Uma crítica filosófica à psicanálise

Crédito: Patricia Snyder.

Por Matías Castro
Publicado no Sociumlogos

A psicanálise é uma das pseudociências mais seriamente criticadas. Como a psicanálise goza de um lugar privilegiado na academia, diferentemente dos terraplanistas ou conspiracionistas do 11 de setembro, mas igualmente como a homeopatia e outras pseudotécnicas medicinais, é alvo de muitas críticas sérias e informadas de pesquisadores acadêmicos. Muitas dessas críticas se concentram nos defeitos e problemas da psicanálise na clínica, ou seja, quando se trata de curar ou aliviar efetivamente algum desconforto ou doença, porque é dessa maneira que cientistas e psicólogos examinam hipóteses médicas: buscam testar sua eficácia com uma bateria de testes e exames, como ensaios duplo-cego, controle de placebo, estatísticas, controle de viés, acompanhamento de paciente, pesquisas e muito mais. Existem muitos estudos (aqui e aqui existem mais estudos) sobre a ineficácia da psicanálise em comparação com quase todas as outras terapias rivais, como a terapia cognitivo-comportamental. Um grande número de céticos e críticos da psicanálise baseia suas razões em todos esses estudos (existem muitos projetos vigorosos de crítica histórica à psicanálise com livros como O Livro Negro da Psicanálise e autores como Michel Onfray). E por um bom motivo, já que o mínimo que se pode esperar de um tratamento médico é que funcione. Mas as críticas são suficientes nesse caso? Embora acredite que seja suficiente, também acredito que vale a pena tentar uma crítica filosófica à psicanálise.

Há boas razões para criticar a filosofia inerente à psicanálise. Embora seja verdade que não exista uma única psicanálise, alguns autores permanecem muito próximos das posições originais de autores como Freud, Lacan, Jung e seus discípulos como Alain Miller e outros que tentam estabelecer vínculos com outros autores e com outras psicotécnicas, como no caso da neuropsicanálise ou psicoterapia (psychotherapy), em que quase todas as variantes compartilham algumas concepções do que seria o núcleo da psicanálise que, além disso, sendo tão gerais, são filosóficas. Um punhado de exemplos ajuda a ilustrar esse ponto: existe algo chamado inconsciente, que é diferente dos processos inconscientes; a mente como não sendo um sistema emergente do cérebro e que, às vezes, não é material; repressão e retorno (às vezes, simbólico) do reprimido, maior relevância dos fatores subjetivos em contraste com os objetivos (por exemplo, uma maior importância às interpretações subjetivas do que aos fatores objetivos, como ambiente familiar, status socioeconômico ou predisposição genética), entre outros.

Uma crítica filosófica à psicanálise deve se concentrar nas concepções e hipóteses gerais da psicanálise – em particular, nas suposições ontológicas, epistemológicas e semânticas, mas também nas éticas, praxiológicas e, até mesmo, políticas.

Uma razão final é que a relação entre a psicanálise e a filosofia é muito popular, embora isso certamente não signifique que não seja uma relação forçada e estéril. Desde Paul Ricoeur, que incluía Freud entre os chamados mestres da suspeita (incluindo Marx e Nietzsche), até os dias atuais com Slavoj Žižek, que é um filósofo e profundo admirador de Lacan, muitos autores tentaram combinar a psicanálise com a filosofia. Há uma infinidade de textos menos famosos nessa área. Existem livros sobre filosofia política e psicanálise, como A Esquerda Lacaniana de Yannis Stavrakakis. Os livros de psicanálise e filosofia social, como os trabalhos da Escola de Frankfurt. Os livros que misturam marxismo e psicanálise também são muito populares. Há outras coisas francamente engraçadas, como esse artigo (publicado pela Universidade de Buenos Aires), que tenta combinar as interpretações filosóficas da mecânica quântica com a psicanálise. Em caso de dúvida, existe ainda uma revista de Psicanálise e Filosofia que publica regularmente novas edições na universidade argentina UCES: Verba Volant.

