O Gambito da Rainha: Vasily Borgov existiu e seu nome era Boris Spassky

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“Qual eu prefiro? Sexo ou xadrez? Depende da posição.” — Boris Spassky

“Tem um jogador que me assusta. O russo. Borgov”, diz Beth Harmon, a prodígio do xadrez americano na série original da Netflix, O Gambito da Rainha. O drama sobre uma jovem órfã com problemas com drogas e álcool e um talento improvável é construído em torno da história de sua carreira no xadrez nos anos 60. Seus rivais são todos homens, sendo o principal um luminar soviético, o campeão mundial de xadrez Vasily Borgov. Ele é focado e econômico com suas emoções, prefere a escola clássica ao jogo intuitivo e, em geral, parece sólido e monolítico em comparação com os outros oponentes de Beth. Ele é o melhor jogador do mundo. Pelo menos inicialmente.

O Gambito da Rainha é uma história completamente inventada e não há um único jogador de xadrez real entre os oponentes da desafiante americana. Ainda assim, os protagonistas têm protótipos bastante semelhantes. Incluindo Borgov, é claro. Então, quem é a verdadeira figura por trás do fictício Grande Mestre soviético?

Enquanto Beth Harmon representa uma versão feminina do americano Bobby Fischer, Vasily Borgov encarna o soviético Boris Spassky

O candidato mais provável é Boris Spassky, décimo campeão mundial de xadrez e duas vezes campeão da União Soviética. Os fãs de xadrez perceberam imediatamente as semelhanças nas características e táticas de Borgov. Spassky era famoso por sua técnica de final de jogo e confundiu seus oponentes com sua Variação Fechada da Defesa Siciliana favorita (Beth é informada sobre essas “armadilhas” enquanto se prepara para sua partida com Borgov). Como Borgov, Spassky era famoso por seu confronto com um americano – Bobby Fischer, o lendário “astro do rock” do xadrez. O encontro deles em 1972 foi popularmente apelidado de “O Match do Século”.

Spassky começou a jogar xadrez aos cinco anos em um orfanato onde, com seus irmãos, viveu durante os anos de guerra. Depois da guerra, o menino passou a frequentar o pavilhão de xadrez do parque, passando o dia todo ali como um possesso. Em apenas um ano, alcançou o ranking Classe A, tornando-se o mais jovem detentor da classificação no país. Aos 18 anos, tornou-se o mais jovem Grande Mestre até então e em 1969, aos 32 anos, foi coroado campeão mundial de xadrez, derrotando Tigran Petrosian na final por 12½ a 10½. A essa altura, Spassky já havia jogado contra Fischer em várias ocasiões e nunca havia perdido. As partidas contra Fischer eram nervosas e tensas. Como na história da Netflix, ele levou seu oponente às lágrimas em um torneio de xadrez (esse seria o segundo jogo de Beth contra Borgov).

Harmon vs Borgov nada mais é do que uma recriação do “Match do Século” entre Fischer e Spassky

As semelhanças entre os confrontos Harmon vs Borgov e “O Match do Século” entre Fischer e Borgov são imensas. Harmon entra nessa partida sem vitórias contra Borgov – assim como Fischer contra Spassky (antes do match, Fischer havia jogado cinco partidas contra Spassky, empatando duas e perdendo três). Beth rompe seu repertório de abertura normal, surpreendendo Borgov com um Gambito da Rainha. Fischer também lançou uma surpresa na abertura da rodada 6 do match, jogando 1.c4 em vez de seu tradicional 1.e4 e fazendo a transição para um… Gambito da Rainha!

Quando Beth vence, Borgov se junta à multidão para aplaudi-la de pé – assim como Spassky o fez para Fischer após a rodada 6. Também pode ser notado que a partida entre Harmon e Borgov teve um adiamento e foi depois de um adiamento na rodada 21 do match entre Fischer e Spassky que Boris abandonou a partida e renunciou ao título mundial.

