Um feto foi preservado dentro de uma múmia egípcia porque ficou em ‘conserva’, dizem cientistas

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Renderização volumétrica do feto a partir da interpretação de dados de TC. Créditos: Ejsmond et al., J. Archaeol. Sci., 2022.

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

No ano passado, os arqueólogos apresentaram uma novidade incrível: a descoberta de um feto mumificado dentro da barriga de sua antiga mãe egípcia mumificada.

Quem era a mulher e como ela morreu há pouco mais de 2.000 anos ainda são mistérios – por isso ela é conhecida como a Senhora Misteriosa. Mas agora sabemos como o feto foi preservado. De acordo com uma nova pesquisa do Projeto Múmia de Varsóvia, a preservação ocorreu através da acidificação do corpo da mulher enquanto ela se decompunha.

Como os pesquisadores colocaram de forma tão fácil de entender, o processo é semelhante a conservar um ovo.

“O feto permaneceu no útero intocado e começou a, digamos, entrar em ‘conserva’. Não é a comparação mais estética, mas transmite a ideia”, explicou a equipe de pesquisa, liderada pela bioarqueóloga Marzena Ożarek-Szilke, da Universidade de Varsóvia, na Polônia, e o arqueólogo Wojciech Ejsmond, da Academia Polonesa de Ciências, em uma publicação no blog. “O pH do sangue em cadáveres, incluindo o conteúdo do útero, cai significativamente, tornando-se mais ácido, as concentrações de amônia e ácido fórmico aumentam com o tempo. O preenchimento do corpo com natrão [uma mistura de sal coletada de leitos de lagos secos] limitou significativamente o acesso de ar e oxigênio. O resultado final é um útero quase hermeticamente fechado contendo o feto”.

A questão de saber se o que eles encontraram era realmente um feto foi colocada pelo radiologista Sahar Saleem, da Universidade do Cairo, no Egito, que escreveu uma resposta à descoberta inicial. Ela observou que nenhum osso pode ser detectado nos exames da múmia e, portanto, a identificação de um feto deve ser inconclusiva.

Mas isso não é inesperado, argumentou Ożarek-Szilke e sua equipe. Os ossos fetais são muito pouco mineralizados durante os dois primeiros trimestres, o que significa que são difíceis de detectar após passarem por processos tafonômicos (ou de preservação). Ossos fetais são ainda difíceis de encontrar durante as escavações arqueológicas.

Além disso, os processos de acidificação que teriam ocorrido dentro do cadáver da Senhora Misteriosa à medida que seu corpo se decompunha teriam desmineralizado ainda mais os já delicados ossos fetais.

Não é diferente do processo natural de mumificação que ocorre em turfeiras, onde o ambiente altamente ácido deixa em ‘conserva‘ os tecidos moles, mas desmineraliza os ossos.

Tomografia computadorizada do feto no útero; A é a cabeça e B é a mão. Créditos: Ejsmond et al., J. Archaeol. Sci., 2022.

“Esse processo de desmineralização óssea em um ambiente ácido pode ser comparado a um experimento com um ovo”, escreveram os pesquisadores. “Imagine colocando um ovo em uma panela cheia de ácido. A casca do ovo está se dissolvendo, deixando apenas o interior do ovo (albúmen e gema) e os minerais da casca dissolvidos no ácido”.

A razão pela qual o corpo da Senhora Misteriosa e o corpo do feto são diferentes nesse quesito é porque eles mumificavam de maneira diferente. A senhora foi mumificada usando natrão, uma mistura de sal natural que os antigos egípcios usavam para secar e desinfetar os corpos. O feto, em seu útero selado, foi mumificado no ambiente ácido resultante.

Além disso, os minerais lixiviados dos ossos do feto teriam sido depositados nos tecidos moles do próprio feto e no útero ao redor dele, resultando em um conteúdo mineral maior do que o esperado. Isso significa que esses tecidos teriam maior radiodensidade nas tomografias.

Os resultados sugerem que talvez outras múmias grávidas possam estar escondidas à vista de todos em coleções de museus ao redor do mundo. As varreduras de múmias geralmente identificam ossos e amuletos colocados dentro de seus invólucros. Observando cuidadosamente os tecidos moles, outras múmias podem ser identificadas.

Por sua vez, isso pode ajudar arqueólogos e antropólogos a descobrir por que o feto foi deixado intacto quando os outros órgãos internos da Senhora Misteriosa foram removidos para o processo de mumificação.

“Talvez tenha algo a ver com crenças e renascimento na vida após a morte”, disse Ożarek-Szilke à Science in Poland. “Ainda é difícil tirar conclusões, pois não sabemos se esta é a única múmia grávida. Por enquanto, é definitivamente a única múmia egípcia grávida conhecida”.

A análise da equipe também determinou que, devido à posição do feto e à condição de fechamento do canal de parto, a mulher não morreu no parto. Análises anteriores descobriram que a Senhora Misteriosa tinha entre 20 e 30 anos quando morreu, e sua gravidez estava entre 26 e 30 semanas.

“A Senhora Misteriosa morreu junto com o feto e, ao examiná-la, restauramos sua memória”, escreveram os pesquisadores. “Lembramos que foi uma pessoa que viveu há muito tempo, teve seus sonhos, provavelmente entes queridos e foi amada. Agora ela nos revela os segredos que levou consigo para o túmulo”.

A pesquisa foi publicada no Journal of Archaeological Science.