Além disso, uma crítica filosófica à psicanálise tem uma vantagem adicional: permite falar sobre fundamentos, em vez de aplicações específicas. Em outras palavras, mesmo que todos os estudos sobre a ineficácia da psicanálise estivessem errados, se a psicanálise não pode se defender em um nível fundamental significa que estamos efetivamente na presença de uma pseudociência, independentemente dos estudos enviesados sobre sua aplicação clínica. Dificilmente, uma técnica sem fundamentos epistemológicos sólidos será eficaz, ou uma teoria política baseada em preceitos errôneos ou falaciosos será útil para administradores e cientistas políticos.

A ontologia da psicanálise

A ontologia é o ramo da filosofia que estuda o ser e o vir a ser do mundo, ou seja, estuda as coisas e suas mudanças de maneira geral (especificamente, a ciência lida com essa questão). A ontologia da psicanálise é, então, sobre o que os psicanalistas entendem ou pressupõem sobre o mundo e suas mudanças. Até onde sei, não existem escritos psicanalíticos que exponham e defendam sistematicamente qual é a ontologia que a psicanálise adota em suas diferentes variantes. Algo que em outras ciências é muito comum. Os físicos, por exemplo, sabem com precisão suficiente que classe de coisas são as partículas; eles têm uma ideia geral de mudança e emergência (de coisas complexas a partir de coisas mais simples, por exemplo, sabem diferenciar um campo fundamental de uma molécula e ela, por sua vez, de suas interações) e a concepção mais exata e verdadeira de espaço e tempo. O mesmo pode ser dito dos biólogos, que têm uma ideia clara o suficiente de conceitos gerais, como espécie, vida ou organismo.

De qualquer forma, uma ontologia da psicanálise pode ser extraída da leitura de seus textos mais importantes. A mais famosa e polêmica é a posição dos psicanalistas diante do chamado “problema mente-cérebro”, que nada mais é do que o debate sobre as concepções ontológicas sobre a mente e o corpo. O que é a mente? É algo diferente do corpo ou faz parte dele? O que são ideias ou pensamentos? Coisas físicas ou coisas imateriais? A posição psicanalítica parece ser o dualismo psicofísico (também chamado de dualismo psiconeural). Esta é a tese que afirma que mentes (espíritos, almas) são entidades que respondem a leis que não sejam leis naturais, que governam de maneira diferente aquelas entidades carentes de alma. Para o dualismo, mentes ou almas “ocupam” os corpos e podem existir independentemente deles, preceito que, por sua vez, apoia a ideia religiosa da possibilidade de uma transcendência da mente-alma além da “vida física orgânica”.

Em particular, as ideias mais fundamentais para as hipóteses psicanalíticas (como a repressão ou a constituição id, ego e super-ego da mente) nunca se referem direta ou indiretamente ao cérebro. A tríade id, ego e super-ego existe fora do cérebro e, portanto, não seria material. De acordo com a psicologia científica, por exemplo, os sonhos são processos cerebrais (isto é, materiais), mas para a psicanálise os sonhos são o retorno simbólico de algo que foi reprimido. Deve-se notar, portanto, que os sonhos são uma função especial do inconsciente freudiano imaterial, e não uma função parcialmente biológica, como a digestão ou a respiração.

Quando Freud desenvolveu suas famosas hipóteses de pulsões e libido, ele nunca especificou que classe de coisas elas são. Embora tenha dito muito sobre suas supostas funções, ele praticamente não falou nada sobre sua natureza. A libido é uma energia no mesmo sentido que físicos ou biólogos se referem? Ela pode ser medida de alguma maneira? Existe algum dispositivo capaz de medi-la? É compatível com as leis de conservação de energia? Não sabemos.