Essa competição foi o auge da carreira de Spassky. Ele recebeu uma taxa de US $ 93.000  pela partida, com a qual comprou um carro de luxo Volga M 21 e logo se mudou para a França – Spassky nunca foi perdoado em seu próprio país por sua derrota e as autoridades se recusavam a pagar por suas viagens para torneios. Sua carreira continuou por mais 20 anos, após os quais Spassky retornou à Rússia e se dedicou a popularizar o xadrez no país. Ele agora tem 83 anos e mora em Moscou.

Anatoly Karpov: a esperança soviética contra Fischer

Karpov se parece menos com Borgov do que Spassky, mas, como afirma o prefácio do romance homônimo de Walter Tevis (que a série adapta para a tela), o autor inspirou-se nesses três Grandes Mestres do Xadrez: Spassky, Fischer e Karpov. Isso não é nenhuma surpresa, já que Karpov foi o melhor jogador de xadrez do mundo por uma década, a partir de 1975. Ele também tinha a reputação de ser o líder socialista no xadrez.

Seus confrontos com os adversários frequentemente terminavam em furor, com acusações de pressão psicológica e envolvimento de parapsicólogos durante as partidas. Viktor Korchnoi (quatro vezes campeão da União Soviética que fugiu do país e se estabeleceu na Suíça) escreveu em sua autobiografia que costumava colocar óculos escuros “para privar Karpov de sua atividade favorita: ficar à mesa olhando seu oponente diretamente nos olhos. Enquanto eu estava usando óculos, ele só conseguia ver seu próprio reflexo”.

Karpov começou a jogar xadrez aos 4 anos, ensinado por seu pai, um engenheiro militar. Em 1963, como um dos jovens jogadores de xadrez mais talentosos do país, foi admitido na Escola Botvinnik, dirigida pelo patriarca da escola de xadrez soviética. Na época, Mikhail Botvinnik desdenhou do jovem Karpov: “O menino não tem a menor noção sobre xadrez e não há futuro para ele nesta profissão”. Mas ele estava muito errado: posteriormente, Karpov se tornaria o 12º campeão mundial de xadrez. Seu estilo de jogo pode ser descrito como um avanço calmo, sem pressa, mas sólido, sem ataques bruscos, não deixando oportunidade para contra-ataque. A própria “escola soviética”, da qual Beth Harmon tinha tanto medo.

Após a famosa derrota de Spassky em 1972 por Bobby Fischer, Karpov se tornou a principal esperança do xadrez soviético. Ele não conseguiu, no entanto, enfrentar Fischer: o americano se recusou a jogar (o que foi automaticamente considerado uma derrota) depois que a Federação Internacional de Xadrez não cumpriu seus termos para o torneio. Karpov passou quase 2 anos conduzindo negociações não oficiais para que o match acontecesse, mas não deu em nada. Karpov tornou-se o único campeão mundial da história que não apenas recebeu seu título sem participar de um match ou torneio do campeonato mundial, mas também o único que jamais jogou uma única partida contra o campeão anterior. Posteriormente, ele demonstrou sua reivindicação legítima ao título em várias ocasiões em vários torneios.

Além disso, durante todos esses anos, Karpov combinou sua carreira no xadrez com outras atividades. Formou-se em economia 10 anos depois, em 1978, já campeão mundial, mas fez bom uso de sua formação acadêmica. Além de deputado, também foi banqueiro e empresário. Hoje, Karpov se preocupa principalmente com a política e, em particular, com as questões étnicas. É também considerado um dos filatelistas mais famosos da Comunidade dos Estados Independentes – estima-se que a sua coleção de selos valha pelo menos 13 milhões de euros.

Alguns feitos notáveis da carreira de Boris Vasilievich Spassky (30/01/1937):

Aos 10 anos, derrotou o campeão soviético da época e futuro campeão mundial Mikhail Botvinnik, em uma exibição de partidas simultâneas.

Aos 15 anos, tornou-se o mais jovem Mestre Soviético até então, um recorde que seria igualado posteriormente por Anatoly Karpov.

Aos 18 anos, venceu o Campeonato Mundial Júnior de Xadrez de 1955, tornando-se o mais jovem Grande Mestre até então e o mais jovem enxadrista a se classificar para o Torneio de Candidatos (ambos os recordes seriam quebrados posteriormente por Bobby Fischer).

