Beth Harmon existiu e seu nome era Bobby Fischer

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“Foi Bobby Fischer quem, sozinho, fez o mundo reconhecer que o xadrez em seu nível mais alto era tão competitivo quanto o futebol, tão emocionante quanto um duelo até a morte, tão esteticamente satisfatório quanto uma bela obra de arte, tão intelectualmente exigente como qualquer forma de atividade humana.” — Harold Schonberg, crítico e jornalista do New York Times

No auge da Guerra Fria na década de 1960, um jovem prodígio do xadrez americano enfrentou sozinho uma máquina de xadrez soviética que dominou o jogo por décadas. Quando adolescente, ele aprendeu russo sozinho para que pudesse ler artigos de revistas sobre seus rivais. Sua ascensão implacável culminou na conquista do Campeonato Mundial de Xadrez, em um confronto que foi apelidado de “o match do século”. Tamanha foi a beleza de uma de suas vitórias que o derrotado adversário juntou-se à multidão para aplaudi-lo.

Se você é uma das milhões de pessoas que assistiram à série O Gambito da Rainha da Netflix, essa história pode soar familiar. Muito tem sido escrito sobre Beth Harmon – o talento ficcional do xadrez interpretado de forma tão soberba por Anya Taylor-Joy – sendo um modelo para as enxadristas em formação. Ainda assim, ironicamente, sua personagem foi amplamente baseada em um homem que é considerado por muitos o maior enxadrista de todos os tempos: Bobby Fischer.

Assim como Harmon, Fischer também teve uma infância conturbada 

Beth Harmon nasceu em 1948, 5 anos depois de Bobby, e nunca conheceu seu pai. Quando sua mãe morre em um acidente de carro, ela é enviada para um orfanato. Como Harmon, o pai de Fischer não estava por perto durante sua juventude e sua mãe era um personagem complexo que, entre outras coisas, foi investigado pelo FBI por ligações com o comunismo. Ao contrário de Harmon, Fischer não cresceu em um orfanato, mas sua mãe era uma moradora de rua quando ele nasceu e mais tarde ele abandonou a escola cedo para se dedicar ao xadrez. Foi Joan, sua irmã mais velha, que comprou um tabuleiro de xadrez para ele, ensinou-lhe os movimentos e mais tarde o acompanhou a torneios no exterior.

Enquanto Harmon olhava para peças imaginárias no teto acima de sua cama quando criança, Fischer inicialmente jogava xadrez sozinho em Nova York. Quando Harmon é colocada sob a proteção do zelador enxadrista em seu orfanato, ele lhe dá uma cópia de Modern Chess Openings. Coincidentemente, o primeiro mentor de Fischer, Jack Collins, foi um co-escritor do livro.

Esperanças americanas contra a supremacia soviética

Beth é uma leitora voraz, devorando todos os livros de xadrez que consegue encontrar. E quando um amigo lhe traz uma pilha de livros para estudar, ela lhe diz que já leu quase todos eles. Mais tarde, para promover suas ambições, ela estuda russo, usando-o para espionar seus rivais em um torneio.

Da mesma forma, Fischer aprendeu russo sozinho para que pudesse estudar xadrez com a extensa literatura soviética. Durante um torneio internacional, Mikhail Tal perguntou o que ele achava da atual safra de enxadristas e ficou surpreso quando Bobby começou a dar seu veredicto sobre vários jogadores que eram considerados desconhecidos fora da União Soviética (Fischer havia lido sobre eles em revistas de xadrez soviéticas).

Bobby Fischer se tornou o campeão dos Estados Unidos aos 14, ainda o mais jovem a conquistá-lo. Beth ganhou o título nacional em 1967, aos 18 anos (curiosamente no ano em que Fischer conquistou seu oitavo e último título americano). Na vida real, apenas Bobby Fischer (14), Gata Kamsky (17) e Hikaru Nakamura (17) conquistaram o título numa idade ainda mais jovem do que Beth.

Bobby e Beth são vistos como a grande esperança do Ocidente contra os soviéticos, embora a atenção de Harmon esteja focada durante toda a série em apenas um campeão mundial (Vasily Borgov), enquanto que para Fischer era necessário encarar nada menos que cinco campeões mundiais soviéticos (Botvinnik, Tal, Smyslov, Petrosian e Spassky) antes de conquistar o Campeonato Mundial de Xadrez.