Outro indicador de um certo idealismo na psicanálise é a mania de se relacionar e se referir em todas as explicações como símbolos. Se um psicanalista deseja encontrar a razão ou a causa de uma doença, geralmente a procura em símbolos ou abstrações (geralmente alusivas ao sexo ou à sexualidade). Se uma pessoa tem, digamos, monofobia ou solidão ao ponto de produzir ansiedade é porque a pessoa tenta simbolizar seu medo de não ser capaz de evitar se masturbar sozinha. Este exemplo exagerado não é meu, mas de Freud (Inhibitions, Symptoms and Anxiety, 1925). Quase todas as explicações psicanalíticas são deste tipo: elas se referem a símbolos e abstrações, não a coisas materiais, como cérebros, famílias ou condições de vida (como viver na pobreza, ter poucos amigos etc.). A psicanálise não parece apresentar explicações que se referem a mecanismos de alguma classe que não sejam simbólicos ou abstratos; não parece haver quase nenhuma explicação que se refere a algum mecanismo material (como, por exemplo, a segregação de alguma substância como a dopamina).

Um último exemplo. Uma das definições mais estranhas do inconsciente se deve a Lacan. Segundo Lacan, o inconsciente “está estruturado como uma linguagem”. Portanto, para Lacan, o inconsciente, responsável por quase tudo o que acontece na vida mental de alguém, é uma estrutura de um objeto formal (uma linguagem), que apenas prova que o idealismo passa pela psicanálise.

Em resumo, a psicanálise assume um dualismo psiconeural, que é incompatível com a ontologia das ciências empíricas e com o método científico em geral.

Semântica da psicanálise

Semântica é o ramo da filosofia que lida com significado, referência, verdade, clareza, relevância, representação e assim por diante. Esses conceitos semânticos são destacados no seguinte exemplo de enunciados: “O tensor de campo se refere ao campo”, “Uma teoria de campos representa o campo ao qual se refere”, “O sentido de um tensor é descrito nas equações de campo” e “O experimento indica que a teoria de campos é aproximadamente verdadeira” (Bunge, 2008).

Tomando o exemplo da seção anterior em relação à definição do conceito que talvez seja o mais importante na psicanálise lacaniana: o inconsciente. Todo predicado tem algum sentido (conteúdo ou conotação) e se refere a algo (denotação). Por exemplo, o significado do predicado “cruel” é “que se deleita em prejudicar um ser vivo” e os referentes desse predicado são seres humanos. Por outro lado, o sentido do predicado “tia” é “irmã do pai ou mãe” e sua classe de referência é a classe de todos os animais que se reproduzem sexualmente (Bunge, 2002). Na definição lacaniana de inconsciente como algo “estruturado como uma linguagem”, qual é o sentido? Todas as linguagens? Algumas, neste caso, quais e por quê? É como a metáfora e a metonímia? Neste caso, quais metáforas, todas, algumas? Não parece haver uma classe de referência clara, porque não se sabe se são todas metáforas ou apenas algumas e nem se há alguma referência ao que os linguistas entendem pela estrutura de uma determinada linguagem (ou de uma estrutura geral) que pouco ou nada tem a ver com a definição de Lacan. Outras frases de Lacan simplesmente carecem de sentido e, portanto, não podem ser seriamente analisadas. Por exemplo: “Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer” ou “Penso onde não sou, logo sou onde não penso”.

O conceito de verdade, que é um dos mais essenciais da semântica, está ausente na psicanálise. Até onde sei, os psicanalistas não desenvolveram uma definição especial de verdade e nem adotaram explicitamente uma [definição] preexistente. O fato é que parece que a verdade não é um tema que importa aos psicanalistas. Embora pareça que a teoria tacitamente adote o apelo à autoridade (como no caso de “…como disse Freud…”), que implica que algo é verdadeiro apenas porque alguém com autoridade disse.