Aos 23 anos, venceu o Torneio Mar del Plata de 1960 sem perder uma partida sequer, dividindo o primeiro lugar com Bobby Fischer e lhe impondo sua única derrota no campeonato.

Aos 24 anos, venceu o Campeonato Soviético de Xadrez de 1961, marcando 14½ pontos em 21 possíveis (10 vitórias, 9 empates e apenas 1 derrota).

Aos 27 anos, venceu o Torneio Interzonal de 1964, marcando 17 pontos em 23 possíveis (13 vitórias, 8 empates e 2 derrotas) e dividindo o primeiro lugar com Vasily Smyslov, Bent Larsen e Mikhail Tal.

Aos 28 anos, venceu o Torneio de Candidatos de 1965, derrotando Paul Keres (9º melhor do mundo na época) nas quartas de finais (6 a 4), Efim Geller (10º melhor do mundo na época) nas semifinais (5½ a 2½) e Mikhail Tal (2º melhor do mundo na época) na grande final (7 a 4).

Aos 31 anos, venceu o Torneio de Candidatos de 1968, derrotando Efim Geller (11º melhor do mundo na época) nas quartas de finais (5½ a 2½), Bent Larsen (9º melhor do mundo na época) nas semifinais (5½ a 2½) e Viktor Korchnoi (2º melhor do mundo na época) na grande final (6½ a 3½).

Aos 32 anos, venceu o Campeonato Mundial de Xadrez de 1969, derrotando o campeão mundial da época Tigran Petrosian por um placar de 12½ a 10½ (6 vitórias, 13 empates e 4 derrotas).

Aos 36 anos, venceu o Campeonato Soviético de Xadrez de 1973, marcando 11½ pontos em 18 possíveis (7 vitórias, 9 empates e apenas 1 derrota).

Derrotou seis campeões mundiais de xadrez clássico pelo menos duas vezes (não necessariamente enquanto eles reinavam): Vasily Smyslov, Mikhail Tal, Tigran Petrosian, Bobby Fischer, Anatoly Karpov e Garry Kasparov.

Foi campeão olímpico oito vezes e conquistou doze medalhas gerais: 8 de ouro, 2 de prata e 2 de bronze.

É, até a data da publicação desse artigo, o mais velho ex-campeão mundial de xadrez vivo, com 84 anos.

“O Match do Século” que disputou contra Bobby Fischer em 1972 foi o Campeonato Mundial de Xadrez mais visto de toda a história, com cobertura midiática em todos os países do mundo.

Alguns feitos notáveis da carreira de Anatoly Yevgenyevich Karpov (23/05/1951):

Aos 15 anos, tornou-se o mais jovem Mestre Soviético até então, igualando o recorde anteriormente detido por Boris Spassky.

Aos 18 anos, venceu o Campeonato Mundial Júnior de Xadrez de 1969 sem perder uma partida sequer, tornando-se o primeiro jogador soviético desde Boris Spassky a ganhar o torneio.

Aos 20 anos, venceu o Torneio Memorial Alekhine de 1971, ficando à frente de dezesseis dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Boris Spassky, Viktor Korchnoi, Tigran Petrosian, Vasily Smyslov, Mikhail Tal e David Bronstein.

Aos 22 anos, venceu o Torneio Interzonal de 1973 sem perder uma partida sequer, marcando 13½ pontos em 17 possíveis (10 vitórias, 7 empates e nenhuma derrota) e dividindo o primeiro lugar com Viktor Korchnoi.

Aos 23 anos, venceu o Torneio de Candidatos de 1974, derrotando Lev Polugaevsky (9º melhor do mundo na época) nas quartas de finais (5½ a 2½), Boris Spassky (4º melhor do mundo na época) nas semifinais (7 a 4) e Viktor Korchnoi (3º melhor do mundo na época) na grande final (12½ a 11½). Após Fischer se recusar a participar do Campeonato Mundial de Xadrez de 1975, tornou-se pela primeira vez campeão mundial de xadrez.

Aos 24 anos, venceu o Torneio de Milão de 1975, ficando à frente de onze dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Tigran Petrosian, Mikhail Tal, Lajos Portisch, Bent Larsen e Svetozar Gligoric.