Foi durante a Guerra Fria dos anos 60 – uma intensa batalha de vontades entre os EUA e a URSS – que Fischer fez seu nome no glamoroso mundo do xadrez internacional. Ele se deleitou com toda a intriga, até mesmo alegando à Sports Illustrated em 1963 que os enxadristas soviéticos “conspiravam” uns com os outros perdendo ou empatando jogos de boa vontade para permitir que jogadores favoritos avançassem para as partidas finais. (Um movimento que é exagerado na série, com jogadores soviéticos realmente combinando suas estratégias para derrotar Beth).

As semelhanças não se limitam às 64 casas do tabuleiro

As semelhanças não param por aqui. Durante sua ascensão no mundo do xadrez, Harmon viaja para a Cidade do México e começa a chorar depois de perder para o número 1 do mundo fictício, Vasily Borgov. Em 1960, aos 17 anos, Fischer viaja para a América do Sul e, embora termine em primeiro lugar em um torneio na Argentina, chora depois de ser derrotado por Boris Spassky em uma das partidas do campeonato.

Outra coisa que Fischer compartilhou com Beth foi a paixão pela moda: ele amadureceu de adolescente desajeitado para um confiante número 1 do mundo com uma queda por ternos de grife. Um dos motivos pelos quais Beth não tem dinheiro suficiente para viajar é porque ela compra muitos vestidos. Fischer, apesar de estar sempre querendo dinheiro, mandou fazer seus ternos e sapatos sob medida.

Finalmente, Beth e Bobby têm estilos de jogo agressivos semelhantes. Quando jogam de brancas e enfrentam a Defesa Siciliana, os dois jogam no mesmo sistema: o Ataque Fischer-Sozin. Muito parecido com Harmon, Fischer era implacável e intimidante. Certa vez, ele se gabou para Dick Cavett em uma entrevista que não apenas gostava de vencer seus oponentes – ele adorava o momento em que quebrava o ego de um homem.

Fischer não era realmente um viciado em calmantes como Beth, embora ele tenha morrido de câncer de fígado aos 64 anos, possivelmente relacionado ao abuso de álcool. A rejeição da religião por Harmon quando um grupo cristão se ofereceu para patrocinar suas viagens também se refletiu na juventude de Fischer, embora ele tenha se tornado um fanático religioso nos seus últimos anos.

Enquanto Harmon representa uma versão feminina de Fischer, Borgov encarna um Spassky mais velho

Se Beth é mais parecida com o filho prodígio americano Bobby Fischer, então Borgov é mais parecido com o oponente de Fischer no Campeonato Mundial de Xadrez de 1972: o soviético Boris Spassky. Não sabemos muito sobre o personagem de Borgov, além do fato de que ele foi campeão mundial muito antes de Beth ser capaz de enfrentá-lo.

Spassky também dominou o xadrez no final dos anos 60 e 70. Ele venceu seu primeiro Campeonato Mundial em 1969, aos 32 anos, e enfrentou Fischer 3 anos depois. Isso tornaria Spassky um pouco mais jovem do que Marcin Dorociński (de 47 anos), que interpreta Borgov. (Fischer tinha quase 30 anos e era mais velho do que Beth; a série claramente queria demarcar com mais nitidez as idades de ambos os oponentes).

Borgov parece encarnar um Spassky mais velho, cuja partida com seu oponente americano também chama a atenção do mundo – não apenas por causa das tensões entre Estados Unidos e União Soviética, mas por causa da história de ambos os jogadores: assim como Borgov, Spassky havia derrotado Fischer (Beth) várias vezes antes de seu confronto em 1972. Após uma vitória, Spassky lembrou-se de deixar Fischer chorando. (Esse seria o segundo jogo de Beth contra Borgov).

Harmon vs Borgov nada mais é do que uma recriação do “match do século” entre Fischer e Spassky em 1972

No episódio final de O Gambito da Rainha, Beth realiza seu sonho de viajar a Moscou para jogar um torneio contra os melhores enxadristas do mundo. O ano é 1968. Depois de brilhantemente vencer os mais poderosos Grandes Mestres soviéticos, ela finalmente derrota Borgov na partida final e se torna uma celebridade internacional do xadrez. Embora os próprios enxadristas dessa histórica partida sejam ficcionais, na vida real o xadrez também se tornou um palco para as tensões da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Em 11 de julho de 1972, o oito vezes campeão americano de xadrez Bobby Fischer enfrentou o até então campeão mundial de xadrez Boris Spassky no que ficou conhecido como “o match do século”. Por 24 anos ininterruptos, os soviéticos detinham o título do Campeonato Mundial. A partida aconteceu em Reykjavik, Islândia. Para a União Soviética, a supremacia no tabuleiro de xadrez era uma demonstração – segundo seus governantes – da superioridade de seus sistema socialista sobre o capitalista ocidental.

