Anticiência de direita e anticiência de esquerda: Uma breve análise

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Por Glauber Frota

Definindo anticiência

Anticiência é toda e qualquer doutrina de natureza política e possuindo bases pseudocientíficas, que além de atacar frontalmente a um campo do conhecimento (ou a ciência como um todo), é sempre praticada com algum interesse. Comumente se pensa que a motivação da anticiência é de caráter religioso, isto é, que se trata de uma conspiração religiosa que busca por exemplo, bater de frente com a ciência para reafirmar os valores e crenças de determinada religião. No entanto, a anticiência é um fenômeno muito mais complexo e que merece tanta atenção dos céticos quanto a pseudociência. Suas motivações, além de poderem ter um bordo religioso, podem ter raiz na corrupção acadêmica (“publicar ou perecer“), busca por fama pessoal, militância política e outras. Quanto à anticiência de motivações por militância, esta pode ser de qualquer viés: de direita ou de esquerda, liberal ou conservadora. Este texto focar-se-á nas anticiências ligadas a vieses políticos. Fazendo uma simples demarcação entre “anticiência de direita” e “anticiência de esquerda” para melhor compreensão.

Anticiência de esquerda

A anticiência de esquerda é quase tão antiga quanto às próprias épocas de Karl Marx e Friedrich Engels. Que em seus escritos, buscavam prezar-se pela ciência e pela confiança nela como forma de obtenção de conhecimento válido. No entanto, adotaram uma versão diferente, porém não muito, da obscura dialética hegeliana. O que fadou a proposta do marxismo como ciência ao fracasso. Isso foi tão crucial a ponto de dar abertura séculos mais tarde, para que “intelectuais” ditos pós-modernos vissem na esquerda uma brecha para soltar seus absurdos contra a ciência.

Marxistas ortodoxos foram veementes em sua investida contra a ciência. Gyorgy Lukács, que se autointitulava um “sectário messiânico” contra o capitalismo, basicamente acreditava que nada fora do marxismo poderia ser científico. Pois se não era marxista, estava a serviço da “burguesia” e do “capital”. Inclusive, a própria sociologia em si seria uma espécie de “ciência burguesa“. Logo, uma pseudociência.

Outro exemplo bastante comum de anticiência de esquerda ortodoxa tem base no materialismo dialético. Trata-se da “interpretação” da física quântica com base nessa filosofia. Para os “cientistas” adeptos dessa interpretação, a física quântica estaria supostamente confirmando o materialismo dialético na realidade.

A União Soviética de Stalin ficou conhecida pelo infame Lysenkoismo (Trofim Lysenko). Que se tratou de uma censura doutrinária do Partido Comunista à genética mendeliana, considerada “burguesa”, para dar lugar ao “método” heterodoxo de plantio e cultivo de vegetais. “Baseado” em sessões de materialismo dialético, que era considerado não apenas uma excelência em filosofia da ciência, mas a única “ciência verdadeira” em si da época, o Lysenkoismo levou os soviéticos a adotarem uma agricultura tão atrasada quanto às dos tempos dos czares. O que mais tarde, seria um dos componentes que levaria a Era Stalin ao fracasso.

Atualmente, vemos a atitude anticientífica de grupos como o MST que, utilizando-se de motivações políticas com base na falácia naturalista, destoam seu ódio e ignorância contra a pesquisa e comercialização de alimentos transgênicos. A ponto de destruir laboratórios de pesquisa.

Por último, mas não menos importante, é conhecida a influência do pós-modernismo entre intelectuais de esquerda, especificamente, aquela conhecida por “Nova Esquerda”. As formas de anticiência mais comuns e praticadas por muitos intelectuais ligados à “esquerda pós-moderna” são a teoria queer, o Strong Programme em sociologia da ciência baseado no relativismo filosófico (um de seus principais divulgadores é o filósofo pós-moderno francês Bruno Latour) e a teoria feminista radical, que apesar de possuir várias vertentes, o ponto comum acaba sendo em denunciar a ciência como uma atividade essencialmente “patriarcal” ou “falocêntrica“.

Os exemplos de anticiência de esquerda são muitos e exaustivos ao longo da história. Mas muito interessantes de serem estudados quando não se tem o desejo dogmático de colocar as ideologias políticas acima da ciência.

Anticiência de direita

Pode-se dizer que a anticiência de direita é mais surpreendente e mais polêmica que a de esquerda. Exatamente porque envolve bastante as ciências naturais como a química, a biologia e inclusive a climatologia.

Uma das formas mais conhecidas de anticiência neste viés é o “racismo científico“, também conhecido por darwinismo social. Ambos conjuntos de diatribes surgiram de interpretações equivocadas da biologia evolutiva e a partir de estudos bem-intencionados que tentavam investigar diferenças biológicas entre os seres humanos. Atribui-se a Francis Galton, o pai do conceito de eugenia, o começo da inspiração para o racismo científico e o darwinismo social.

Tais doutrinas tiveram um papel crucial na segregação entre brancos e negros nos países ocidentais. Especialmente nos países de língua anglo-saxônica como Inglaterra e Estados Unidos. Nesses países, era comum acreditar que negros tinham inatos em sua biologia, a propensão para matar, estuprar, delinquir (uma crença que perdura até os dias atuais), bem como serem “intelectualmente inferiores” aos brancos. O que serviu para justificar a escravidão e opressão aos negros. Mesmo não havendo evidências científicas para a “inata perversão” da população negra, políticos de inclinações conservadoras utilizavam-se da “ciência” para conservar brancos separados dos negros e manter a “ordem racista” daqueles tempos.