Aos 25 anos, venceu o Campeonato Soviético de Xadrez de 1976, marcando 12 pontos em 17 possíveis (8 vitórias, 8 empates e apenas 1 derrota).

Aos 27 anos, venceu o Torneio das Estrelas de Montreal de 1979, ficando à frente de oito dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Lajos Portisch, Boris Spassky, Bent Larsen e Jan Timman. Dos dez melhores jogadores da época, apenas Bobby Fischer (que estava recluso na época) e Viktor Korchnoi (que estava sendo boicotado pela Federação Soviética de Xadrez) não participaram do torneio.

Aos 30 anos, venceu o Campeonato Mundial de Xadrez de 1981, derrotando o campeão do Torneio de Candidatos de 1980/1981 Viktor Korchnoi por um placar esmagador de 11 a 7 (6 vitórias, 10 empates e apenas 2 derrotas). Sua vitória sobre Korchnoi foi tão avassaladora que o match ficou conhecido como “Massacre de Merano”.

Aos 32 anos, venceu o Campeonato Soviético de Xadrez de 1983, marcando 9½ pontos em 15 possíveis (5 vitórias, 9 empates e apenas 1 derrota).

Aos 37 anos, venceu o Campeonato Soviético de Xadrez de 1988 sem perder uma partida sequer, marcando 11½ pontos em 17 possíveis (6 vitórias, 11 empates e nenhuma derrota) e dividindo o primeiro lugar com Garry Kasparov.

Aos 42 anos, venceu o Torneio de Linhares de 1994, um dos super torneios mais fortes da história do xadrez, sem perder uma partida sequer. Nove dos dez melhores jogadores da época participaram: Garry Kasparov (1º), Anatoly Karpov (2º), Viswanathan Anand (3º), Alexei Shirov (4º), Vassily Ivanchuk (5º), Vladimir Kramnik (6º), Gata Kamsky (7º), Evgeny Bareev (8º) e Boris Gelfand (9º). Além disso, dentre os catorze participantes, estavam cinco campeões mundiais (Garry Kasparov, Anatoly Karpov, Viswanathan Anand, Vladimir Kramnik e Veselin Topalov) e a maior enxadrista da história (Judit Polgár).

Foi o jogador número um do mundo durante 102 meses, um recorde superado apenas por Garry Kasparov e Magnus Carlsen, que permaneceram no topo por 255 e 134 meses (até a data de publicação desse artigo), respectivamente.

Foi campeão olímpico nove vezes e conquistou dez medalhas gerais: 9 de ouro e 1 de prata. Representou a União Soviética em seis Olimpíadas, e em todas elas a URSS conquistou a medalha de ouro por equipe.

É, até hoje, o maior campeão de super torneios da história do xadrez, com mais de 100 títulos conquistados. Durante a década de 1970, chegou a vencer 9 super torneios de forma consecutiva, um recorde superado apenas por Garry Kasparov, que conquistou 15 super torneios seguidos na década de 1980.

Seu desempenho no Torneio de Linhares de 1994 é considerado um dos maiores de todos os tempos. Com 9 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota, faturou o título com 11 pontos em 13 possíveis, 2½ pontos à frente de Garry Kasparov e Alexei Shirov. Seu rating performance de 2985 pontos é, até hoje, o terceiro maior da história do xadrez, atrás apenas dos 3002 pontos alcançados por Magnus Carlsen no Torneio de Pearl Spring de 2009 e dos 3103 pontos alcançados por Fabiano Caruana na Copa Sinquefield de 2014.

Curiosidades extras sobre a série:

As partidas de xadrez da série foram modeladas a partir de partidas reais

Embora a própria Beth seja uma personagem fictícia, as partidas inesquecíveis que ela joga não são. Muitos são baseados em competições da vida real, como a partida em que ela derrotou Harry Beltik pelo título de campeão estadual do Kentucky, que é derivado de um jogo de 1955 disputado em Riga, Letônia. O confronto final da série, no qual ela enfrenta o campeão soviético Vasily Borgov, foi disputado em Biel, na Suíça, em 1993. Entre as partidas mais surpreendentes da vida real na série está o último jogo de xadrez rápido de Beth contra Benny Watts, que foi jogado na Ópera de Paris em 1858.