O match se estendeu por meses e durou 21 jogos. Finalmente, em 1º de setembro, o americano se sagrou campeão. Fischer venceu com tamanho brilhantismo e talento que se tornou um representante inexpugnável de grandeza no mundo dos jogos competitivos. “Foi Bobby Fischer quem, sozinho, fez o mundo reconhecer que o xadrez em seu nível mais alto era tão competitivo quanto o futebol, tão emocionante quanto um duelo até a morte, tão esteticamente satisfatório quanto uma bela obra de arte, tão intelectualmente exigente como qualquer forma de atividade humana”, escreveu Harold Schonberg, que relatou a partida para o New York Times, em seu livro de 1973, Grandmasters of Chess. A vitória de Fischer foi amplamente vista pelos governantes dos Estados Unidos como um triunfo simbólico da democracia sobre o comunismo e transformou o novo campeão em um improvável herói americano.

As semelhanças entre os confrontos são imensas. Harmon entra nessa partida sem vitórias contra Borgov – assim como Fischer contra Spassky (antes do match, Fischer havia jogado cinco partidas contra Spassky, empatando duas e perdendo três). Beth rompe seu repertório de abertura normal, surpreendendo Borgov com um Gambito da Rainha. Fischer também lançou uma surpresa na abertura da rodada 6 do match, jogando 1.c4 em vez de seu tradicional 1.e4 e fazendo a transição para um… Gambito da Rainha! Quando Beth vence, Borgov se junta à multidão para aplaudi-la de pé – assim como Spassky o fez para Fischer após a rodada 6. Também pode ser notado que a partida entre Harmon e Borgov teve um adiamento e foi depois de um adiamento na rodada 21 do match entre Fischer e Spassky que Boris abandonou a partida e renunciou ao título mundial.

Se O Gambito da Rainha continuar a se inspirar em Bobby Fischer, teremos um fim dramático para Beth Harmon

Desculpa pelos spoilers da trama, mas se a já cogitada segunda temporada de O Gambito da Rainha continuar a se inspirar em Fischer, a história subsequente será cheia de drama e tristeza. Depois de derrotar Spassky em 1972, Fischer perdeu seu título mundial por se recusar a jogar contra Anatoly Karpov e não voltou a jogar xadrez em público por mais 20 anos, quando saiu de uma longa reclusão para uma revanche de US $ 5 milhões contra seu antigo rival, Boris Spassky. Embora a partida não tenha sido sancionada, uma faixa foi colocada proclamando que era o Campeonato Mundial de Xadrez. Fischer venceu com folga, mas o match não atraiu muitos aplausos.

Depois da revanche contra Spassky, Fischer tornou-se cada vez mais recluso e errático. Em 11 de setembro de 2001, ele disse a um apresentador de um programa de rádio em Baguio, nas Filipinas, que os ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono eram “notícias maravilhosas”, desejando que o país fosse tomado pelos militares, para que fechassem todas as sinagogas, prendessem todos os judeus e executassem centenas de milhares de líderes judeus. Em 2004, Fischer foi brevemente detido em uma prisão japonesa depois de tentar embarcar em um voo usando um passaporte americano revogado. Ao saber de sua situação, o ex-rival Spassky escreveu ao presidente dos Estados Unidos George W Bush pedindo misericórdia a Fischer e, se isso não fosse possível, que o colocasse na mesma cela com Fischer junto com peças de xadrez e um tabuleiro.

Fischer morreu na Islândia em 2008 aos 64 anos, um ano para cada casa do tabuleiro de xadrez. Alguns acreditam que ele é o maior enxadrista da história. Certamente, ele é o mais enigmático. Existe uma teoria de que o xadrez o deixou louco. Outros dizem que ajudou a mantê-lo são. A história de Beth Harmon em O Gambito da Rainha é fantástica. Mas o conto da vida real de Fischer é tão colorido e o legado de sua brilhante mas breve carreira meio século atrás ainda causa ondas no mundo do xadrez atualmente.