Após a abolição da escravatura nos países ocidentais, o racismo científico tomou formas cada vez mais bizarras e que até hoje, no século XXI, ainda se mantém na confiança de estudiosos e pesquisadores com intenções obscuras. A doutrina foi base para os horrendos experimentos com judeus nos campos de concentração da Alemanha Nazista e ainda servia de justificativa no início do século passado, para a defesa e manutenção de políticas de exclusão de negros, em especial nos Estados Unidos. Após os horrores do nazismo, o racismo científico ficou esquecido por uns anos até ser reelaborado nos anos 60 por psicólogos que tentavam estudar o comportamento humano por um enfoque evolutivo.

Tais psicólogos, como Arthur Jensen, passaram então a afirmar de modo polêmico a inferioridade intelectual inata de negros utilizando-se de escalas pseudocientíficas de QI. Reacendendo assim (especialmente nos Estados Unidos), o desejo de determinados grupos políticos para se posicionar contra medidas assistencialistas que buscam socialmente incluir pessoas. Especialmente negros.

Nos anos 90, Richard Herrnstein, um psicólogo behaviorista interessado em economia comportamental, juntamente com Charles Murray, um cientista político que se define um “libertário conservador” (libertarian conservative), publicaram um livro chamado “The Bell Curve” (em português “A Curva Normal”). Nele, os autores argumentam que a inteligência humana é influenciada por supostos fatores hereditários e ambientais, sendo o melhor “indicador” de muitos aspectos pessoais como renda financeira, desempenho no trabalho, nascimento fora do casamento e envolvimento na criminalidade. Na visão dos autores, tal “indicador” é melhor e mais confiável do que considerar a análise social com relação ao status socioeconômico e parental dos indivíduos. O livro também defende a tese racista de que negros são intelectualmente inferiores a brancos fornecendo uma base pseudocientífica de pesquisa. Bem como faz “recomendações políticas” como evitar ações afirmativas, favorecimento de políticas restritivas de imigração e eliminação de políticas que favoreçam as taxas de natalidade entre mulheres pobres.

Em suma, tanto no caso do “racismo científico” quanto do darwinismo social são notáveis as influências das filosofias do determinismo biológico (tido como uma pseudociência) e do inatismo biológico. Bem como as bases motivadoras de pretensões políticas de direita ao longo da história.

Outra conhecida anticiência de direita é o negacionismo do aquecimento global (negacionismo climático). A intenção desses negacionistas enquanto atividade política, em quase todos os casos, está ligada à defesa da ideologia do liberalismo de mercado e que por sua vez confiam nos ditos “céticos do clima”. Tal defesa é sustada na crença de que o Estado não deve intervir em como as empresas devem fabricar seus produtos e assim, manter a economia aquecida. Isto é, as empresas enquanto entes livres, na mentalidade desses negacionistas, não devem aceitar assinar protocolos e submeter-se a padrões e acordos que buscam limitar ou inibir a emissão de poluentes na atmosfera, nos solos e nas águas. Um artigo no Mises.org, o site que divulga a doutrina econômica da Escola Austríaca (conhecida por seu caráter pseudocientífico), chega a inclusive dizer que o aquecimento global é uma “religião”.

O criacionismo é uma das mais conhecidas pseudociências difundidas na atualidade. Ele pode ser dividido em duas vertentes, o “Design Inteligente“, que seria a versão “laica” desta pseudociência, e o criacionismo bíblico, que seria sua versão “confessional” e cristã. Mesmo com essa divisão, o criacionismo enquanto anticiência e até movimento político, é defendido por setores conservadores religiosos (e intelectuais a ele ligados). Que exaustivamente tentam através de representantes políticos, ensiná-lo nas escolas em conjunto com a biologia evolutiva. Dois conhecidos defensores do criacionismo na forma do Design Inteligente no Brasil, são o químico Marcos Nogueira Eberlin e o professor Enézio Eugênio de Almeida Filho.

Quem coloca a religião ou a ideologia política acima da ciência, seja de direita ou esquerda, liberal ou conservadora, cristã ou muçulmana, é o tipo de charlatão mais perigoso que o mundo moderno pode produzir.

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Cético desde que me entendo por gente, quando comecei a questionar se Deus tinha face. Headbanger nas horas vagas, técnico em informática - buscando aperfeiçoamento - e em dúvida quanto a seguir carreira pública, acadêmica ou privada. Ávido autodidata. Interessado por filosofia da ciência (com ênfase às ciências naturais), história da filosofia, história da ciência, filosofia política, política geral, economia, direitos humanos, psicologia, psiquiatria (incluindo forense) e cultura em geral. Crítico das ditas "modas anti-intelectuais" tais como as pseudociências e correntes filosóficas como o existencialismo, a fenomenologia, diversas vertentes de idealismo, as correntes de pensamento "pós-modernas" e culturas comerciais. Buscador de um mundo moderno, mais justo e igualitário através da ciência e da tecnologia. Onde o charlatanismo e o "macaneo", que em espanhol platino é gíria para "embuste", ou mesmo, "delírio", não encontram lugar.