Para garantir a verossimilhança dessas partidas e desse mundo insular, a Netflix contratou Bruce Pandolfini, um campeão de xadrez amplamente considerado o mais ilustre professor de xadrez dos Estados Unidos. Pandolfini treinou vários campeões para se destacarem durante o século XX, tornando-o a escolha perfeita para ensinar os membros do elenco como jogar.

Ele também aconselhou sobre outras características da série, incluindo como seriam os torneios de xadrez durante o período – relógios, movimentos de escrita, locais, estilos das peças, vestimentas e modos de agir dos espectadores, etc. O resultado final é provavelmente uma das representações mais fiéis do jogo na tela.

Garry Kasparov, o “Ogro de Baku”, também trabalhou como consultor da série

Por meio de Pandolfini, o espetáculo pôde consultar Garry Kasparov, um dos maiores enxadristas de todos os tempos e também uma ex-criança prodígio. O Grande Mestre de xadrez aparentemente trabalhou mais no desenvolvimento de partidas autênticas para Beth jogar, que foram inspiradas, mas não copiadas diretamente, de Grandes Mestres reais do esporte. Surpreendentemente, ele também deu à produção algumas dicas sobre tópicos para os quais ele não foi inicialmente contratado.

O programa originalmente pretendia retratar Borgov viajando para o exterior com sua família sem nenhum agente da KGB o acompanhando, algo que Kasparov apontou que não seria realista para a União Soviética dos anos 1960. Ele também explicou que em uma cena em que Beth se aproxima de vários amadores jogando xadrez em Moscou, os jogadores não se referem a ela pelo nome completo, mas a chamam de “Lisa”, o método soviético preferido para se referir a pessoas chamadas Elizabeth.

Essas mudanças, entre várias outras, podem não ter sido inovadoras ou particularmente perceptíveis para o público americano. No entanto, do outro lado do Atlântico, elas foram incrivelmente bem recebidos na Rússia, onde muitos elogiaram a série por sua qualidade e representação autêntica da sociedade e cultura de seu país.

Afinal, o xadrez era imensamente popular na União Soviética nas décadas de 1950 e 60, quando mais de sete ou oito dos dez melhores enxadristas do mundo vieram do país. No momento em que este artigo foi escrito, a Rússia ainda tem mais do que o dobro de Grandes Mestres e Mestres Internacionais que qualquer outro país.

O “Gambito da Rainha” é o nome de uma abertura real no xadrez

O “Gambito da Rainha” é uma das jogadas de abertura mais antigas registadas na história do xadrez, que remonta ao século XV. O lance envolve o sacrifício do peão do bispo da dama (o peão na frente do bispo à esquerda da dama), em uma tentativa de obter o controle do centro do tabuleiro. Walter Tevis o escolheu como título de sua obra, publicada em 1983 e recentemente adaptada para a minissérie da Netflix.

Ganhar o controle do centro do tabuleiro é geralmente um objetivo muito importante no jogo de xadrez. De um modo geral, qualquer jogador que conseguir controlar as quatro casas centrais do tabuleiro tenderá a ser capaz de comandar melhor o resultado de um jogo de xadrez. Isso ocorre porque qualquer peça no centro do tabuleiro tem mais opções para mover do que uma que está em outro lugar. Além disso, controlar o centro do tabuleiro fornece “cobertura” para suas outras peças, permitindo que elas viajem muito mais rápido para o outro lado. Ao comandar essa área crítica do tabuleiro de xadrez, seu oponente terá mais dificuldade em contra-atacar quaisquer ataques que você possa configurar.

O “Gambito da Rainha” é muito popular graças à sua habilidade de ataque muito potente. É um movimento muito agressivo que frequentemente força o oponente a uma posição mais defensiva. A jogada é excelente se você for o tipo de jogador que se diverte em colocar pressão constante sobre seu oponente. Mantendo esse tipo de pressão, você forçará seu oponente a contra-atacar seus movimentos e ele terá menos probabilidade de formular e montar um ataque ao seu exército.