Alguns feitos notáveis da carreira de Robert James “Bobby” Fischer (1943-2008):

Aos 13 anos, jogou a “Partida do Século” num torneio de Mestres em 1956 contra Donald Byrne, onde demonstrou com brilhantismo como se ataca no xadrez, por meio de um método vigoroso com direito a interessantes sacrifícios e a sequências de jogadas semelhantes ao pêndulo (quando uma série de xeques descobertos e diretos feitos por duas peças, em geral uma sendo um bispo, mutila uma boa parte do exército adversário);

Aos 14 anos, venceu o Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos pela primeira vez, tornando-se o campeão americano mais novo da história. Ele viria a conquistar o torneio 8 vezes (em 8 participações), recorde jamais superado até hoje.

Aos 15 anos e 6 meses, tornou-se o mais jovem Grande Mestre até então e o mais jovem até hoje a participar do Torneio de Candidatos.

Aos 20 anos, venceu o Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1963–64 com rating performance acima de 3000 e uma pontuação de 11/11, a única pontuação perfeita da história do torneio.

Aos 27 anos, venceu o Torneio Interzonal de 1970 por uma margem recorde de 3½ pontos.

Aos 28 anos, venceu o Torneio de Candidatos de 1971, com um desempenho jamais igualado na história da competição. Nas quartas de finais, venceu Mark Taimanov (9º melhor do mundo na época) por 6×0 num match melhor de 10, algo até então inédito na história da competição. Nas semifinais, venceu Bent Larsen (3º melhor do mundo na época) novamente por 6×0 num match melhor de 10. Na grande final, venceu Tigran Petrosian (6º melhor do mundo na época) por 6,5×2,5 num match melhor de 12. Até hoje, é o único enxadrista a vencer por 6×0 dois matches num Torneio de Candidatos.

Aos 29 anos, tornou-se campeão mundial de xadrez, quebrando uma hegemonia soviética de 24 anos ininterruptos. Após recusar-se a defender seu título em 1975, a hegemonia soviética voltou e durou até o indiano Viswanathan Anand vencer o Mundial FIDE de 2000.

Entre a 17ª rodada do Torneio Interzonal de 1970 e a primeira vitória na final do Torneio de Candidatos de 1971, venceu 20 jogos consecutivos, mais um recorde jamais superado até hoje.

Em julho de 1972, alcançou um rating de 2785, 125 pontos à frente 2º melhor do mundo na época, Boris Spassky, que tinha 2660, uma diferença jamais igualada até hoje entre os melhores jogadores do mundo.

De dezembro de 1962 até o fim da sua carreira, em 1992, venceu todos os torneios que disputou, exceto dois, nos quais terminou em segundo lugar: Capablanca Memorial (1965), vencido por Boris Spassky e Piatigorsky Cup (1966), vencido por Vasily Smyslov.

Fez inúmeras contribuições adicionais para o xadrez. Seu livro Bobby Fischer ensina xadrez, publicado em 1966, é o livro de xadrez mais vendido de todos os tempos, com mais de um milhão de cópias vendidas. Na década de 1990, patenteou um sistema modificado de relógio de xadrez, que adiciona um incremento no tempo após cada movimento, sendo hoje a prática padrão em torneios de alto nível. Também é de sua invenção uma variante do jogo chamada “xadrez aleatório de Fischer” (também conhecida como “Chess960”).

Em eleição feita pelo Sahovski Informator, o principal periódico internacional de xadrez, foi considerado pelos Grandes Mestres o melhor enxadrista do século XX, à frente de Garry Kasparov.

Curiosidades extras sobre a série:

As partidas de xadrez da série foram modeladas a partir de partidas reais

Embora a própria Beth seja uma personagem fictícia, os jogos inesquecíveis que ela joga não o são. Muitos são baseados em competições da vida real, como a partida em que ela derrotou Harry Beltik pelo título de campeão estadual do Kentucky, que é derivado de um jogo de 1955 disputado em Riga, Letônia. O confronto final da série, no qual ela enfrenta o campeão soviético Vasily Borgov, foi disputado em Biel, na Suíça, em 1993. Entre as partidas mais surpreendentes da vida real na série está o último jogo de xadrez rápido de Beth contra Benny Watts, que foi jogado na Ópera de Paris em 1858.

