Um cientista no país das maravilhas

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Créditos: Paulo Almeida / Instituto Questão de Ciência.

Por Felipe Nogueira
Publicado na Skeptical Briefs

Edzard Ernst é médico e foi o primeiro professor de medicina alternativa do mundo. Sempre achei sua história bastante interessante. Por anos, Ernst tem sido um crítico e cético de peso das frequentes afirmações extraordinárias dos defensores da medicina alternativa. No seu blog, ele posta diariamente análises críticas de estudos da medicina alternativa. No seu livro Trick or Treatment, publicado em 2008 e coautorado com Simon Singh, Ernst explicou a história e a evidência de diferentes terapias alternativas, como acupuntura, homeopatia e quiropraxia. No entanto, esse cientista cético começou sua carreira como um homeopata. Como isso aconteceu? Como ele mudou de ideia?

As respostas para essas perguntas e outros detalhes interessantes da carreira de Ernst são encontrados no seu mais recente e excelente livro. A Scientist in Wonderland [Um Cientista no País das Maravilhas – sem edição no Brasil] foi publicado em Janeiro e é um memoir “da busca pela verdade e encontrando problemas”, como explica o subtítulo.

Enrst cursou a faculdade de medicina na Alemanha. Me surpreendi ao descobrir que ele queria ser músico ao invés de médico. Mesmo após o término do curso de medicina, ele reconhecia a sua paixão: “Ainda me sentia muito mais um músico do que um médico”. Por volta de 1970, Ernst teve dificuldades ao achar um trabalho como médico iniciante (“junior doctor”) e encontrou apenas no único hospital homeopático da Alemanha.

Ele trabalhou em diferentes locais na Alemanha, incluindo na Universidade de Munique, mas foi em Londres num laboratório de reologia sanguínea no Hospital St. George que ele teve seu primeiro trabalho como pesquisador. Pela primeira vez, ele achou que estava no trabalho certo, por estar trabalhando com pessoas inteligentes, frequentando conferências e publicando artigos.  O curso de medicina focou na clínica médica; Ernst não aprendeu a ser um cientista na faculdade. Foi trabalhando nesse laboratório que Ernst começou a perceber a importância da ciência médica. Com tempo suficiente para pensar, ler e aprender, ele questionou, pela primeira vez, a premissa mais básica dos clínicos de que, se o paciente melhorou, a causa é o tratamento. Um cientista médico é treinado para ser cético: para duvidar e questionar esse tipo de premissa. Ernst diz, “Um cientista que não é crítico é uma contradição dos termos: se encontrar um, há grandes chances de ser um charlatão. Em contraste, um clínico crítico é uma verdadeira raridade, na minha experiência. Se encontrar um, há grandes chances de ser um médico bom e responsável”.

O trabalho como pesquisador estava bom, mas Ernst sentia falta de atividades clínicas. Ele trocou de trabalho algumas vezes até encontrar um local em Munique onde poderia pesquisar e fazer atividades clínicas também. A pesquisa foi tão produtiva que ele ganhou o título de PhD sem dificuldades. Nessa época, por volta de 1980, ele publicou seu primeiro artigo em medicina alternativa.  Mas foi em 1992 que sua vida mudou drasticamente após ver uma propaganda para a posição de professor da disciplina de medicina alternativa na Universidade de Exeter. Após um ano, ele foi nominado para essa tarefa. A missão do time de pesquisa de Ernst era conduzir uma pesquisa rigorosa sobre a eficácia, segurança e custo da medicina complementar. No entanto, como não é segredo, terapeutas alternativos não querem isso. Segundo Enrst, “alguns defendiam a opinião de que medicina alternativa não deveria ser investigada cientificamente”.

Ernst prometeu que investigaria as terapias alternativas mais populares no Reino Unido. Para a surpresa dele – e minha também quando li no livro – cura espiritual era uma terapia alternativa comum. Nessa época, havia mais curandeiros espirituais do que quiropráticos, osteopáticos, acupunturistas, homeopáticos e herbalistícos juntos e praticamente o mesmo número de médicos ortodoxos. Enrst e os curandeiros espirituais concordaram nos métodos a serem utilizados e o experimento iria testar a eficácia dos curandeiros no tratamento da dor crônica.

O livro A Scientist in Wonderland explica porque a melhor maneira de avaliar tratamentos é através de um estudo clínico randomizado e controlado (randomized controlled trial). Nesse tipo de experimento, os participantes são separados aleatoriamente em, pelo menos, dois grupos: o grupo intervenção (a terapia a ser testada) e o grupo controle. Se a terapia a ser testada é um medicamento, o grupo controle recebe uma pílula que não possui nem efeito, um placebo. Porém, quando uma terapia não medicamentosa é testada, o “placebo” não é tão evidente assim. Não podemos simplesmente fazer nada no grupo controle, já que os pacientes nesse grupo precisam receber algo semelhante com a terapia a ser testada, mas que não possui efeitos. Com isso, quando o estudo termina, cientistas usam estatística para comparar a diferenças entre grupos. “Qualquer tratamento eficaz – isso quer dizer eficaz além do placebo – irá gerar um efeito específico mais o efeito placebo”, explica Ernst.