A clareza também não é o forte dos psicanalistas. As hipóteses têm um duplo significado, há um sentido literal para fazer afirmações fortes e impressionantes, e um sentido amplo e metafórico, que evita a refutação. O complexo de Édipo, em sentido literal, é um desejo incestuoso e um desejo de morte, enquanto, em um sentido amplo, é um conjunto de conceitos, como amor, ódio, ciúme e rivalidade, que permitem descrever qualquer relação humana, ou também é definido como uma estrutura triangular entre a criança, o objeto de desejo e o portador da lei. O falo designa o pênis, ou tudo o que é desejado (por esse motivo, qualquer desejo pode confirmar a ameaça de castração ou a inveja do pênis). A homossexualidade é o desejo sexual no sentido estrito, ou qualquer relação amigável entre indivíduos do mesmo sexo. Pode-se sempre dizer que “a psicanálise é outra coisa” (Primero, 2005), algo certamente útil que se pode aproveitar por causa de sua ambiguidade, mas bastante desonesto.

Epistemologia da psicanálise

O aspecto filosófico que recebeu mais atenção. Quase todo mundo conhece as críticas de Karl Popper ou Mario Bunge à epistemologia da psicanálise. É também, juntamente com a ineficácia clínica, um dos alvos favoritos dos críticos e céticos da psicanálise. Caso seja necessário, lembremos que a epistemologia é o ramo da filosofia que lida com o conhecimento. Ela lida com problemas como o que significa conhecer, quais formas de conhecer existem, o que é conhecimento, como o conhecimento científico difere do conhecimento comum, o que é uma ciência e o que é uma pseudociência, o que são e como se diferenciam entre si uma teoria, uma lei, uma hipótese e um dado, o que constitui uma evidência, etc.

As hipóteses psicanalíticas parecem, honestamente, uma lista das características básicas de uma pseudociência. É reducionista, porque a psicanálise é pansexualista e panpsíquica. Ou seja, todos seus postulados são explicados a partir de uma hipótese sexual, e todos os comportamentos, tanto individuais como sociais, os comportamentos do homem na história ou o que quer que seja se explica pelo psíquico: ela não examina outros níveis de organização da realidade. Não existem, por exemplo, hipóteses psicanalíticas que vinculam aspectos psicológicos a aspectos sociais ou biológicos. Não existe uma hipótese de referência entre o desenvolvimento das fases de desenvolvimento (não importa a redundância) da psicanálise (anal, fálica, oral) e outros aspectos como o nível socioeconômico ou o status social. Algo que as ciências psicológicas fazem o tempo todo como quando relacionam níveis de desigualdade de renda e autonomia de trabalho com insatisfação ou ansiedade. A psicanálise é, pelo menos, parcialmente infalseável, como corretamente afirmou Popper, porque qualquer evento é interpretado como confirmatório. Em muitos casos, diante de um evento que parece refutar uma hipótese, esta última é reinterpretada para ser capaz de sustentá-la (por exemplo, quando Freud busca traumas sexuais na infância para explicar a neurose e o paciente nega, o que sustenta a interpretação do psicanalista é que esses eventos haviam sido reprimidos, e quando é evidente que o evento nunca ocorreu, o psicanalista considera uma fantasia do inconsciente, recorrendo mais vezes ao autoengano para “salvar o infalível” e continuar apoiando sua hipótese) (Primero, 2005). Em outros casos, as hipóteses foram refutadas experimentalmente, como a repressão de eventos traumáticos (refutada, ao menos em parte, pelos trabalhos da Dra. Elizabeth Loftus e outros).