Embora a própria Beth possa não ser real, sua árdua batalha contra o sexismo é muito real

No início da série, vemos os organizadores do torneio zombar de Beth, tentando dissuadi-la de competir. Em sua primeira luta no Campeonato Estadual de Kentucky, Beth enfrenta a única outra competidora, que explica que as mulheres devem competir entre si antes de poderem competir com os homens. Essa atitude sexista era onipresente na época, atingindo até mesmo e especialmente os escalões superiores do esporte, com os principais luminares do xadrez insistindo que as mulheres nunca escalariam as mesmas alturas que os homens. Em uma entrevista de 1963, Bobby Fischer disse que as jogadoras são “terríveis”, com a provável explicação de que “elas não são tão espertas”.

Até o Campeonato Mundial de Xadrez de 1986, quando Susan Polgár lutou para se classificar e remover a palavra “masculino” do título, o campeonato era aberto apenas para competidores do sexo masculino. Mais de três décadas depois, apenas uma mulher já competiu pelo título do campeonato: Judit Polgár, que, em 2005, competiu bravamente, mas não conseguiu levar o prêmio principal.

A próxima Beth Harmon pode ser você

Embora O Gambito da Rainha não faça rodeios ao descrever as lutas de Beth para superar o sexismo inerente ao esporte, a série também postula que uma campeã feminina pode ser abraçada em todo o mundo, com Beth amada por fãs apaixonados em todos os lugares, de Paris a Moscou. Ao escrever o romance, Tevis vislumbrou um futuro mais brilhante para o xadrez, onde o respeito pudesse ser concedido às jogadoras e a igualdade governasse um dia.

A história de Beth pode ser ficção, mas isso não significa que não existam mulheres reais que possam dominar o esporte. Na verdade, existem atualmente 38 mulheres classificadas como Grande Mestres, e não há como dizer quantas mais estão em formação. Claro, não há uma “Beth Harmon da vida real” agora, mas provavelmente ela está lá fora – talvez até treinando em um porão de orfanato com um zelador, apenas se preparando para nocautear todo mundo.

Alguns feitos notáveis da carreira de Elizabeth Beth” Harmon (02/11/1948):

Aos 10 anos, derrotou todos os doze membros do clube de xadrez da Duncan High School em partidas simultâneas.

Aos 14 anos, venceu o Campeonato Estadual de Xadrez de Kentucky de 1963, derrotando jogadores fortíssimos como Townes (1724 pontos de rating), Sizemore (2050 pontos de rating) e Beltik (2150 pontos de rating e campeão estadual da época). 

Aos 15 anos, venceu o Torneio de Cincinnati de 1963, derrotando na final o fortíssimo Mestre Americano Rudolph.

Aos 17 anos, foi vice-campeã do Mexico City Invitational de 1966, derrotando os fortíssimos Grandes Mestres Georgi Girev (da União Soviética), Octavio Marenco (da Itália) e Diedrich (da Áustria).

Aos 18 anos, venceu o Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1967, derrotando na final o fortíssimo Grande Mestre Benny Watts (campeão americano da época).

Aos 19 anos, foi vice-campeã do Paris Invitational de 1967, derrotando os fortíssimos Mestres Internacionais A. Bergland (da Noruega), P. Darga (da França), S. Malovicz (da Iugoslávia) e R. Uljanov (da União Soviética).

Aos 20 anos, venceu o Moscow Invitational de 1968, derrotando todos os Grandes Mestres mais fortes do mundo – Hellstrom (da Suécia), Duhamel (da França), Flento (da Itália), Laev e Shapkin (da União Soviética) – e dois campeões mundiais – Luchenko (ex-campeão mundial) e Borgov (campeão mundial da época), ambos da União Soviética.

Entre a primeira partida do Campeonato Estadual de Xadrez de Kentucky de 1963 e a final do Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1966, permaneceu três anos seguidos sem perder uma partida sequer, até ser derrotada pelo campeão americano Benny Watts.

De novembro de 1963 a dezembro de 1966, perdeu apenas três partidas oficiais: a final do Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1966 (para Benny Watts) e as finais do Mexico City Invitational de 1966 e do Paris Invitational de 1967 (para Borgov).

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