O experimento da cura espiritual terminou com quatro grupos: cura por um curandeiro espiritual; placebo da cura espiritual feita por um ator treinado; cura por um curandeiro localizado em um cubículo escondido da visão do paciente; placebo da cura sem pessoas presentes no cubículo. Durante o estudo, Ernst viu um alívio tão grande da dor que um de seus pacientes parou de usar cadeira de rodas.

Surpreendentemente, a redução da dor foi devido ao efeito placebo: os resultados mostraram que todos os grupos obtiveram uma redução considerável da dor sem diferença estatisticamente significante. Ernst e seus colegas publicaram um artigo referente ao estudo com um conclusão clara: “um efeito específico de cura espiritual face-a-face ou distante para dor crônica não foi demonstrado”.

Os leitores do livro também aprenderão que a razão de investigar a medicina alternativa é não apenas saber se é eficaz ou não, mas também saber se a terapia é ou não segura. O paciente pode sofrer danos do tratamento diretamente, o que pode acontecer, por exemplo, com a acupuntura quando o terapeuta causa um pneumotórax. Todo tratamento tem seu risco, até mesmo a homeopatia que não possui nenhuma substância ativa na sua pílula. Por que? Porque pacientes podem acabar buscando tratamentos não estabelecidos ao invés de tratamentos eficazes. Além disso, a pesquisa de Ernst mostrou que metade dos homeopatas recomendam contra a vacina tríplice viral. Então, os terapeutas alternativos podem causar danos e não podemos negligenciar isso.

Ernst recebeu diversos prêmios pela qualidade da sua pesquisa. No entanto, a qualidade da pesquisa não é importante para defensores da medicina alternativa. O que é importante é defender a medicina alternativa mesmo quando não há evidências. Falando a verdade sobre as evidências disponíveis, Ernst criticou afirmações de defensores da medicina alternativa, como o Príncipe Charles. Na época, o reitor da Universidade de Exeter questionou Ernst: “Por que você tem de ser tão pouco diplomático?” Certamente aparenta, por essa citação isolada, que o reitor estava mais preocupado em ser político do que com a verdade e possíveis danos causados pela medicina alternativa. E se as evidências da pesquisa da medicina alternativa não são diplomáticas? E isso é verdade, como Ernst colocou, “nossa análise crítica da medicina alternativa, uma vez reconhecida local, nacional e internacionalmente, não era mais desejada”.

E em relação à ética? Ernst não deixa nenhum leitor esquecer que seu trabalho é bastante importante na medicina. Médicos ocupam uma posição de autoridade e poder e os pacientes estão vulneráveis, principalmente quando estão sofrendo. Ernst foi brilhante quando escreveu:

Quando a ciência é absurda, sequestrada ou distorcida para apoiar sistemas de crença políticos ou ideológicos, padrões éticos inevitavelmente serão rompidos. A pseudociência resultante é uma enganação perpetuada nos mais fracos e vulneráveis. Devemos a nós mesmos e aqueles que virão depois de nós, defender a verdade, não importando quanto problema isso pode causar.

De fato, a briga com o Príncipe Charles gerou controvérsia. Mesmo que Ernst e seu time publicaram mais artigos na literatura médica revisada por pares do que todo o resto junto da Universidade de Exeter, as desavenças com o Príncipe Charles deixaram o time de Ersnt isolado e sem financiamento. A situação ficou tão ruim que o time foi desfeito e Ernst se aposentou. Ele escreveu, “O médico e o cientista ainda podem estar cheio de perguntas, mas o músico dentro de mim respira aliviado que a performance, com todas as demandas impossíveis e momentos terrivelmente difíceis, finalmente terminou”.

Ernst termina o livro com um rápido sumário das conclusões mais importantes da sua pesquisa sobre a eficácia da acupuntura, quiropraxia, medicina herbalística e homeopatia. A Scientist in Wonderland deve ser dado a todo mundo que promove medicina alternativa. O livro menciona importantes princípios sobre a avaliação de tratamentos. O livro mostra os obstáculos que um time de cientistas pode enfrentar quando seus achados contradizem as crenças e opiniões de pessoas poderosas. Além disso, o livro mostra a importância da verdade.

Gostaria de agradecer Edzard Ernst não apenas por ter escrito esse livro fascinante sobre sua carreira, mas por ter a coragem de defender a verdade e de ser o exemplo de cientista que precisamos em todas as áreas, especialmente na medicina alternativa. Ernst é, como falou a médica Harriet Hall na sua revisão do livro no blog Science-Based Medicine, “um verdadeiro herói. Ele continua sendo um dos nossos guerreiros líderes na batalha para defender a ciência e vencer a irracionalidade”.

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