A metodologia de pesquisa em psicanálise não é científica – em particular, a experimentação e/ou a coleta de dados objetivos não são atitudes promovidas pelos psicanalistas. E muitos autores populares da psicanálise passam suas interpretações como parte do corpo teórico da disciplina. Nenhum dos principais postulados da psicanálise é objetivamente axiomatizado, isto é, matematicamente e logicamente. Embora isso seja verdade para muitas ciências maduras, a psicanálise nem sequer tem uma formação formal geralmente aceita por seus membros. A única tentativa é a dolorosa confusão de Lacan em relação à topologia que já foi denunciada por Alan Sokal em sua famosa obra Imposturas intelectuais. É uma “ciência isolada”, que não tenta estabelecer vínculos interteóricos com outras ciências (ou seja, é compartimentalizada e, portanto, não é sistêmica). Em particular, nenhuma ciência social ou biossocial utiliza a psicanálise e nem a psicanálise busca se enriquecer de qualquer uma delas. Todas as outras ciências pedem e emprestam algo a outras ciências: economistas aprendem com sociólogos, biólogos aprendem com químicos, psicólogos aprendem com biólogos e assim por diante. A psicanálise está sozinha, embora no passado tenha se aventurado em outras áreas para se expor ao ridículo: por exemplo, a explicação da origem da cultura em Totem e Tabu (Freud, 1913), ou a explicação da revolução russa, causada, segundo o antropólogo Geoffrey Gorer, como as mães russas apertavam as fraldas.

O conceito de efetividade e evidência é estranho à psicanálise, porque não define (em alguns casos, nem sequer aceita) a ideia de cura em pacientes. O que não permite demarcar entre o que é verdadeiro, o que é falso, o que é duvidoso ou o que é mais ou menos verdadeiro do que qualquer outra coisa (ou seja, não permite comparar com hipóteses rivais).

A psicanálise não possui um programa de pesquisa e nem são conhecidos relatórios de progresso. Conceitos e hipóteses geralmente não são abandonados ou substituídos pela comunidade de psicanalistas.

Por último, mas talvez um dos pontos mais importantes, a psicanálise empalidece diante da neurociência, psicobiologia, psicologia social e outros ramos da psicologia científica, que explicam cada vez melhor o que a psicanálise tenta explicar.

Ética da psicanálise

A ética, juntamente com a axiologia, é o ramo da filosofia responsável por estudar os conceitos de bem, justiça, valor e norma, entre outros. É a disciplina que lida com o correto e o incorreto, o justo e o injusto, o valioso e o desvalioso, os direitos e as obrigações.

Como ponto de partida, a psicanálise não está de acordo com os padrões éticos esperados de uma técnica medicinal na Argentina. A Lei Nacional nº 26.657 de Saúde Mental, esclarece, na seção Direitos: “c) Direito a receber cuidados baseados em fundamentos científicos ajustados aos princípios éticos” (Lei 26.657, cap. III, art. 7.c).

E em sua implementação, de acordo com o Decreto Nacional 603/13: “c) A Autoridade de Aplicação determinará quais são as práticas baseadas em fundamentos científicos ajustados aos princípios éticos. Todas as práticas que não estiverem previstas serão proibidas” (Decreto de regulamentação 603/13, cap. IV, art. 7.c).

A psicanálise não tem base científica, portanto, violaria o decreto, de acordo com a lei. Se entendermos “fundamentos científicos” como “estudos que apoiam sua eficácia como terapia”, a psicanálise também não se adequa a isso (especialmente em sua variante lacaniana). A psicanálise não atende a outros requisitos da lei, como especificar a duração e o resultado do tratamento.

Os tratamentos farmacológicos, na maioria dos casos em que são utilizados, representam a melhor opção possível. Toda psicoterapia ou tratamento farmacológico pode não funcionar muito bem devido aos erros de uma pessoa. A psicanálise, por ser um conjunto desorganizado de ideias e frequentemente sujeita a interpretação, permite um número maior de variantes não padronizadas (em suma, confere ao psicanalista mais liberdade de ação). Enquanto que com tratamentos farmacológicos é possível saber quando o terapeuta se enganou, na psicanálise isso é minimamente discutível. Isso impede que o paciente, por exemplo, exija algum tipo de reparo para um tratamento inadequado. Os psicanalistas responderam a essas e outras leis reclamando ou inventando uma conspiração farmacêutica. Em alguns casos, eles se perguntam se é realmente “bom informar os pacientes”. Isso converte automaticamente a psicanálise em uma terapia clínica imoral e injusta, porque mente deliberadamente e não está em conformidade com a lei, incluindo o fato de que ela abusa de sua situação de poder em relação ao paciente.