Para garantir a verossimilhança desses jogos e desse mundo insular, a Netflix contratou Bruce Pandolfini, um campeão de xadrez amplamente considerado o mais ilustre professor de xadrez dos Estados Unidos. Pandolfini treinou vários campeões para se destacarem durante o século XX, tornando-o a escolha perfeita para ensinar os membros do elenco como jogar.

Ele também aconselhou sobre outras características da série, incluindo como seriam os torneios de xadrez durante o período – relógios, movimentos de escrita, locais, estilos das peças, vestimentas e modos de agir dos espectadores, etc. O resultado final é provavelmente uma das representações mais fiéis do jogo na tela.

Garry Kasparov, o “Ogro de Baku”, também trabalhou como consultor da série

Por meio de Pandolfini, o espetáculo pôde consultar Garry Kasparov, um dos maiores enxadristas de todos os tempos e também uma ex-criança prodígio. O Grande Mestre de xadrez aparentemente trabalhou mais no desenvolvimento de jogos autênticos para Beth jogar, que foram inspirados, mas não copiados diretamente, de grandes mestres reais do esporte. Surpreendentemente, ele também deu à produção algumas dicas sobre tópicos para os quais ele não foi inicialmente contratado.

Kasparov menciona como o programa originalmente pretendia retratar Borgov viajando para o exterior com sua família sem nenhum agente da KGB o acompanhando, algo que não seria realista para a União Soviética dos anos 1960. Ele também explicou que em uma cena em que Beth se aproxima de vários amadores jogando xadrez em Moscou, os jogadores não se referem a ela pelo nome completo, mas a chamam de “Lisa”, o método soviético preferido para se referir a pessoas chamadas Elizabeth.

Essas mudanças, entre várias outras, podem não ter sido inovadoras ou particularmente perceptíveis para o público americano. No entanto, do outro lado do Atlântico, elas foram incrivelmente bem recebidos na Rússia, onde muitos elogiaram a série por sua qualidade e representação autêntica da sociedade e cultura de seu país.

Afinal, o xadrez era imensamente popular na União Soviética nas décadas de 1950 e 60, quando mais de sete ou oito dos dez melhores enxadristas do mundo vieram do país. No momento em que este artigo foi escrito, a Rússia ainda tem mais do que o dobro de Grandes Mestres e Mestres Internacionais que qualquer outro país.

O “Gambito da Rainha” é o nome de uma abertura real no xadrez

O “Gambito da Rainha” é uma das jogadas de abertura mais antigas registadas na história do xadrez, que remonta ao século XV. O lance envolve o sacrifício do peão do bispo da dama (o peão na frente do bispo à esquerda da dama), em uma tentativa de obter o controle do centro do tabuleiro. Walter Tevis o escolheu como título de sua obra, publicada em 1983 e recentemente adaptada para a minissérie da Netflix.

Ganhar o controle do centro do tabuleiro é geralmente um objetivo muito importante no jogo de xadrez. De um modo geral, qualquer jogador que conseguir controlar as quatro casas centrais do tabuleiro tenderá a ser capaz de comandar melhor o resultado de um jogo de xadrez. Isso ocorre porque qualquer peça no centro do tabuleiro tem mais opções para mover do que uma que está em outro lugar. Além disso, controlar o centro do tabuleiro fornece “cobertura” para suas outras peças, permitindo que elas viajem muito mais rápido para o outro lado. Ao comandar essa área crítica do tabuleiro de xadrez, seu oponente terá mais dificuldade em contra-atacar quaisquer ataques que você possa configurar.

O “Gambito da Rainha” é muito popular graças à sua habilidade de ataque muito potente. É um movimento muito agressivo que frequentemente força o oponente a uma posição mais defensiva. A jogada é excelente se você for o tipo de jogador que se diverte em colocar pressão constante sobre seu oponente. Mantendo esse tipo de pressão, você forçará seu oponente a contra-atacar seus movimentos e ele terá menos probabilidade de formular e montar um ataque ao seu exército.

Embora a própria Beth possa não ser real, sua árdua batalha contra o sexismo é muito real

No início da série, vemos os organizadores do torneio zombar de Beth, tentando dissuadi-la de competir. Em sua primeira luta no Campeonato Estadual de Kentucky, Beth enfrenta a única outra competidora, que explica que as mulheres devem competir entre si antes de poderem competir com os homens. Essa atitude sexista era onipresente na época, atingindo até mesmo e especialmente os escalões superiores do esporte, com os principais luminares do xadrez insistindo que as mulheres nunca escalariam as mesmas alturas que os homens. Em uma entrevista de 1963, Fischer disse que as jogadoras são “terríveis”, com a provável explicação de que “elas não são tão espertas”.

