus argumentos/razões/evidências, (b) como as suas posições se ajustam com a de outros especialistas na área, (c) evidências independentes de que o sujeito é, de fato, um especialista, (d) a existência de potenciais vieses que são relevantes à questão em discussão, e (e) o seu histórico.

Deveríamos sempre calibrar nossos pontos de vista de acordo com as palavras dos especialistas? Não necessariamente, mas em muitas situações é mais razoável dar ouvidos àqueles que entendem mais de um determinado assunto – notadamente se há um forte consenso[VIII] entre eles – do que nos agarrarmos com unhas e dentes a ideias que sempre defendemos, muitas vezes sem consultar verdadeiros especialistas no assunto. Uma boa sugestão é considerar o ceticismo “moderado” de Bertrand Russell[IX]: “(1) quando os especialistas estão de acordo, a opinião contrária não pode ser tida como certa; (2) quando não estão de acordo, nenhuma opinião pode ser considerada correta por um não-especialista; e (3) quando todos afirmam que não existem bases suficientes para a existência de uma opinião positiva, o homem comum faria melhor se suspendesse seu julgamento”.

Especialistas podem estar enganados – não custa repetir isso – e consensos entre eles podem se mostrar frágeis e, eventualmente, equivocados. Por isso, mais do que confiança cega em suas palavras, devemos prestar atenção e tentar entender o que os especialistas indicam, as potenciais fragilidades de seus argumentos e as mudanças em suas posições, quando ocorrerem. No entanto, partir do princípio de que a conclusão de um consenso de especialistas pode mostrar-se falsa não é o mesmo que afirmar que ela é falsa, ou que tem que ser falsa, ou que um dia certamente será demonstrada falsa. Por ora, seguindo o que ensinou Russell, é melhor fazer um esforço sincero para encontrar os verdadeiros experts e o seu consenso (se ele existir) e considerar, com moderação, a sua posição como mais provável do que aquela do “especialista” que escolhemos a dedo – com uma ajuda de nosso viés de confirmação – porque ela reflete aquilo que queremos que seja verdade.

[I] “All lies and jest / Still a man hears what he wants to hear / And disregards the rest”

[II] PIGLIUCCI, M. Nonsense on stilts: how to tell science from bunk. Chicago: The University of Chicago Press, 2010. (o tema é tratado no capítulo 12 da obra, “Who’s your expert?”, e boa parte da discussão que desenvolvo se baseia neste capítulo)

[III] COADY, D. What to believe now: applying epistemology to contemporary issues. Malden: Blackwell, 2012. (Capítulo 2, “Experts and the laity”)

[IV] Tanto Pigliucci quanto Coady utilizam (mas não necessariamente concordam com) critérios apresentados por Alvin Goldman, particularmente seu artigo “Experts: which one should you trust?”, disponível em http://kutrov.web.elte.hu/tudhat/11_goldman.pdf

[V] NICHOLS, T. The death of expertise: the campaign against established knowledge and why it matters. Nova York: Oxford University Press, 2017. (o livro inteiro é dedicado à questão da expertise, mais especificamente em um fenômeno contemporâneo identificado por Nichols: o frequente desprezo pelas considerações de especialistas nas mais variadas áreas do conhecimento humano)

[VI] O que não significa que seus resultados não possam ser confiáveis. A ciência, como argumentam filósofos contemporâneos como David Harker (em “Creating Scientific Controversies”, de 2015), trata de diluir esses vieses ao longo tempo, considerando que muitos trabalhos científicos passam por processos de revisão por pares não apenas no momento de sua publicação, mas são constantemente avaliados, direta ou indiretamente, por pessoas de locais, ideologias, afiliação religiosa, etc. distintas. Quantas pessoas, por exemplo, não puderam testar ou trabalhar com algumas das assunções da teoria evolutiva desde a publicação de Darwin em 1859 – em áreas como a genética, a paleontologia, o comportamento animal, a botânica, etc.?

[VII] Para quem se interessa pela “controvérsia” da relação entre o consumo de cigarro e diversas doenças, e por como a opinião pública foi enganada por pesquisadores financiados por empresas tabagistas, uma boa leitura é “Merchants of doubt”, de Naomi Oreskes e Erik Conway.

[VIII] Deveríamos calibrar nossas opiniões de acordo com o consenso de especialistas? Embora não trate diretamente deste tema no presente texto, assumo que geralmente sim, pelo menos em questões complexas para leigos. Para pensar sobre o assunto, vale a leitura do artigo de Goldman citado anteriormente, e também “When experts disagree”, de David Coady, disponível em http://muse.jhu.edu/article/209433

[IX] RUSSELL, B. Ensaios céticos. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 16. (trabalho publicado originalmente em 1928).

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