Do mesmo modo que o darwinismo social, o racismo, o determinismo genético ou a teoria da escolha racional são eticamente repreensíveis porque tentam sustentar falsidades morais (como a ideia de que algumas raças são superiores a outras ou que todos somos egoístas inatos e o altruísmo é repreensível e condenável), algumas hipóteses psicanalíticas também são condenáveis. A “acidologia psicanalítica” de Julio Granel (“Teoria Psicanalítica do Acidente”, 2009), por exemplo, afirma que os acidentes “não são produto de causalidade, mas resultado de um processo inconsciente, produto de um planejamento que vincula a ação psíquica a um consequência inevitável e fatal: o acidente. Aplicando suas concepções analíticas que já estavam germinando nele, considero que os acidentes têm sentido e significado e são o produto de uma intenção inconsciente”. Essa hipótese culpa claramente as vítimas de acidentes, em vez de culparem os responsáveis pela imprudência ou, na verdade, não culpar ninguém se for, de fato, um acidente imprevisível. É imoral tentar culpar alguém que sofreu um acidente de carro se a pessoa não infringiu nenhuma lei e nem fez algo estúpido enquanto caminhava pela rua.

Os psicanalistas também agem imoralmente quando, além de chamarem a si mesmos de cientistas ou afirmarem que a psicanálise é uma ciência (como evidenciado pelas declarações da FEPAL, APM, APA, EOL, IPA e muitas outras instituições de difusão da psicanálise), negam constantemente o ethos científico: universalidade (todos os cientistas devem contribuir para o progresso da ciência, independentemente de nacionalidade, etnia, gênero ou qualquer outro fator de identificação cultural), desinteresse (a atividade científica deve ser regida pelo aumento máximo de conhecimento científico, deixando de lado qualquer pretensão de benefício pessoal), comunismo epistêmico (o conhecimento científico deve ser público e igualmente disponível a todos os membros da comunidade científica) e ceticismo organizado (todas as alegações de verdade levantadas pelos cientistas devem ser submetidos a um estudo metodologicamente crítico e não devem ser aceito por causa do princípio da autoridade ou por outras razões epistemicamente deficientes) (Merton, 1942). Os psicanalistas têm sido repetidamente denunciados por fraude e censura. Em outras palavras, sua comunidade não compartilha valores e normas que toda a comunidade científica, tacitamente ou explicitamente, adota.

Em resumo

A psicanálise ainda está viva na Argentina, Brasil, França e com algum outro foco ocasional de resistência no resto do mundo. Nas demais faculdades da psicologia espalhadas pelo mundo, outras abordagens, técnicas e filosofias, que são compatíveis com a maior parte do conhecimento factual do momento, estão sendo adotadas, respeitando e utilizando uma linguagem clara e compreensível. Em resumo, caminhando no extremo oposto ao da racionalidade, sabemos que a psicanálise (1) assume um dualismo psiconeural incompatível com a ontologia das ciências empíricas, (2) algumas de suas conjecturas são incomprováveis, (3) as conjecturas que são comprováveis carecem de evidência experimental adequada, (4) carece de um programa de pesquisa, (5) é isolada de outras ciências, (6) é menos eficaz do que outros tratamentos, e (7) os casos de supostas eficácias podem ser explicados por variáveis estranhas. Então, não há nenhuma razão para manter a psicanálise viva, incluindo sua prática clínica e filosófica, enquanto instituições pedem todos os anos para que vários célebres alunos ingressem na carreira psicológica ou neurocientífica.