Até o Campeonato Mundial de Xadrez de 1986, quando Susan Polgar lutou para se classificar e remover a palavra “masculino” do título, o campeonato era aberto apenas para competidores do sexo masculino. Mais de três décadas depois, apenas uma mulher já competiu pelo título do campeonato: Judit Polgar, amplamente considerada a melhor enxadrista de todos os tempos, que, em 2005, competiu bravamente, mas não conseguiu levar o prêmio principal.

A próxima Beth Harmon pode ser você

Embora O Gambito da Rainha não faça rodeios ao descrever as lutas de Beth para superar o sexismo inerente ao esporte, ele também postula que uma campeã feminina pode ser abraçada em todo o mundo, com Beth amada por fãs apaixonados em todos os lugares, de Paris a Moscou. Ao escrever o romance, Tevis vislumbrou um futuro mais brilhante para o xadrez, onde o respeito pudesse ser concedido às jogadoras e a igualdade governasse um dia.

A história de Beth pode ser ficção, mas isso não significa que não existam mulheres reais que possam dominar o esporte. Na verdade, existem atualmente 37 mulheres classificadas como Grande Mestres, e não há como dizer quantas mais estão em formação. Claro, não há uma “Beth Harmon da vida real” agora, mas provavelmente ela está lá fora – talvez até treinando em um porão de orfanato com um zelador, apenas se preparando para nocautear todo mundo.

Alguns feitos notáveis da carreira de Elizabeth BethHarmon (1948):

Aos 10 anos, venceu todos os doze membros do clube de xadrez da Duncan High School em partidas simultâneas.

Aos 14 anos, venceu o Campeonato Estadual de Xadrez de Kentucky de 1963, derrotando jogadores fortíssimos como Townes (1724 pontos de rating), Sizemore (2050 pontos de rating) e Beltik (2150 pontos de rating e atual campeão estadual da época). 

Aos 15 anos, venceu o Torneio de Cincinnati de 1963, derrotando na final o fortíssimo Mestre Nacional Rudolph.

Aos 17 anos, derrotou os fortíssimos Grandes Mestres Georgi Girev (da União Soviética), Octavio Marenco (da Itália) e Diedrich (da Áustria) durante o Mexico City Invitational de 1966, terminando o torneio em 2º lugar.

Aos 18 anos, venceu o Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1967, derrotando na final o fortíssimo Grande Mestre Benny Watts (atual campeão nacional da época e considerado o enxadrista americano mais talentoso desde Paul Morphy).

Aos 19 anos, derrotou os fortíssimos Mestres Internacionais A. Bergland (da Noruega), P. Darga (da França), S. Malovicz (da Iugoslávia) e R. Uljanov (da União Soviética) durante o Paris Invitational de 1967, terminando o torneio em 2º lugar.

Aos 20 anos, venceu o Moscow Invitational de 1968, derrotando todos os Grandes Mestres mais fortes do mundo – Hellstrom (da Suécia), Duhamel (da França), Flento (da Itália), Laev e Shapkin (da União Soviética) – e dois campeões mundiais – Luchenko (ex-campeão mundial) e Borgov (atual campeão mundial da época), ambos da União Soviética.

Entre a primeira partida do Campeonato Estadual de Xadrez de Kentucky de 1963 e a final do Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1966, permaneceu três anos seguidos sem perder uma partida sequer, até ser derrotada pelo atual campeão nacional da época Benny Watts.

De novembro de 1963 a dezembro de 1966, perdeu apenas três partidas oficiais: a final do Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1966 (para Benny Watts) e as finais do Mexico City Invitational de 1966 e do Paris Invitational de 1967 (para Borgov).

Textos que inspiraram a criação desse artigo:

O Gambito da Rainha: conheça a verdadeira Beth Harmon… Bobby Fischer

Quem é a verdadeira Beth Harmon do xadrez?

O Gambito da Rainha é realmente a “versão feminina” de Bobby Fischer?

O Gambito da Rainha é baseado na história verídica de vários enxadristas, incluindo o autor do livro

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